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José Caldeira

‘Uníssono’: A mecânica da vida em conjunto

Todos por um e um por todos. Ou pelo menos o esforço para que assim o seja. A nova criação de Victor Hugo Pontes já estreou em Lisboa, no São Luiz Teatro Municipal, e tem agora lugar no Porto. Uníssono faz o esforço para que a mente e o corpo de todos seja o mesmo.

Um vulto no palco. Um homem nu fica na sombra. Uma forma primordial. Um início. Como se tratasse do próprio início do Homem. O cenário muda e o branco destaca-se num labirinto de entradas. Os intérpretes vão surgindo no espaço cénico. Têm movimentos mecânicos e nunca nenhum dos cinco intérpretes entra desligado do movimento acabado do outro.

Se de conjunto é feita esta peça, os seus movimentos são paralelos ao que de igual se faz na vida. Uma marcha militar, uma diagonal numa aula de ballet, uma competição de natação sincronizada. Uma t-shirt que se repete na cor, uns ténis que são iguais. Passos que se seguem. Tudo isto se dança em Uníssono.

Uma sequência para cinco intérpretes

Depois de Carnaval, na Companhia Nacional de Bailado, Victor Hugo Pontes deixa a inspiração do movimento dos animais e os ténis dos bailarinos seguem a lógica da vida em conjunto. André Cabral, Bruno Senune, Elisabete Magalhães, Teresa Alves da Silva e Valter Fernandes fazem parte da composição. Têm todos corpos diferentes, intensidades disformes no mesmo movimento e isso tira a monotonia à peça.

Tal e qual como o jogo no labirinto cénico, muitas vezes, nos vemos embalados para que a espiral formada em palco se desfaça ou que o erro a ser detectado em movimentos tão iguais. Há intérpretes que se destacam mais no chão, outros em movimentos na vertical, ou em saltos, como é o caso de Valter Fernandes. Contudo, a intensidade de Teresa Alves da Silva sobressai muitas vezes ao longo da peça, mesmo quando a uniformização surge e as caras dos bailarinos não são notadas.

Cinco bailarinos diferentes e os mesmos movimentos. Foto: José Caldeira
Cinco bailarinos diferentes e os mesmos movimentos. Foto: José Caldeira

Em conversa com o público no final do espetáculo, Victor Hugo Pontes revelou que durante o processo procurou uma perfeição que suponho poder falhar. “São pessoas diferentes a fazer igual”, notou. Mas é assim em sociedade quando a multidão aglomera.

Movimentos iguais que se “apoderaram” de corpos diferentes

Questionado sobre o método de composição e chegada à peça, André Cabral afirmou que o difícil foi limpar o movimento e torná-lo em algo semelhante para todos os intérpretes. Já Teresa Alves da Silva acrescentou que ao longo do tempo, apesar dos movimentos serem os mesmos, cada um dos bailarinos é diferente e cada um se “apoderou” deles.

Uníssono é uma peça que até ao público parece difícil de seguir. Damos por nós a tentar desvendar o erro. Nas inúmeros contagens que os intérpretes terão de fazer e com precisão, a música de Hélder Gonçalves acrescenta uma mecânica que nos faz entrar num jogo de perseguição pelo erro.

Contudo, o que torna a peça atraente é a identidade que cada intérprete consegue dar em casa movimento. Tal e qual na sociedade, em que cada um tem o seu papel, mesmo em multidão. É mais uma peça diferente no reportório do coreógrafo, que voltou a encontrar um conceito para se guiar e confrontar o espetador em palco.

Podes assistir a Uníssono no Grande Auditório do Rivoli, no Porto, esta sexta-feira, às 21h30, e sábado, às 19h00.

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