Setenta e dois anos depois de ser escrito, Huis Clos – No Exit, é trazido a palco por Rui Neto. Esteve em cena no Teatro da Trindade de 16 de setembro a 9 de outubro e sobe agora ao palco da Comuna Teatro de Pesquisa, até ao próximo dia 23. O Espalha-Factos assistiu e conversou com o encenador.

O regresso de Huis Clos – No exit

Foi em 1944 que Jean-Paul Sartre publicou Huis Clos – No Exit. Desde então, a obra já foi adaptada para cinema, televisão e até mesmo para óperas. Em 2013, chegou a vez de Rui Neto encenar a peça pela primeira vez no Teatro de Carnide.

Actor, encenador, argumentista, publicitário, cenógrafo e não só. Com formação base em teatro, publicidade e marketing, acrescentou ao seu percurso o mestrado em Comunicação e Arte. A sua primeira encenação de Huis Clos, em Carnide, serviu de objeto de estudo académico. Confessa não se ter apaixonado pelo espetáculo nem pelo texto em si num primeiro contacto. No entanto, o facto de o ter estudado durante o mestrado fez emergir ideias que quis explorar.

“Apetecia-me brincar mais com o espaço cénico e de repente surgiu esta oportunidade, de voltar a palco com esta peça e repensá-la com outros atores e outra cenografia.

A adaptação e tradução do texto mantêm-se. Ficaram a cargo do encenador, que descreve este processo como um “conjunto de escolhas” que vai construindo a história e desenhando um ponto de vista. Originalmente, a peça tinha mais uma personagem, um mordomo que Rui dispensou. “A história pode ser contada exatamente como Sartre quer que se conte sem aquela personagem.”

Embora muito da primeira encenação se mantenha, Rui acredita que “todo o resto ganhou uma outra cor e um outro pensamento”. Apesar deste regresso à obra, acredita ainda não ter esgotado todas as possibilidades.

“A par deste espetáculo queria ter conseguido fazer uma curta-metragem. É uma peça que me faz pensar no que acontece antes deles chegarem ali.”

Rui Neto e os papéis em que se desdobra

Quando era mais novo, Rui achava necessário chamar as coisas por nomes, definir o que seria. Agora, anseia não chamar nomes às coisas, “Rui Neto é o que for”.

Gosta da liberdade que o teatro lhe dá, quer como ator, quer como encenador. No papel de encenador procura propor aos atores, para além daquilo que seria certo para uma determinada peça, um desafio. Como ator gosta de trabalhar com um encenador que o estimule a desenvolver ferramentas novas.

“Aqui, o Rui Neto é o instigador dessas novas ferramentas. Estou a pôr-me no lugar dos atores e a dar-lhes aquilo que eu gostava que me fosse pedido.”

Receia que lhe falte linguagem de encenador. Conta, entre risos, que por vezes parece estar a dirigir desenhos animados e justifica. “Falo por onomatopeias, é uma questão rítmica. A minha comunicação, como passa tanto por dentro e por aquilo que eu faria, a minha forma de explicar é o meu ritmo, o meu balanço. E às vezes o meu balanço não tem palavras.” Ter um ponto de vista sobre o que está a apresentar é, para Rui, essencial num encenador. Mesmo que o espectador não o compreenda ou não concorde com o mesmo.

Questionado sobre o que é preciso num ator, não hesita em apontar a capacidade de trabalho individual, o artista tem de ser “um bocadinho obcecado pelo seu trabalho”. Acredita que se houver entrega e dedicação, o resultado “tem sempre a sua validade, está sempre semi-certo”, até porque o “certo” ficaria “um bocadinho boring”.

Rui Neto revela que ser ator exige um trabalho constante sobre a sua fragilidade e entrega, o que se torna extenuante. O processo obriga-o a fechar-se sobre si. “Apesar de ser um trabalho de equipa, é um trabalho egocêntrico.” Neste aspeto, vê o papel de encenador de forma diferente. Encenar exige aprender a comunicar com diferentes pessoas e sectores, na sua opinião, é um processo menos individual.

