É a ouvir gargalhadas e conversa animada que entramos no pequeno lobby da sede do Canal Q, rés-do-chão do Amazónia Lisboa Hotel. Ultimam-se, relaxadamente, os preparativos para começar a gravação de mais um Sem Moderação, programa de debate com Daniel Oliveira, Francisco Mendes da Silva, João Galamba e José Eduardo Martins.

É o coordenador do programa autárquico do PSD Lisboa que vai dando fôlego a um diálogo sobre duas das mais recentes produções da Netflix: Stranger Things e Amanda Knox. Numa era em que a televisão saiu da televisão, a rádio saiu dos aparelhos a pilhas e tudo passou a ser multiplataforma, também o Sem Moderação vai ganhar mais uma. Depois do Canal Q, a TSF. E, claro, os podcasts da TSF.

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‘Não vai mudar nada’

João Galamba está confiante. “Este programa, apesar de querermos que tenha um ambiente descontraído, vai enquadrar-se perfeitamente no tipo de debates que acontece na TSF”, não antevendo qualquer dificuldade na chegada ao éter.

Ideia semelhante tem José Eduardo Martins, que começa por garantir que “não vai mudar nada” e explica que independentemente de estarem num canal principalmente dedicado ao humor, sempre levaram isto “muito a sério”.

A única coisa que acho que vamos ter de fazer diferente é sermos mais disciplinados com o tempo. Nós às vezes entusiasmo-nos com um tema que pomos na segunda parte e depois a terceira tem só 4 ou 5 minutos. E isso não pode ser, vamos ter de estar mais contidos nas baias do tempo”, explica o militante social-democrata.

‘Não falem todos ao mesmo tempo’

Não falem ao mesmo tempo. Tanto em televisão como em rádio não se consegue perceber nada quando as pessoas falam todas ao mesmo tempo. Em televisão, mesmo assim, é mais fácil perceber, porque vês as pessoas a gesticular, mas em rádio não há hipótese. São três ou quatro vozes ao mesmo tempo e torna-se muito mais difícil os ouvintes perceberem o que eles querem dizer”, indica Paulo Barceló, engenheiro de som do Canal Q e responsável pela captação do áudio que será enviado, sem compressão, para a TSF.

Na emissão de hoje, há alterações de última hora. Francisco Mendes da Silva não pode participar, por motivos pessoais imprevistos. Guterres acaba de ganhar a última votação informal para a liderança da ONU. Um dos temas sai do alinhamento e o recém eleito secretário-geral, previsto para fechar o programa, passa a tema de abertura.

O debate, entidade omnipresente

As mudanças não assustam ninguém: “O Daniel diz que quem tem meia dúzia de ideias assentes na vida tem geralmente sempre o que comentar sobre cada assunto da atualidade”, refere Martins.

O debate é aqui uma entidade omnipresente. Já começou antes do programa começar e parece-nos previsível que se estenda depois do seu fim. Mal se sentam à mesa, o tema do dia começa a ser discutido. A vitória de Guterres na ONU abre uma espécie de ‘período antes da ordem do dia’, com direitos a interpretações entusiasmadas do Major Valentim Loureiro que, temos pena, não entram para o programa que os espectadores verão.

3, 2, 1, começamos a gravar. A discussão agora é mais a sério, filmada e cronometrada. Mas, mesmo quando há pausas entre cada segmento, não se aquietam os membros do painel. Nem quando Daniel Oliveira tenta gravar a promo da semana. “Malta, já falam daqui a bocadinho”, insiste o jornalista e moderador da edição de hoje.

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Diana Coelho, diretora de produção, garante que esta descontração é habitual. “Eles entendem-se bem, são eles que decidem o alinhamento do programa e o destaque dado a cada tema. Há uma boa troca de ideias, sem interferência nossa. Não há um que decida ou escolha, porque é isso… não há moderação.”

José Eduardo Martins ilustra o ambiente existente entre os membros do painel – “Cada um de nós gosta muito deste tempo durante a semana, do desafio de encontrar os outros três e conversar aqui como se estivéssemos ali sentados a conversar num café ao lado, ou em minha casa antes e depois de irmos ver um jogo do Euro…”.

No Sem Moderação debatemos com um bocadinho mais de profundidade e, como nos damos todos bem e nos respeitamos todos uns aos outros, tentamos tratar os temas de forma séria. Portanto obviamente que isso implica uma boa preparação e domínio dos temas”, assevera por sua vez João Galamba.

A implacável contagem do tempo

Conseguiram. Os tempos batem certo nos primeiros dois blocos do programa, controlados ao segundo entre a régie e Daniel Oliveira. Quando começa a gravação da terceira parte sente-se uma atmosfera geral de alívio. Há mais interrupções entre os participantes, o debate distende. Afinal, parece que alguma coisa mudou na passagem para a rádio.

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Quem ouvisse a última parte é que ficava a perceber o que é o Sem Moderação”, desabafa José Eduardo Martins. Daniel Oliveira admite que estava “ansioso para controlar os tempos”, o que fez com que “lhes cortasse mais a palavra”. “A malta escorrega sempre no tempo e de vez em quando temos aqueles monólogos longos… Isso seria mortífero. Se em televisão é mau, em rádio seria mortífero”, esclarece o também colunista do Expresso.

Oliveira admite que existir uma parte do programa que não entra na emissão de rádio “obriga a uma gestão mais complexa”, mas está confiante que o painel vai conseguir transpor com sucesso para a rádio o ambiente que se vive no Sem Moderação televisivo. “Vamos demorar algum tempo. Nós já fazemos isto há 4 anos e temos um estilo mais informal de discussão, mas eu acho que vamos conseguir que o estilo informal resulte em rádio.

Despedimo-nos. A conversa continua, agora num círculo que inclui João Martins, responsável pela comunicação do programa, Daniel Oliveira e o coordenador original do formato, José Machado. É assim. Conversas sem moderação, sem hora marcada e também fora do estúdio. Agora na TSF às 20h00 de quarta-feira.