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Foto: Catarina Veiga

Um dueto no palco e fora dele resultou num prémio internacional

Conheceram-se entre desencontros. Ela via-o em palco. Ele via-a a ela. Ele veio dançar para Portugal. Ela foi dois anos para Antuérpia. Até que surgiu o momento. Filipa de Castro e Carlos Pinillos iniciaram um dueto há 13 anos como namorados e em palco. Ambos são primeiros bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. Assumem que só com o tempo têm aprendido a gerir a relação. De tal forma, que no passado dia 10 de setembro venceram o Prémio de Dança Positano (Itália) para bailarina e bailarino do ano na cena internacional, equivalente a um Globo de Ouro. 

No dia 12 de setembro, a directora artística da Companhia Nacional de Bailado, Luísa Taveira, fez questão de esperar por Filipa de Castro e Carlos Pinillos no estúdio. “Nesse dia até estávamos um bocadinho atrasados”, diz a sorrir a bailarina.

Luísa Taveira era a única que sabia do prémio. Filipa e Carlos tinham enviado uma fotografia do diploma, assim que aterraram no aeroporto de Lisboa no dia anterior. Felicitou-os, virou-se para o elenco da companhia e deu a notícia. Mas os dois bailarinos não perderam tempo e depressa voltaram ao trabalho.

A primeira vez que Carlos viu Filipa dançar foi em Madrid num programa com três peças. Ainda se lembra quais eram: Agon, The Lisbon Piece e In The Middle Somewhat. Mas mais que as peças, não esqueceu “a menina dos caracóis” da Companhia Nacional de Bailado. Essa altura também foi de mudança para Carlos. Queria parar de dançar. Na companhia em que dançava, quase não tinha tempo para si. O trabalho era “frenético”, afinal estava no circuito internacional da dança.

Foto: Catarina Veiga
A primeira vez que Carlos Pinillos viu Filipa de Castro dançar foi em Madrid. Foto: Catarina Veiga

Carlos Pinillos começou a dançar aos seis anos na escola de dança de Victor Ullate. Nove anos mais tarde passa a integrar a companhia e ganha inclusivamente o primeiro prémio do Concurso Internacional de Viena, em 1998. Aos 22 anos decide mudar. Depois de alguns meses sem dançar, soube que a Companhia Nacional de Bailado estava a fazer audições. Fez e ficou. “Fiquei até mais atraído de vir viver para Lisboa do que pela dinâmica da dança.”  As surpresas foram muitas. O reportório era extenso e teria de passar do clássico a contemporâneo. Resultado: conseguiu ter uma vida para si e para a dança.

Chegava Carlos, ia Filipa. A bailarina foi para o Ballet Real da Flandres. Dois anos depois haveriam de se encontrar de novo em Portugal. Filipa voltava à Companhia Nacional de Bailado. Bastaram olhares. “Vimo-nos e começamo-nos a rir os dois, porque já não era sem tempo”, ri-se Filipa. A partir de então começam uma nova vida em conjunto.

25 horas juntos por dia

A primeira peça que dançaram em dueto foi D. Quixote. “Foi a primeira vez que lhe meti as mãos em cima e apanhei um grande susto”, relembra Carlos. Significava que precisavam de fazer certos ajustes. “Agora lidamos bem com a nossa relação, mas no início foi complicado”, esclarece Filipa. A reações, o diálogo e as atitudes eram diferentes relativamente aos restantes colegas.Falaram muito sobre isso. “A estratégia profissional e a estratégia de casa está constantemente presente no nosso dia-a-dia. Afinal, passamos 25 horas juntos por dia”, Filipa.

Contudo, a relação pode ser um ponto forte em palco. “Somos muito fortes num tipo de dueto em que a relação de homem e mulher está muito presente”, indica Carlos. Há uma cumplicidade, um cunho pessoal e uma entrega que não é fácil de encontrar. Quer em galas internacionais ou nos espetáculos da companhia, quando o público se apercebe da ligação, a reação é: “Faz sentido”.

