Miguel Costa está de volta à televisão portuguesa na telenovela Amor Maior. Com uma vasta experiência no pequeno ecrã, o ator conta ainda com alguns trabalhos em teatro e cinema.

Espalha Factos esteve à conversa com o Alberto da nova novela da SIC, percorrendo os principais trabalhos da sua carreira, que conta já com projetos como as séries Liberdade 21 A Família Mata ou as telenovelas Perfeito Coração Dancin’ Days.

«Tenho feito mais papéis cómicos em televisão, mas em cinema e teatro já fiz drama, tragédia, e gosto muito desses registos.»

Neste novo projeto Amor Maior és Alberto Cruz, um dos membros de um gangue de assaltantes. Habituado a papéis com uma vertente cómica, como foi abraçar este desafio tão diferente?
Está a ser excelente! Está a dar-me a oportunidade de mostrar e trabalhar outras facetas como ator, outras zonas, digamos assim. Tenho feito mais papéis cómicos em televisão, mas em cinema e teatro já fiz drama, tragédia, e gosto muito desses registos. No caso do Cruz, um tipo violento, consigo mostrar algo diferente daquilo que tenho mostrado em televisão.

Para preparar e construir esta personagem, que tipo de pesquisa fizeste? E como tem sido desenvolver esse trabalho com atores tão diferentes como Dimitry Bogomolov, Miguel Frazão e José Mata?
Em termos de pesquisa, falei com amigos meus que trabalham em forças de segurança, que lidam com indivíduos com o perfil do Cruz. Vi alguns filmes também, documentários, e algum trabalho de campo. Já trabalhei com ex-reclusos, com reclusos, e em comunidades problemáticas. Além disso, sempre foi um processo muito orgânico, com os meus colegas e grandes amigos, Zé Mata, Dmitry, Miguel, Tiago Teotónio Pereira, com a direção de atores (Inês Rosado, Marco Medeiros, Cátia Ribeiro) e com a coordenação do projecto e realizadores. Ah! E também com o David Chan, duplo profissional e coordenador dos Mad Stunts, um grupo de duplos de classe mundial, onde trabalhamos a parte cénica das lutas e manuseamento de armas, com todas as regras de segurança.

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«Tenho uma gratidão eterna para com a SP Televisão, para com a Patrícia Sequeira e o Sérgio Graciano, os primeiros realizadores com quem trabalhei na SP.»

Apesar de teres integrado outros projetos anteriormente, os teus papéis na telenovela Perfeito Coração (SIC, 2009) e na série Liberdade 21 (RTP1, 2011) foram os primeiros de maior duração e visibilidade. Como recordas o início da tua carreira televisiva?
Foi um privilégio. Participar em dois projectos tão bons, com equipas fantásticas, foi excelente. Tenho uma gratidão eterna para com a SP Televisão, para com a Patrícia Sequeira e o Sérgio Graciano, os primeiros realizadores com quem trabalhei na SP. Mas não só, trabalhei com atores que admiro muito, equipas técnicas excelentes nos mais diversos sectores, e também com grandes equipas de produção. São projetos que guardo com muito carinho no coração. Fiz grandes amigos, que transporto até hoje, como a Cleia Almeida, Albano Jerónimo e o Paulo Rocha.

Nos últimos anos, tens participado em diversas telenovelas e séries da SP Televisão. Numa altura em que o primeiro formato domina as televisões nacionais, como vês a aposta da RTP1 em quatro séries portuguesas em simultâneo?
Acho uma aposta excelente. Primeiro cria mais oferta, e variada. Torna, ao mesmo tempo, o mercado mais competitivo, menos estagnado. Permite também dar mais trabalho a técnicos e actores. No entanto, o espaço das telenovelas está bem definido, e eu gosto de as fazer. Tal como séries, cinema, teatro. Todos os tipos têm o seu mérito e para mim o mais importante é fazer o melhor possível, seja em que registo for, seja qual for o formato. Vivemos uma era dourada das séries, é bom também apostar em séries portuguesas. Mas tal como referi, o espaço das telenovelas está salvaguardado, e as telenovelas têm vindo a tornar-se cada vez melhores.

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«O objectivo do nosso trabalho é fazê-lo bem feito, e que consigamos cativar o publico. É para o público que trabalhamos. Sem ele, pouco ou nada faz sentido.»

Participaste em Dancin’ Days, a quinta telenovela portuguesa mais vista dos últimos quinze anos e a mais vista, em média, na SIC. Que importância dás aos resultados audimétricos dos projetos em que participas?
O objectivo do nosso trabalho é fazê-lo bem feito, e que consigamos cativar o publico. É para o público que trabalhamos. Sem ele, pouco ou nada faz sentido. Fico muito contente por ter estado num projecto com tão bons resultados em termos audimétricos. Mas não só: de realização, produção, de interpretação, também houve grandes resultados na novela Dancin’ Days. Só assim foi possível cativar os espetadores.

