A poucos dias do lançamento do aguardado Modern Dancing, o Espalha-Factos esteve à conversa com João Vieira, que fez questão de desvendar alguns pormenores do disco, retrospetivas e desejos futuros.

Espalha-Factos: Modern Dancing, o segundo álbum de originais do teu projeto White Haus, será lançado brevemente, a 30 de setembro. Das pessoas que tiveram a oportunidade de o escutar parcial ou integralmente como tem sido o feedback?

João Vieira: Eu mostrei o disco a muito poucas pessoas, porque eu acho que nem sempre é uma vantagem mostrar o disco a muita gente. Pode criar-te dúvidas e pôr-te inseguro. Fiz isso com o primeiro EP e não acho que tenha sido uma boa experiência. Por isso, desta vez optei por mostrar o disco a umas cinco ou seis pessoas, no máximo.

O feedback foi super positivo. Alguns deles são de músicos que me acompanham, não neste projeto mas noutro. Gostaram imenso do disco! Isto porque eles também são produtores, estão muito ligados à música e o que se nota é que o projeto cresceu bastante. Na parte da estrutura e da produção das músicas notou-se que houve um upgrade. Eu também sinto isso e era o que pretendia também. Notei um maior entusiasmo relativamente a este disco do que no anterior.

EF: Sabemos que White Haus é fruto de uma verdadeira fusão de sonoridades. Quais foram as tuas principais influências para este Modern Dancing em particular?

JV: Nas minhas influências, eu faço normalmente uma espécie de exercício, que é criar uma playlist de referências no YouTube  e quando estou bloqueado, sem ideias ou sem os caminhos para onde ir, vou à minha lista e, às vezes, ponho-me a ouvir músicas que me inspiram. Muitas vezes eu noto que são grupos que não editaram discos, basta só um single ou uma faixa. Por isso, é difícil estar a dizer que há um grupo que me influencia muito quando às vezes são faixas que me influenciam. Isso também se deve um pouco à minha faceta como DJ, em que ando muito atrás de faixas e, por vezes, muita da música que eu gosto funciona em singles e depois os álbuns não funcionam.

Mas posso dizer que o início da electrónica, quando as bandas começaram a descobrir os sintetizadores, me influenciou. Falo de bandas como os New Order que vieram de uma banda como os Joy Division, deixaram as guitarras e começaram a trabalhar os sintetizadores, os Human League, até os próprios B52s… São bandas que começaram a usar os sintetizadores de uma forma muito “funk” e que, se calhar, utilizavam guitarras, não eram grandes virtuosos nos pianos e começaram a criar música dessa forma. Inspirei-me muito mais numa época que é o final dos 70 e os anos 80. Não em cidades tipo Nova Iorque ou Sheffield, por exemplo, de onde saíram muitas bandas na altura, entre as quais os próprios Pulp, que são uma referência para mim. Cenas como a 99 Records, o pós-punk… Esse é o meu grande universo, mas depois vou buscar coisas completamente fora e é aí que está a piada! Vou buscar coisas ao Bowie… Tento fazê-lo de forma a que seja original, mas que não seja uma salgalhada também.

EF: Quais são, no fundo, os temas fortes deste segundo longa-duração?

JV: Neste segundo são todos. São os dois singles escolhidos, mas eu acho que há mais no disco. E se calhar há músicas no disco que vão ter mais sucesso do que estes dois singles, até. O This is Heaven segue uma linha mais do EP, que me pareceu ter mais sucesso do que o álbum. Achei que era uma boa ideia retomar àquela sonoridade dos baixos da secção rítmica muito forte e apresentá-lo como primeiro single. No segundo single a forma como eu canto é muito diferente. Aí já não tenho o baixo, mas sim os sintetizadores a fazer as linhas de baixo.

Achei que podia mostrar que é um disco realmente variado, com uma linha e uma identidade, mas em que as músicas não são todas parecidas umas com as outras. Portanto, para este disco resolvi utilizar outros sintetizadores e caixas de ritmos como forma de me diferenciar daquilo que fiz no passado. É um disco de reinvenção e que funciona como um todo. Escolhi estas músicas como poderia ter escolhido outras, mas estas são uma boa amostra.

EF: É notória a diferença de mood presente entre os singles This is Heaven e Greatest Hits comparativamente aos do seu antecessor. Esta energia jovial e até festiva prolongar-se-á pelo resto do disco?

JV: Sim, totalmente. Há uma música ou outra um bocadinho mais sombria, mas pouco. A ideia foi fazer um disco realmente diferente e tendo em conta o estado de espírito em que me encontrava na altura.