Também não consegue largar a pele de cenógrafo. Como os meios são escassos, envolve-se na construção cenográfica. “Tenho de pegar na trincha, no pincel e no martelo. Tenho de montar, carpinteirar, pintar e torno-me um mestre de obras, trolha para todo o serviço.”

O processo de criação: do texto à estreia

O primeiro passo foi trabalhar a tradução e adaptação do texto. Rui Neto baseou-se na obra original, em francês, e recorreu também a versões inglesas. Os filmes feitos a partir desta peça também foram um recurso no processo de adaptação.

Seguiu-se a escolha dos atores. Traçou o que queria da peça e o que queria comunicar com ela. Fez as fotografias para a divulgação do espetáculo numa das primeiras leituras e, logo a seguir, planeou e deu início aos ensaios. A equipa teve duas semanas de trabalho de mesa, a seguir à qual foi feita uma pausa para os atores estudarem o texto.

O encenador acredita que o espetáculo estreou com uma semana a menos de ensaios. Após a pausa, tiveram três semanas de ensaios durante a qual todas as últimas arestas do espetáculo são limadas. A construção cenográfica fica a par do trabalho com os atores, “vou construindo aquilo que começo a planear com eles”, explica.

O passo seguinte é o desenho da luz e do som. Por fim, promover e divulgar o espetáculo, “isso também faz parte, tem de se comunicar, de tornar apelativo de alguma maneira”.

A cenografia

A primeira surpresa do público surge com o cenário. “Neste espetáculo a cenografia é feita precisamente para que cada espectador tenha o seu ponto de vista.”

Sobre o palco encontramos uma estrutura cúbica sem teto. Preta por fora e forrada com um papel de parede clássico por dentro. Trinta janelas diferentes e trinta cadeiras. O espectador senta-se, abre a janela e espreita para o cenário.

A proximidade dos atores permite absorver a história de uma maneira peculiar. Damo-nos conta de traços e expressões que num palco afastado se perdem. Há menos espaço para falhas, todos os pormenores estão expostos aos olhares que se atiram caixa dentro.

O público acaba por também se encarar, rostos alheios à história quase decoram o cenário. Cada espetador tem o seu lugar, a sua janela e a sua perspetiva. Só um espetador verá, naquela noite, daquele sítio, aquela imagem, daquele ângulo.

O inferno são os outros

Lia Carvalho, Miguel Raposo e São José Correia deambulam por uma sala sem teto e sem saída. A vida terminou, estão suspensos. Não sabem porque ali estão nem como deixar de estar.

José Garcia (Miguel Raposo), jornalista, é o primeiro a entrar na sala. Findou com 12 balas no peito. Segue-se Inês (São José Correia), que morreu por inalação de gás. A última a entrar é Estelle Rigault (Lia Carvalho), jovem de bem que viu numa pneumonia o seu fim. Com eles, trazem muito mais que os seus nomes e os seus fins.

Três mortos com tanta vida, uma vida tão densa que os conduziu ali. Esperam tortura, castigos físicos. Esperam e nada chega. Três pessoas, um banco, um chão e quatro paredes. É esta a tortura, é este o inferno.

Apresentam-se como boas pessoas e insistem que tudo deve ser produto de um erro ou coincidência. Exceto Inês, a primeira a entender que cada um deles está ali para ser o inferno dos outros e para ser infernizados pelos outros. Eventualmente, as personagens cedem e dissolvem-se em confissões. Expõem a face mais pecaminosa e sujeitam-se ao inferno que é o olhar alheio. Huis Clos – No Exit é uma metáfora existencialista definitivamente fascinante.

Rui Neto tem dúvidas que o inferno sejam só os outros, acha que é uma visão demasiado existencialista e egocêntrica. No entanto, aplicando esta frase ao caso específico dos artistas, concorda. “O percurso de um artista está muito dependente da visão que os outros têm sobre ela. E isso é tão abstrato e tão frágil que é uma espécie de inferno. Os artistas expõem-se ao olhar do outro. Portanto, às vezes, o inferno realmente são os outros.”

Se num primeiro contacto o encenador não se apaixonou pelo texto, o regresso a palco vem, pelo menos, apaixonar o público. O inferno é, aqui, um escrutínio moral tenso, decorado com sedução e manipulação. A porta não voltou a abrir e o inferno não acaba.