Olhares do Mediterrâneo: o primeiro dia em alto mar

Olhares do Mediterrâneo: o primeiro dia em alto mar

O Olhares do Mediterrâneo iniciou anteontem a sua 3.ª edição no Cinema São Jorge. O Cinema no Feminino alarga-se até amanhã e promete oferecer ao público um programa rico em filmes, debates e ainda a exposição de fotografia Olhares que Habitam.

O primeiro dia do Olhares arrancou com uma sessão especial para escolas do 1.º ciclo logo a seguir ao almoço. Seguiu-se o primeiro filme na secção Travessias, o espanhol Corredors de Fons, e, já no final da tarde, houve direito a uma sessão de curtas-metragens, oriundas de vários países. Contudo, o grande destaque do dia estava reservado, naturalmente, para a sessão de abertura.

Exotica, Erotica, Etc – 8/10

exotic2jpgA sessão com entrada gratuita traduziu-se numa Sala Manoel de Oliveira bem composta para assistir ao documentário assinado por Envagelika Kranioti. Exotica, Erotica, Etc. propõe-se a conhecer a relação que aventurosos marinheiros estabelecem com as prostitutas que ficam em terra à espera que novos homens do mar chegam ao porto. Quem nos conduz pelo filme é Sandy, uma ex-prostituta que teve “meia Atenas” nos seus braços e que recorda, anos depois, amores passados.

Fosse este um mero exercício de observação das duas partes, a Exotica e a Erotica, e a experiência cinematográfica correria o risco de ser pobre ou, no mínimo, desinteressante. Mas é o Etc. que oferece ao documentário uma essência poética, quase transcendental, através das amargas e nostálgicas palavras de Sandy, do seu corpo envelhecido e marcado, da imensidão do oceano e vazio dos barcos que fazem crescer o desejo dos marinheiros… e da forma como estes saciam esse desejo junta daquelas que estão dispostas a darem-se a ele(s).

Kranioti explora esta relação, este Etc., das que ficam e dos que partem entre imagens e relatos. O olhar dos marinheiros no oceano sem fim e as suas tarefas diárias de limpeza, intercaladas por momentos de convívio ao som de ABBA, deixam-nos isolados, quase claustrofóbicos, cheios de saudade de terra firme e, claro, do toque feminino. Por sua vez, Sandy convida-nos a navegarmos pelas suas memórias (algumas delas bem sensoriais) até atracarmos no porquê dos encontros com os marinheiros serem mais que inócuos cruzares de corpos. A relação entre eles e elas é, isso sim, uma partilha de almas que, dado a vida que levam, sentem falta daquilo que só a outra pode oferecer, ainda que apenas brevemente.

Exotica, Erotica, Etc. tem ainda uma série de planos visualmente apelativos e uma banda-sonora imponente, que eleva a realidade do documentário quase até ao campo da mitologia – repare-se como o corpo de Sandy é filmado como se de uma sereia se tratasse, por exemplo. É um documentário com uma atmosfera muito particular, cujo visionamento pode ser, a dados momentos, difícil, contudo. Mas, se formos com a disposição certa para o ver e interiorizar, é uma viagem que ainda ecoará em nós por muitos dias.

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