No outro disco estava mais sombrio por razões pessoais. Neste disco estava com uma motivação diferente e acho que estas duas músicas, que foram as primeiras que eu escrevi para o disco, também lançaram um pouquinho o mood em que eu queria fazer este disco. Então quando comecei a fazer este tipo de letras… Aqui as letras têm uma importância muito grande. Não que nos outros discos não tenham, mas aqui tem mais. Acho que este género de música, as próprias linhas de sintetizadores e as linhas de baixo puxavam para um tipo de letras diferentes. As próprias músicas têm uma sonoridade mais alegre e cómica. Fiz uma coisa mais nessa onda. Há músicas que ainda não ouviste, mas que vais ouvir, que são feitas com caixas de ritmos e que são ainda mais cómicas que esta última. Por isso, eu quis mesmo explorar esse lado. Agora para o próximo disco já quero fazer outra coisa (risos).

EF: Os videoclips de Vasco Mendes e a própria artwork da autoria da Royal Studio refletem, de certa forma, essa alegria. Como explicas esta mudança?  

JV: São coisas pessoais. Eu tive uma fase complicada na minha vida por razões sérias e familiares em que, se calhar, eu sentia a música de uma forma diferente ou tinha outra disponibilidade para a música, mais como uma forma de me libertar, mas muito um reflexo daquilo que estava a sentir na altura. Sem querer parecer uma coisa pretensiosa, a verdade é essa. Mesmo para um realizador ou para um escritor deve ser a mesma coisa. Imagina o Nick Cave. Passou agora por uma coisa terrível e não vai fazer um disco alegre, de certeza. Comigo foi a mesma coisa.

O regresso dos X-Wife correu bem e comecei a celebrar a música de uma forma diferente. Antigamente preocupava-me demasiado com algumas coisas e criava um certo nervosismo antes de ir para o palco. De repente, isso começou a desaparecer e comecei a ganhar uma confiança cada vez maior. Ao criar este projeto White Haus ganhei uma confiança maior para X-Wife, também. As coisas em White Haus, ao vivo, são muito mais complicadas e a minha responsabilidade é muito maior, porque tenho de fazer muita coisa. Isso facilitou o meu papel em X-Wife, onde só tinha de ligar a guitarra a um amplificador e cantar. Ao ver isso comecei a encarar a música de forma diferente, a relaxar mais e a descontrair. Cada vez que ia para o palco, o entusiasmo sobrepunha-se ao nervosismo e aqui foi a mesma coisa.

Estava entusiasmado com os novos instrumentos, com esta nova fase criativa e produtiva. Escrevia canções com muita rapidez e estava a ter uma espécie de trip de trabalho e de criação. Deixei-me levar. O disco tem momentos de devaneios meio psicadélicos e malucos, mas que acho que também já podia fazer isso. Talvez tenha ver com a idade e a experiência. Pensas “e porque não fazer isto? Agora podes fazer o que te apetecer” e é o que me apetece fazer agora.

EF: Desta vez, para este trabalho, contaste com a companhia de Graciela Coelho, André Simão e Gil Costa no estúdio. Manterás esta dimensão de banda futuramente?

JV: Sim. A grande diferença entre este disco e o anterior é que quando escrevi o disco não tinha banda, não tinha músicos, nem sequer sabia como o iria tocar ao vivo. Foi um projeto feito no meu estúdio fechado e as músicas estavam a ser criadas. Quando apresentei o projeto ao Simão e à Graciela já tinha as músicas feitas e o disco praticamente fechado. Por isso, foi um estudo de como é que iria ser tocado ao vivo. O que é que teria de ser tocado, o que é que deveria ser deixado de tocar…

Quando eu fiz este disco estava já a visualizar o que é que cada um estava a fazer. Ao tentar visualizar dizia “olha, escrevi estas músicas, mas queria ir para o ensaio ensaiar convosco e ver o que é que podemos fazer aqui”. Mesmo que partes é que a Graciela vai cantar, que ideias é que o Simão pode trazer a nível de linhas de baixo que eu já tinha criado, mas que ele poderia alterar, entre outras coisas.

Há uma música que tem uma onda muito dub. Eu queria fazer música dub e o Simão foi importante nessa participação. Por isso, de certa forma, como gosto muito dos músicos com quem estou a tocar, damo-nos bem e há ali uma empatia entre todo, quis envolve-los mais no projeto e estar aberto às ideias deles por respeito, para não ser uma coisa tão egocêntrica. Principalmente o Simão, que me acompanhou muito no processo de escrita deste álbum. Fui-lhe mandando muitas vezes as músicas, pedi-lhe opiniões e foi na banda o elemento que mais colaborou a nível de co-produção. Por isso, eles neste disco já sabem que aquilo que fizeram é aquilo que depois vão fazer em palco. Isso facilitou tudo.

