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Catarina Veiga

‘The Art of Losing’: Perder é uma arte que pode ser dançada

A ideia já tinha uns anos. Surgiu o momento de a pôr em prática. São Castro passa o poema One Art, de Elizabeth Bishop, para o corpo de seis bailarinos da Companhia de Dança de Almada. A partir do texto, surgem várias interpretações de perda. Perdas mais intensas. Perdas menos intensas. A estreia acontece no início da Quinzena de Dança de Almada, esta quinta-feira, dia 29 de setembro, no Teatro Municipal Joaquim Benite. A peça fica em cena até 30 de setembro. 

Dois indivíduos estão lado a lado . Ela (Joana Puntel) procura algo. Faz movimentos com as mãos, passa para os joelhos e circula em volta dele (Miguel Santos). Está perdido. Ela toma consciência disso. Olha para ele. A perda pode ter várias formas e corpos. The Art of Losing é o espaço dessa perdição.

A viagem pela perda começou com um convite da directora artística da companhia, Maria Franco, a São Castro. Existiam incompatibilidades, outros projectos e a oportunidade apenas se concretizou agora. Surgiu também o timing certo para desenvolver um tema há muito pensado pela coreógrafa: a ideia de perda. “Queria explorar sensações e emoções, assim como o modo como o corpo reage ao embate e à violência dessas perdas”, esclarece a criadora.

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Poema de Elizabeth Bishop foi o ponto de partida

Aliada a esta ideia de trabalhar a perda vem o poema da autora americana Elizabeth Bishop, escrito em 1976. São Castro não se recorda exactamente quando se encontrou pela primeira vez com estes versos. Lembra-se que os ouviu num programa sobre poesia e depois foi lê-los mais atentamente.

Nessa mesma altura, viu Still Alice protagonizado por Julianne Moore. Na película, uma mulher com alzheimer precoce começa a ter noção da perda de memória e declama um trecho do poema de Bishop. Algo que São Castro não esqueceu: “Deve ser horrível perdermos tudo assim. Mas ela dá-se à luta e constrói a sua própria batalha.”

Durante dois meses abriu-se um “campo de batalha” pela busca do conceito de perda. Como adaptar o poema de Bishop à linguagem física? A exploração decorreu de forma muito simples. A coreógrafa e os bailarinos olharam para o poema e colocaram-no no corpo palavra a palavra. O que significa a palavra calamidade? E a palavra rio? E cidade? E arte? E perda? E o contrário de perda? Assim se encontrou uma gestualidade, que foi amadurecendo com a cumplicidade já existente na companhia.

“O corpo é a carapaça da forma como vivemos as nossas emoções”

Em diagonal, os bailarinos vão-se perdendo num solo já terminado de Luís Malaquias. Alguns deles vão-se sincronizando nos movimentos. Vão ao chão. Dispersam. A música fica mais agitada, os intérpretes quase que estão em confronto. É uma batalha. “O corpo é a carapaça da forma como vivemos as nossas emoções. É ele que nos leva a esta batalha. Essas batalhas reflectem-se no corpo e ficam como memória”, explica a coreógrafa. Depois, há também a ideia de grupo e de como um indivíduo pode ser testemunha dessa perda.

O olhar é inconsciente na perda e isso está bem presente na peça. Ao andar pela diagonal, os bailarinos olham para o chão. Perderam algo. Quem sabe um objecto. As chaves. O telemóvel. Algo sagrado no dia-a-dia.“Quando perdemos, normalmente, o nosso olhar foca-se no chão”, simplifica a coreógrafa sobre o significado desse gesto. E há perdas mais intensas.

Uma perda mais intima

Por isso, um dos desafios da coreógrafa para os bailarinos foi pensar numa perda difícil que tivessem vivido. Depois, com essa energia, trabalhou-se o movimento. “Até hoje não sei, nem vou querer saber, que perda foi essa para eles. Apenas me a transmitiram pelo corpo.”

