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Quinzena de Dança de Almada: O tempo no corpo masculino e o poder das mulheres

Almada entrou no modo dança contemporânea e vai apenas sair no dia 22 de outubro. Na última sexta.feira e sábado, o Auditório Fernando Lopes-Graça foi palco de corpos em câmara lenta vindos de França e três mulheres, cada uma com um solo. Nem tudo foi motivo de euforia e entusiasmo da parte do público. Principalmente no sábado…

Tendre Achille, a gravidade dos corpos em terra

Três corpos conjugados num esfera a gravitar pelo palco. É esta a imagem que se retém de Tendre Achille, do coreógrafo François Veyrunes. Cabeças, braços, pernas e pés estão entrelaçados a balançar como se o planeta dos corpos fosse os corpos de Gaétan Jamard, Jérémy Kouyoumdjian e Sylvére Lamotte. Até se deslocam como se o tempo se desenrolasse nos seus corpos.

A companhia francesa volta a Almada para dançar Tendre Achille. Foto: Divulgação
A companhia francesa volta a Almada para dançar Tendre Achille. Foto: Divulgação

O novelo desfaz-se e os três intérpretes desenrolam-se em movimentos individuais sem se desligarem por completo. Há elevações. Há duetos. Há frases no chão em simultâneo. A dificuldade na execução não é o que mais se destaca, mas sim os tempos em que são executados os gestos.

É uma peça física, onde os movimentos quase que são cronometrados. É quase como se assistíssemos em câmara lenta à peça, que apenas pecou por ser demasiado extensa e repetitiva. A fisicalidade e a precisão na execução testaram a paciência dos espetadores. Houve fatalismo na intenção de cada movimento e foi isso que nos susteve durante uma hora.

Solos no feminino, três mulheres num palco só delas

Três solos, três mulheres e duas estreias. A noite de sábado era motivo de expectativa. Elisa Ferreira voltava aos palcos com um solo, que constituem a segunda parte de Bicos de Papagaio, já apresentado em 2015, na Quinzena de Dança de Almada. A ex-bailarina do Ballet Gulbenkian propunha-se a apresentar um “formato humorístico” dos movimentos de uma ex-intérprete. Alguns deles desenvolvidos numa “manutenção física nocturnal”, de acordo com a folha de sala.

A performance foi sempre apoiada por uma projecção de trechos de filmes como Thelma and Louise, de Barbra Streisand ou um concerto de Michael Jackson. A ex bailarina fazia gestos enquanto os filmes passavam e tentava ser irónica (ou engraçada) com o que se reproduzia. Tornou-se banal. O único momento onde assistimos à sua “desgraça” e confronto com o facto de já não ser bailarina foi num exercício que desenvolveu na barra improvisada com uma cadeira.

O fim também não compensou. Percebeu-se que o facto de terminar com uma música num clima de esperança, servia para dar a mensagem que está sempre revitalizada. Não resultou.

Foi uma peça que não distinguiu Elisa Ferreira. Com uma coroa de rainha e um tutu durante parte do tempo, não foi rainha da sua peça. Faltou emoção, criatividade e movimento, sobretudo.

A transformação dos figurinos

A segunda proposta era de Lidia Martinez. A viver e a coreografar em França, estreou A Perdida na Quinzena de Dança de Almada. Um arlequim parecia entrar pelo palco. O figurino era o que se distinguia e dava curiosidade: como irá dançar assim? Um círculo, como se se tratasse de uma dança tradicional turca, começou a revelar o figurino. Era desmontável, tinha várias camadas e cores. Surge uma nova mulher, de cabelo grande e solto com um vestido simples.

Sábado trouxe-nos três solos com três mulheres. Foto: Divulgação
Sábado trouxe-nos três solos com três mulheres. Foto: Divulgação

As maçãs são lançadas no palco. Há um pecado e Lilith chegou. Lidia Martinez apodera-se da sua aprendizagem em mímica e declama em palco palavras de “alguém inebriado”, como se estivesse a cantar numa noite de lua cheia. A ideia até era boa, a concretização ficou a meio gás. Mais uma vez, faltou movimento. Faltou ligação entre as partes. Faltou provocação. Faltou perdição, como sugeria o título.

Por fim, fez mais luz em palco, mas sem muita intensidade. Francesca Selva dançou Oppio. A italiana lançou flores de papoila no palco e moveu-se sobre elas.

Selva sabe preencher o palco e nem foi pelo saiote volumoso que envergava. A sua presença e postura guiam o olhar do espetador e fizeram-no até que o saiote se tornasse numa armadura vermelha e que saísse do seu corpo. É como se o vício a levasse à perdição.

Os movimentos são limpos, mas a linha podia ter sido mais clara. Foi visualmente interessante, mas faltou uma dramaturgia mais perceptível.

A Quinzena continua…

Ainda podes assistir à Plataforma Coreográfica Internacional de 19 a 22 de outubro. São vários criadores, de várias nacionalidades e um contemporâneo diverso entre si. Lê mais, aqui.

  1. A respeito do solo da coreógrafa Lidia Martinez :
    Para escrever sobre dança, parece necessário saber um pouco a respeito…
    É bom perguntar-se, por exemplo : “o que é movimento ?”…. Com certeza, não uma simples e mera gesticulação… Cada proposta de dança merece uma leitura apropriada, inovadora, que não seja colada aos modelos impostos, ao que somos habituados “consumir”. E não é porque não se sabe ler um corpo, seu movimento singular e inédito, sua poesia, que eles não existem.
    Pois é, não é tão fácil entender a dança…
    A dança não tem nada a ver com comunicação, nem com consumo fácil, com discurso obvio e “perceptível”.
    Outra pergunta interessante : “o que é provocação ?”…. Nem sempre o que é estabelecido como tal, isto é o que todo mundo pretende fazer hoje, achando-se subversivo demais ! O subversivo encomendado e subvencionado…
    De novo, aqui, um pouco de conhecimento na História da dança ajudaria….
    “Faltou ligações” : grande avaliação ! E se a artista tivesse escolhido, justamente, não criar ligações ? Não seria mais interessante, enriquecedor, perguntar-se porque ? Mas aí começaria um pouco de análise…
    No lugar de listar o que “falta” (geralmente o que espera ver, por conformismo…), seria mais interessante tentar perceber e analisar o que tem.
    Para concluir, volto ao incisivo “mais uma vez” : até perece que a senhora Serafina assistiu muitos trabalhos da Lidia Martinez (!), ou mesmo acompanhou um pouco a obra singular da artista…..
    Criticas deste género, a dança não precisa.
    Não passam aqui de observações negativas, tanto para Lidia Martinez que para Francesca Selva ou Elisa Ferreira, reveladoras de hábitos de recepção de obras, de uma frustração pessoal.
    O que “faltou” foi mesmo um olhar experto, curioso, emancipado, sensível.

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