Já tenho uma linha, uma identidade e distingo bem as coisas de X-Wife e White Haus. Não tenho tanto medo de quando as pessoas aparecem e dizem “esta é parecida”. Agora, como está tudo delineado, não há essa preocupação.

EF: Neste verão pudeste atuar em festivais como o NOS Primavera Sound e o Bons Sons. Avalias positivamente ambas as performances?

JV: Sim, muito. São dois festivais muito diferentes e os horários foram muito diferentes também. No Primavera Sound toquei às 17h e no Bons Sons toquei às 23h. Acho que o género de música de White Haus funciona melhor à noite. É mais para dançar, é mais de luzes, de espectáculo, de club…

O Primavera Sound é uma montra espectacular. É um prestígio muito grande tocar neste festival porque são poucas as bandas portuguesas que tocam lá. Foram três este ano e julgo que no ano passado também foram três. Normalmente toca uma por dia. É uma montra cá para fora, mas também é uma montra cá para dentro porque há gente que não conhece. A importância desses festivais é mesmo essa. Há pessoas que não conhecem e é aí que agarras novo público que compra os teus discos e que te vai seguir. No Bons Sons também se passa a mesma coisa. O Bons Sons tem um público muito entusiasmado com os concertos, que ajuda muito. São fantásticos! Acho que há uma boa vibração à volta do festival e as reacções foram óptimas. Aliás, as críticas da imprensa tanto para um como para outro foram boas.

EF: Já estão agendados espectáculos de apresentação de Modern Dancing?

JV: Estão a ser agendados neste momento, mas não tenho nada fechado que possa divulgar ainda. [Nota: depois da entrevista, já estão confirmados concertos para 18 de novembro, no Porto, e em Lisboa, em 2017]

EF: Colocando agora de parte esta tua faceta, qual foi a sensação de regressares com o mítico Club Kitten na última edição do NOS Em D’Bandada?

JV: Foi fixe. Eu estava um bocado na dúvida de fazer esta festa do Club Kitten. Aliás, quando fiz um post dos 15 anos e falei sobre o que foi o Club Kitten, que foi algo importante para mim, para a cidade do Porto e para muita gente que ainda hoje fala nisso. Foi, de alguma forma, revolucionário aqui em termos de clubs no Porto, porque não havia nada do género. Agora, hoje em dia, é diferente. Nunca funcionaria um club destes hoje em dia. Há uma oferta muito maior de coisas, as pessoas estão muito mais a par daquilo que se passa. Na altura estávamos a falar de 2001, onde era tudo muito diferente.

Fiz isto porque surgiu o convite da organização do NOS Em D’Bandada. Achei que era uma boa forma de fazer um evento grátis em que as coisas pudessem funcionar, porque isto traz sempre custos acrescidos e podia ser algo complicado para mim fazer uma festa grande e depois as coisas não correrem bem. É difícil, mas uma pessoa tem sempre de pensar nessas coisas. Depois também podia não correr bem por as pessoas não estarem para ali viradas, mas o que eu acho é que se criou uma boa onda à volta disto.

O que fiz no Club Kitten foi revisitar alguns clássicos, mas também passei músicas em que se o Club Kitten ainda existisse eu passaria hoje. Músicas de 2016 que são todas mais ou menos dentro do mesmo género, com refrões, electrónica, festa, positivas… Um bocado no espírito do álbum de White Haus. Por isso há aqui uma ligação, até.

No NOS Em D’Bandada correu muito bem. A sala esgotou e mais importante do que ter esgotado foi a reacção das pessoas. Recebi imensas mensagens de pessoas que se divertiram e adoraram a festa, tanto de gerações novas como de gerações de pessoal que ia às festas. Também tenho outra faceta como DJ em que passo música house e techno um bocadinho mais sombrio, um bocadinho mais pesado, mais intenso, mas não tem este lado tão alegre das canções. Notei agora que isso é saudável e as pessoas também estão a precisar um bocado disto. Soube bem, não me arrependo de nada, por acaso. Tenho medo, porque sou sempre um bocado de pé atrás nestas coisas de revivals, mas eu não quis que fosse um revival, quis que fosse uma coisa atual, com músicas do passado, mas também com músicas de agora.