Este é um dos propósitos de São Castro como coreógrafa. Trabalhar experiências, algo simples e sem uma narrativa óbvia. “A dança tem um lado muito abstrato, que está completamente disponível e em aberto. Esse é o meu objectivo, que haja um leque de interpretações”. É como se fosse lançado um desafio ao público, para se tentar identificar com um gesto, uma queda, uma ida ao chão, com alguma perda que tenha tido.

São Castro também não nega que a perda faz parte da sua vida. “Já tive perdas grandes e são perdas que posso dizer que me definem”. Como criadora, tem tido o desafio de mostrar, de agradar ou não ou de ser avaliada. Mas lida bem com isso: “Não tenho medo. Faz parte.São desafios e é tão bom que os tenhamos.”

"Perder não é mau", diz São Castro sobre a aprendizagem da perda. Foto: Catarina Veiga
“Perder não é mau”, diz São Castro sobre a aprendizagem da perda. Foto: Catarina Veiga

Por falar em desafios, muitos são aqueles que tem tido com António Cabrita, com quem partilha muitas vezes o palco e criações, em acsc.  A próxima criação que se segue chama-se Turbulência e vai estrear no Teatro Camões, na programação da Companhia Nacional de Bailado.

Um dueto final na dança e na música de Bach

Em The Art of Losing, a parceria entre São e António faz-se pelo “ambiente sonoro”. A música original está a cargo de São Castro. “Precisava que a música fosse uma voz qualquer que o corpo precisa e já me vou aventurando nessa criação musical. É um elemento que é tão importante como a coreografia, figurinos (Nuno Nogueirae a luz (Cláudia Rodrigues). Tudo tem de ser um texto para mim”.

Na frase final desse texto, há um dueto entre Bruno DuarteLuís Malaquias. Um segura, outro suporta e o jogo entre pesos vai-se perpetuando ao som de Prelude in C minor BWV 999, interpretado por António Cabrita. ” Foi construído com dois bailarinos que têm uma ligação e uma cumplicidade muito forte. Eu chamo-lhe perder a cabeça por amor. São perdas de muita intensidade”, explica.

 

Foi este o desafio feito por São a António. “O António não é pianista, mas gosta imenso de tocar. Eu propus e ele disse-me:

-‘Tu estás doida, eu não vou tocar um prelúdio de Bach! Como é que eu vou tocar um prelúdio de Bach?!’

Mas eu respondi-lhe:

-‘Vais tocar à tua maneira e como quiseres, mas desafio-te’.”

Desafio aceite.

Será o dueto final um reflexo da cumplicidade de António e São? “Sim, se for no sentido de nos estarmos sempre a apoiar”, responde a rir a coreógrafa.”Mesmo nas criações individuais, apesar de tomarmos todas as decisões sozinhos, há sempre um pedido: O’ que é que tu achas?’ ”

A estreia também é uma perda, mas um perda saudável, de acordo com São Castro. Foto: Catarina Veiga
A estreia também é uma perda, mas um perda saudável, de acordo com São Castro. Foto: Catarina Veiga

A perda que se segue acontece na estreia. Os ensaios, o contacto diário, as conversas, a emoção de saber o que o público vai achar acaba ali, com a primeira vez que se mostra a criação. “A estreia é uma perda. É sentir que acabou o processo de trabalho. Olha, já estreou!”, evidencia a coreógrafa. Perde-se na estreia, mas ganha-se novamente quando se repetir o espetáculo. Afinal, perder é uma arte.

Ficha Técnica

Coreografia: São Castro
Interpretação: Beatriz Rousseau, Bruno Duarte, Joana Puntel, Luís Malaquias, Mariana Romão, Miguel Santos
Figurinos: Nuno Nogueira
Música original: São Castro
Música adicional: Prelude in C minor BWV 999, J.S. Bach, interpretado por António Cabrita
Desenho de luz: Cláudia Rodrigues 
Direção de ensaios: Maria João Lopes
Consultoria artística: António Cabrita
Todas as fotografias foram tiradas num dos ensaios de estúdio da Companhia de Dança de Almada
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