Em 2013, foste o Sidónio de Os Nossos Dias, a primeira telenovela portuguesa dividida por temporadas e que esteve no ar ao longo de mais de 400 episódios. Marcou ainda o regresso da ficção nacional inédita à hora de almoço. O que teve este projeto de diferente?
Foi um projeto diferente, com um orçamento mais limitado, que implicou uma sintonia e entrosamento muito grandes entre todos os setores da equipa. Na sua essência, foi igual a qualquer outra telenovela, porque o objectivo foi sempre fazer o melhor possível. Trabalhámos mais em estúdio do que em exteriores, para não aumentar os custos, mas trabalhamos textos maiores. Foi uma excelente experiência, e com resultados muito positivos. O feedback que recebemos cá em Portugal, mas também dos muitos emigrantes portugueses espalhados pelo Mundo, é espetacular, e é a prova de que aquele horário, da hora de almoço, é muito interessante para a ficção.

A novela acabou por dar origem a uma peça intitulada Táxi – Os Nosso Dias, que se centrava no núcleo em que participaste. Como viste esta transposição do ecrã para o teatro?
É uma excelente forma de divulgar uma telenovela. Porque cativa novos telespectadores, e permite ao mesmo tempo uma aproximação ao público que já é fiel à telenovela. Sentimos um carinho muito grande do público, tivemos um contacto muito mais próximo com o público que só o teatro permite. Foi uma óptima experiência.

«É o teatro que me permite estar permanentemente apaixonado pelo meu ofício. Foi o teatro que me permitiu descobrir o que queria fazer para o resto da vida. »

Desde 2001, já pisaste o palco mais de duas dezenas de vezes. Tendo representado textos tão diferentes, que vão do drama à comédia, passando até pela ópera, o que torna o teatro uma arte tão especial para um ator e, em especial, para ti?

É o teatro que me permite estar permanentemente apaixonado pelo meu ofício. Foi o teatro que me permitiu descobrir o que queria fazer para o resto da vida. O teatro é a forma suprema do trabalho do actor, pelo menos para mim. O teatro é a minha escola, a minha formação como ator é praticamente toda feita no teatro. Agora, o cinema e a televisão são formatos tão válidos como o teatro, o mais importante é dar o máximo, seja em que formato for. Mas o teatro, é o teatro, se me permitem o cliché!

Em 2014 participaste em O Aldrabão, uma comédia muito aplaudida e cujo texto é considerado um dos melhores de Plauto. Como foi trabalhar neste projeto, ao lado de nomes como Virgílio Castelo, Rui Mendes, João Ricardo ou Rui Neto?

Foi o meu primeiro trabalho no Teatro Nacional D. Maria II. Mais um privilégio, ainda por cima a convite do meu grande Mestre, o meu querido João Mota, a quem gosto de chamar Ti João, com muito respeito e carinho.  Foi excelente voltar a trabalhar com o João, e com um elenco genial, com pessoas que admiro muito e que não conhecia, como o Rui Mendes, Fernando Gomes e o Virgilio, e com um dos atores que mais gosto da minha geração, o Rui Neto. Mas todo o elenco era excelente, e era composto por jovens alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema, todos eles com muita pica e qualidade. Foi excelente, um privilégio e uma honra.

«Sou um devorador de cinema, fico muito feliz com a alavancagem do cinema português. Ainda não chega, mas é um bom ponto de partida.»

No cinema, para além de algumas curtas-metragens, apenas tiveste a oportunidade de trabalhar na longa-metragem 20, 13. Que outro tipo de papéis gostarias de receber no grande ecrã?

Todos! Quero muito fazer mais cinema. Sou um devorador de cinema, fico muito feliz com a alavancagem do cinema português. Ainda não chega, mas é um bom ponto de partida. O mercado artístico é fundamental para qualquer sociedade. E numa época em que se fala muito de números, é um mercado que permite a obtenção de receitas muito interessantes. Que se invista mais no cinema, é o meu desejo, e que contem comigo já agora!

Nos últimos meses, filmes como As Mil e Uma Noites, Balada de um Batráquio, O Ornitólogo ou A Morte de Luís XIV, entre outros, têm sido premiados e exibidos internacionalmente. Por outro lado, a trilogia “Novos Clássicos” trouxe mais de um milhão de espetadores às salas nacionais. Qual é que achas que deve ser o caminho a seguir pelo cinema português?

Todos os caminhos são válidos. Todos os estilos podem e devem conviver de forma saudável. Algumas linhas permitem arriscar artisticamente, procurar novas zonas artísticas, com maior risco. Outras correspondem a uma solicitação do público em geral. O que não invalida que os filmes comerciais não possam ser inovadores, e que os de autor não possam cativar o público de forma massiva. Não imponho, nem concordo que se imponham barreiras à arte.

Enquanto ator, o que achas que ainda falta à cultura em Portugal?
Falta investimento. Fundamentalmente investimento. Há bons profissionais, de classe mundial, há público, para mim falta investimento. Mas não falo só em injecções de dinheiro. Falo também em investimento em programas curriculares, desde a escola primária para que a arte seja uma via profissional tão considerada e valorizada como qualquer outra. Porque é uma via tão válida como qualquer outra.