Cecil B. DeMille é um dos maiores nomes da história de Hollywood. Com uma carreira que durou entre 1913 e 1956, este foi um realizador que se foi adaptando aos tempos e soube tirar proveito da era do cinema mudo, dos “talkies” e da alta saturação de cores criada pelos processos de Technicolor. Entre a sua vasta seleção de obras (cerca de 70), pode-se destacar O Exilado (1914), geralmente considerada a primeira longa-metragem filmada em Hollywood, O Maior Espetáculo do Mundo (1952) e duas versões de Os Dez Mandamentos (uma em 1923 e outra em 1956).

Esta figura também ficou marcada pela sua excentricidade, uma característica que continuaria a povoar Hollywood. As opiniões das pessoas que trabalhavam com ele pareciam estar divididas devido a isso: uns adoravam-no, devido à sua visão “épica”, enquanto outros odiavam a sua personalidade controladora. Com o seu filme mais conhecido (Os Dez Mandamentos) a celebrar o seu 60.º aniversário no dia 5 de outubro, o 5 do Espalha-Factos desta semana decidiu celebrar a sua excentricidade, bem como a forma como esta ajudou a moldar Hollywood (e em alguns casos, como continua a influenciar eventos para além do cinema).

Cecil pode não ter revolucionado o grande ecrã da mesma forma que D. W. Griffith, mas o seu talento em oferecer ao público geral entretenimento de alta escala e em se adaptar aos gostos dos mesmos contribuiu para fazer da indústria o que ela é hoje. A sua influência até pode ser notada no respeito que realizadores contemporâneos como Steven Spielberg e Martin Scorsese têm por si. Spielberg chegou a afirmar que O Maior Espetáculo do Mundo foi o primeiro filme que viu, e o que o levou a interessar-se pelo cinema, enquanto que Scorsese mantém o desejo de poder um dia conseguir pôr uma imagem no grande ecrã da mesma forma que DeMille conseguia.

Resistência às ameaças de Thomas Edison

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Hollywood pode hoje em dia ser a mais poderosa indústria de cinema do mundo, no entanto, a sua origem vem de cineastas que procuravam independência. Na década de 1910, a Motion Picture Patents Company (MPPC), liderada por Thomas Edison, procurava ter o poder completo sobre o cinema, ameaçando e levava a tribunal todos os indivíduos que se opusessem a tal. É devido a isso que muitos cineastas foram para Los Angeles, na Califórnia, onde poderiam desfrutar de paisagens variadas que se encontravam longe do domínio de Edison.

Cecil B. DeMille tinha passado grande parte da sua vida numa carreira dedicada ao teatro que não tinha alcançado muito sucesso. Ao ver o potencial do grande ecrã, procurou uma carreira no cinema ao co-realizar O Exilado com Oscar Apfel. Apesar de Hollywood se encontrar longe do domínio da MPPC, isto não impediu Edison de ameaçar o realizador.

As táticas geralmente usadas eram homens armados, com identidades anónimas, que faziam ameaças à vida de cineastas e que alvejavam as suas câmaras. Para defender o seu filme, Cecil estava quase sempre com uma arma. Segundo Lost Hollywood de David Wallace, o realizador andava com um revólver durante as filmagens e ocasionalmente dormia no seu estúdio com uma shotgun.

DeMille acabou por ter cerca de 86 armas, que acabaram por ser utilizadas como adereços nos seus filmes. Para ter segurança extra, também chegou a ter um lobo manso como animal de estimação. Este até chegou a aparecer em Exilado.

Felizmente, a MPPC acabou por perder diversos casos em tribunal e a desaparecer em 1918.

A réplica do Egito antigo

Na década de 1920, foi feito um concurso para o público votar no próximo filme do realizador. A ideia vencedora deste concurso foi uma adaptação do Êxodo, da Bíblia. A primeira linha desta sugestão tinha o seguinte escrito: “Tu não quebras os dez mandamentos – eles é que te irão quebrar“. E assim, foi iniciada a produção do filme, uma das suas produções em maior escala.

