Se tivesse de definir O Rio numa palavra seria misterioso. Pelo breu da noite em que começa. Pelo pôr-do-sol em que se fala, mas ninguém vê. Pelo dinamismo das personagens sem nome. Por um desfecho que fica como um nevoeiro no final. Depois de ter estreado em Londres, em 2012, e em Nova Iorque, em 2014, a peça escrita por Jez Butterworth chega a Portugal pelas mãos dos Artistas Unidos.

Assumido admirador de Harold Pinter, Jez Butterworth começou a escrever para teatro em 1991, com Cooking in a Bedsitter. Cresce de tal forma como dramaturgo, que em 1995 alcança êxito com Mujo, em Londres. Também argumentista para televisão e cinema, nomeadamente para a série James Bond, esgota as salas com a peça Jerusalem.

Encenada por Jorge Silva Melo, O Rio chega ao Teatro da Politécnica. Se há espaço onde se encontra bons autores e boas encenações em Lisboa, é nesta sala. De Tennessee Williams para Jez Butterworth, Silva Melo volta a “aconchegar” o público com um drama num texto que poderá vir a ser um clássico no teatro.

Um diálogo entre um homem e uma mulher sem nome

Uma cabana perto do rio. Um homem (Rúben Gomes), vestido para pescar, procura uma lanterna, cigarrinhos, carreto, caixa de moscas, macete… Não encontra o macete. À janela está uma mulher (Inês Pereira) que observa um pôr-do-sol com entusiasmo. “Anda ver”. Diz a mulher sem nome ao homem sem nome.

Há prioridades para o homem, principalmente se isso implicar encontrar o macete. “Descreve o pôr-do-sol”, pede a mulher. Não resistindo à insistência, mesmo afirmando que são todos iguais, ele fá-lo. Encontra o macete. Está com pressa para ir pescar trutas mariscas. A “meia-noite sem lua” espera-o. Após um diálogo entre um livro com autor desconhecido, Virginia Woolf e a insistência para que ela vá pescar, ela vai.

Está escuro. O homem chega agitado. Tem uma lanterna a petróleo. A mulher perdeu-se na noite. Desesperado liga à polícia. Ela aparece. Agora é outra mulher (Vânia Rodrigues). Outra mulher para o público. O discurso continua como se fosse a mesma pessoa para o homem. Assim vai acontecendo a ação, entre uma mulher e outra.

Um drama que corre como água

O Rio desagua em sucessivas referências a situações. Ora a mulher se perde, ora aparece com um peixe bem gordinho que o homem acaba por “desventrar” em palco, ao som de uma música misteriosa, como o drama.

A mulher é apaixonada, a outra mulher é sensual. A mulher é introspetiva, a outra mulher é prática. São mulheres que desabrocham memórias de infância. São mulheres que se tornam memória de outras mulheres. O Rio deixa que a dúvida continue a correr. Aparecerão outras mulheres? Estará tudo no pensamento do homem?

Rúben Gomes desenpenha o papel de homem, interpretado por Hugh Jackman em Nova Iorque. Foto: Jorge Gonçalves

Rúben Gomes desenpenha o papel de homem, interpretado por Hugh Jackman em Nova Iorque. Foto: Jorge Gonçalves

Rúben Gomes tem uma interpretação fluída e fixante. As mulheres complementam a obsessão pelas pausas e pela tensão muitas vezes criada pelo ator. Como pilar, está o texto de Jez Butterworth, traduzido por Joana Frazão. As palavras escorrem como se fossem parte de um rio, que ora corre com calma, ora fica agitado. Não tem pressa e deixa os espectadores deslizar, independentemente do rumo que levar.

O que há a fazer perante este rio? Esperar pela próxima peça naquela sala. Mas, por enquanto, há O Rio até 22 de outubro. 

Ficha técnica:

Tradução: Joana Frazão

Interpretação: Rúben Gomes, Inês Pereira, Vânia Rodrigues e Maria Jorge

Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves

Luz: Pedro Domingos

Coordenação Técnica: João Chicô

Assistente de Encenação: Maria Jorge

Encenação: Jorge de Silva Melo