Uma boa surpresa em Itália

Na terceira semana de agosto souberam que iriam estar em Positano, Itália. Não tinham noção do que os esperava. Num palco em cima da praia, dançaram Lento para Quarteto de Cordas , de Vasco Wellenkamp, numa noite que ameaçava chover. Além disso, a plateia estava repleta de personalidades determinantes do mundo da dança. Entre a directora artística do Benois de la Danse, o actual director do Ballet da Opéra de Nice, Eric Vu-an, ou Aurélie Dupont, directora do Ballet da Opéra de Paris, que até os felicitou no final do espetáculo.

Depois chegou a surpresa, foram premiados numa distinção que já destacou nomes como Maurice Béjart, Vladimir Vasiliev, Ivan Vassiliev, Natalia Osipova ou Alessandra Ferri. “Foi um reconhecimento inesperado”, afirma Filipa, agora já consciente do galardão. Dançam em galas internacionais e sabem que Portugal é um país relativamente pequeno no mundo da dança a nível internacional. Alguém responsável pela premiação terá visto Filipa e Carlos dançar. Depois a comissão analisou, viu vídeos e votaram.

Até Itália levaram uma coreografia de Vasco Wellenkamp, sobretudo como uma reivindicação. “O mundo da dança tem-se mercantilizado muito”, aponta Carlos, acrescentando que a formação tem-se virado muito para a disciplina desportiva do que para a artística. “A linguagem do Vasco é muito pura”, sublinha Carlos.

Será que daqui a 20 anos ainda alguém se lembra da obra de Vasco Wellenkamp? Há o medo do esquecimento do que fazem? Ambos os bailarinos expressam um receio como se olha para a cultura. Um receio que se reflecte na formação dos mais jovens. “Para nós o que é preocupante, é que a própria sociedade está a cair no seu próprio esquecimento. Estamos a entrar no mundo da competitividade, em que já não serves quando não és ativo e útil. Depois passas a depender apenas de ti próprio”, alerta Carlos.

“Continuamos à espera de uma congratulação do Ministério da Cultura”

A Escola da Companhia Nacional de Bailado pode ser um “primeiro passo entre muitos outros”, para se a cultura se afirmar. É essencial que se olhe a dança como uma forma de estar e não apenas como entretenimento. “Está melhor do que quando cresci”, destaca Filipa. Quando decidiu ser bailarina, foi como uma bomba na sua família de cientistas. ” ‘Ela vai ser bailarina e como é que ela vai viver?’, diziam” Até em relação ao prémio se pode analisar a indiferença do país em relação à dança. “Continuamos à espera de uma congratulação do Ministério da Cultura”, afirma a bailarina.

Foto: Catarina Veiga
Carlos Pinillos e Filipa de Castro dançam em diversas galas internacionais, onde representam Portugal. Foto: Catarina Veiga

Qualquer que seja o rumo da gala internacional, levam Portugal na mochila. Desta vez chegaram com um prémio que esperam influenciar os jovens bailarinos e os colegas. E têm uma certeza: estão a fazer um caminho certo, e mais uma vez, também fora de palco. Referem-se à humildade. “O aspecto humano é primordial”, salienta Carlos. Isso também se confirmou em Itália, quando se sentaram na mesma mesma que Vladimir Vasiliev, um ícone da dança. “Foi arrepiante.Até pela forma como fala, não deixa que ninguém o mete por cima dos outros “, relembra Carlos. E não só. Vitor Ullate, seu antigo professor e premiado em Positanotelefonou-lhe para estar com ele. Eric Vu-an lembrou-se que os viu dançar há dois anos em Cuba. “O dia e meio em que estivemos lá consistiu nisto”, acrescenta com nostalgia.

Foto: Catarina Veiga
Os dois bailarinos preparam novos duetos para as galas internacionais.  Foto: Catarina Veiga

Já com aulas e ensaios na companhia preparam a temporada na Companhia Nacional de Bailado. Em dezembro, estreiam o bailado La Bayadere, de Fernando Duarte. Também Carlos Pinillos vai ter uma projecto com Israel Galván. Entretanto, estarão numa gala em Salzburgo e Madrid. Vão também incluir novos duetos no seu reportório, incluindo flamenco. Portugal têm-se feito notar nos palcos internacionais quando se sabe que Filipa de Castro e Carlos Pinillos vão dançar.

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