Esta procurou ser uma obra que rivalizasse e ultrapassasse o épico Intolerância (1916) de D. W. Griffith, com uma narrativa que começava no antigo Egipto durante a era de Moisés, e que acabava no presente, com o foco a manter-se na forma como os mandamentos afetam a vida das pessoas. A visão que o realizador tinha do Egito era tão grandiosa que necessitou de 1600 trabalhadores a lidarem com 4 estátuas de faraó (com cerca de 11 metros cada) e 21 esfinges.

Após as filmagens, Cecil decidiu poupar dinheiro em transportes e simplesmente enterrou a sua réplica do Egipto, que permaneceu aí esquecida durante várias décadas. Ainda hoje, grande parte dessa réplica permanece subterrada.

Realizador em maca

Imagem de GettyImages

Realizar equipas com centenas de pessoas acabou por provar ser demasiado para o realizador. Em 1939, o realizador teve um colapso durante as filmagens de Aliança de Aço. Uma operação até o impediu de sair de uma maca durante várias semanas, depois da recomendação do médico de repousar durante algum tempo. Mas o paciente era Cecil B. DeMille, e ele tinha um filme para acabar…

Não podendo sair de uma maca, ele não se importou de continuar a realizar os seus atores no estado em que se encontrava. Segundo uma notícia do The Hollywood Reporter, foi nestas condições que DeMille fez parte do filme.

Os esforços acabaram por valer a pena, visto Aliança de Aço ser oficialmente o primeiro vencedor da Palme D’Or do Festival de Cannes (apesar de o prémio só ter sido dado vários anos depois devido ao Festival ter sido adiado pelo início da Segunda Guerra Mundial).

As tabuletas dos Dez Mandamentos

Sendo extremamente religioso e tendo um fascínio pela história de Moisés, Cecil fez um segundo filme intitulado Os Dez Mandamentos em 1956, desta vez num épico de quase quatro horas. A sua paixão pelo material até se fazia mostrar no facto de ter enviado uma cópia da Bíblia a todas as pessoas envolvidas na produção. Este foi o último filme da sua carreira, e provavelmente também o seu mais famoso.

Por coincidência, uma organização religiosa estava a planear fazer molduras com os dez mandamentos. O realizador sugeriu que substituíssem as molduras por tabuletas de bronze. O grupo recusou, devido às de Moisés serem de granito segundo a Bíblia. Sendo assim, com o apoio de DeMille e da Paramount Pictures, foram criadas 150 tabuletas de granito com os dez mandamentos, que em seguida foram espalhadas pelo país.

A maior parte destas tabuletas permanece onde foi deixada, com a maior parte destas a serem consideradas monumentos. Isto tem gerado controvérsia, e várias destas tabuletas já foram centro de casos de jurídicos.

Atores a contracenarem com leões reais

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A época do cinema mudo era caracterizada pela falta de cuidados de segurança. Os atores e realizadores muitas vezes chegavam a arriscar as suas próprias vidas para conseguirem a “cena perfeita”.  Foi neste contexto que DeMille pôs Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses) em risco no filme Macho e Fêmea (1919). Numa sequência inspirada por um quadro de Gabriel von Max, a atriz teve de fingir inconsciência, à medida que um leão passava por si e lhe punha a pata em cima. O leão tinha sido treinado e supostamente era manso, mas Swanson afirma que duas semanas depois este matou o seu domador.

Em 1949 já haviam mais cuidados sobre a indústria, mas isso não impediu Cecil de repetir a proeza. Victor Mature foi a nova vítima em Sansão e Delilah. No entanto, demonstrou medo na cena e recusou-se a lutar com o leão. O realizador disse-lhe que o animal era manso e não tinha dentes, mas Mature continuou a recusar. Devido a esta situação, tiveram de intercalar close-ups do ator a fingir que luta contra uma pele de leão, e filmagens de um duplo a lutar contra o leão.

Depois deste incidente, Cecil B. DeMille ficou com uma péssima opinião do ator, e não o voltou a contratar. A cena final pode ser vista aqui:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=LkeoiiGQGek]