Olhares do Mediterrâneo: os filmes do fim-de-semana e os vencedores

Olhares do Mediterrâneo: os filmes do fim-de-semana e os vencedores

O Olhares do Mediterrâneo chegou ontem ao fim, após quatro dias a passar obras realizadas, escritas ou produzidas por cineastas emergentes no panorama do cinema europeu. Com nova sessão de entrada gratuita, o Cinema São Jorge teve uma boa moldura de espectadores para dizer adeus a um festival que, prometeram as organizadoras, regressa já em 2017.

O fim-de-semana do festival deu-se com dois principais destaques: o filme croata Most na Kraju Svijeta, sobre o pós-guerra da independência da Croácia, e ainda a produção turca Kusursuzlar, sobre a relação complicada de duas irmãs. A sessão de encerramento contou ainda com a entrega dos prémios do júri e do público, tendo Les Messagers saído da cerimónia como grande vencedor, ao arrecadar o Prémio do Júri Longas-Metragens e ainda uma Menção Honrosa na secção Travessias. Pirates of Sale recebeu o Prémio Público, enquanto que o Prémio Travessias foi para Luoghi Comuni. A lista de vencedores fecha com Gueule de Loup, distinguida com o Prémio do Júri Curtas-Metragens.

MOST NA KRAJU SVIJETA – 3/10

01Uma história de investigação com o pano de fundo do pós-guerra da independência da Croácia parecia uma premissa interessante para uma narrativa cheia de mistério e o confronto com o passado recente da Europa. Contudo, Most na Kraju Svijeta desaproveita ambas as partes e chega-nos como uma fita insípida e desinteressante.

Antes de mais, há uma descarada manipulação de sentimentos através de personagens cujo único propósito é apelar à lágrima. Um surdo-mudo acompanhado por um amigo que perdeu o filho na guerra; uma idosa que lida com a perda de sanidade do marido; uma empregada de bar que vive com o fardo de ser filha de um sérvio e de uma croata… Nada contra mostrar esta dura realidade que as populações da altura enfrentavam, antes pelo contrário. Mas quando estas personagens têm pouca ou nenhuma influência na história, a sua presença no filme torna-se bastante forçada e martelada só para dar uma espessura emocional a que as personagens principais por si só não conseguem chegar.

Resta-nos acompanhar um polícia em busca de um homem que desapareceu sem deixar rasto, numa investigação que desconfiamos desde o início como vai terminar. O argumento revela-se muito pobre neste aspeto da história, com diálogos que se limitam a reproduzir as mesmas falas que já vimos noutros títulos de investigação. Valem-nos pequenos e curiosos pormenores na fotografia e desempenhos competentes do elenco para que as duas horas de duração de Most na Kraju Sviteja não demorem tanto tempo a passar.

Kusursuzlar – 6/10

kusursuzlarA já cliché descrição “simples mas eficaz” aplica-se que nem uma luva a Kusursuzlar, filme que encerrou o Olhares. Acompanhando a estadia de duas irmãs na casa de Verão da sua falecida avó, após cinco anos de estarem afastadas uma da outra, esta produção turca de 2013 explora o reencontro de maneira subtil mas sem nos deixar de prender ao ecrã.

Colocando de parte quaisquer flashbacks ou narrações em voz-off, muito da narrativa é deixada por descobrir pelo espectador ao longo do filme. É claro que esta renúncia aos mecanismos mais básicos de exposição levará a cenas cujo principal propósito é explicar detalhes do passado e do presente conturbado das personagens, retirando alguma naturalidade aos diálogos, mas não deixa de ser uma lufada de ar fresco um filme em que não somos bombardeados de 10 em 10 minutos com informações que podemos descobrir sozinhos com o desenrolar da história. História essa que tem ainda um pequeno comentário em breves cenas ao contexto social da Turquia no que toca à forma como a sociedade olha e trata a mulher, oferecendo a Kusursuzlar mais um bom aspeto que nos chama á atenção.

Seguimos assim por uma fita linear mas interessante, que sabe contrabalançar entre o drama e o comic-relief sem que um dos tons se sobreponha ao outro. De destacar as excelentes interpretações do duo de atrizes que interpretam as irmãs, sabendo representar ora a cumplicidade entre as duas ora a tensão que o seu passado (não) partilhado ainda exerce sobre a sua relação. Sem dúvida, uma boa forma de fechar o Olhares do Mediterrâneo’16.

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