Depois do sucesso de Psicómico, Paulo Almeida está de volta aos palcos com um novo solo de stand-up comedy. Ofensivo já esgotou salas como o Cinema São Jorge e o Teatro Sá da Bandeira, e dia 30 estará no palco do Teatro Miguel Franco, em Leiria. O Espalha-Factos esteve à conversa com o “psicopata do humor nacional” e uma coisa garantimos – não é tão psicopata quanto parece.

Paulo Almeida ficou conhecido por interpretar a personagem ucraniana Grozny no programa da SIC Radical “Curto Circuito”. Depois disso, foi um pequeno passo até se consolidar no humor mais corrosivo.

Espalha-Factos: Há quem te chame psicopata. O que é preciso para ser um bom psicopata?

Paulo Almeida: Em primeiro lugar não desistir, porque normalmente os psicopatas pecam muito por isso, desistem facilmente. E com isso deixam de ser psicopatas, passam a ser só criminosos que vão presos, porque são “molengas” e não analisam os riscos. Essencialmente é isso, um bom psicopata não é apanhado. Chamarem-me psicopata vem de uma brincadeira com amigos, começaram a chamar-me “psicopata fofinho” e eu achei piada, e a partir daí comecei a aproveitar-me disso, chegando até a usar essa denominação para os meus espetáculos.

EF: Lembraste da primeira piada mais “negra” que fizeste?

PA: Não. Quando eu comecei a fazer isto, o meu estilo de humor não era tão negro. Eu comecei por fazer um personagem que era ucraniano, o Grozny, no Curto Circuito, e era um personagem que tinha alguns“lives” de humor mais agressivo, mas era um ingénuo. A partir daqui foi uma transição normal, eu sempre me ri de coisas mais agressivas, como catástrofes, coisas más que acontecem às pessoas. Eu sou aquela pessoa que quando vê alguém a tropeçar na rua e a cair começo a rir alto, e puxo para que outras pessoas comecem a rir também. Desde pequeno que sou assim, acho que está enraizado e comecei a ver que este é o estilo de humor que mais gosto. Cada vez mais me dá gozo fazer piadas que causam não tanto uma boa gargalhada, mas aquele “eish”.

EF: Fazeres este tipo de humor foi uma escolha ou um acaso?

PA: Foi um misto das duas coisas. Sempre gostei mais de ver humoristas que fizessem algo mais agressivo, não gosto de conotar este humor como negro. É um estilo mais agressivo, é uma maneira diferente de ver as coisas. Também gosto de ver humor observacional, físico, mas aquele que mais me faz gargalhar é o humor mais agressivo. Não tenho muito jeito para fazer outro tipo de humor. Por isso foi um misto, incialmente um acaso, mas depois uma escolha.

EF: Existe limites no teu humor?

PA: O meu limite é não achar piada. Em relação ao temas que abordo, não há limites. Quando faço uma piada é com o objetivo de fazer rir, se vai ofender alguém, já não controlo.

EF: É preciso talento para fazer o que fazes?

PA: Sim, o talento é necessário. Podemos começar de uma forma mais espontânea, mas só se tiveres talento é que vais continuar da mesma forma ao longo dos anos. Isto passa-se em qualquer área ligada à arte e ao entretenimento, existem muitas pessoas no início de alguma coisa, e temos o exemplo da geração “Morangos com Açúcar”, e depois ficam apenas uma pequena minoria.

EF: Lidas bem com as críticas ao teu trabalho? Dormes bem à noite?

PA: No início, quando fazia atuações ao vivo em bares manhosos às 2h da manhã, o ponto fraco era os haters, que mandavam uma boca ou outra e eu ignorava e seguia, mas isso era errado. Aprendi que se não respondesse a essas pessoas, elas ganhavam força e o que eu queria era precisamente o contrário. Ao responder enfraquecia-as e ganhava o público. Se calhar há uns anos atrás não lidava tão bem com as críticas, mas hoje em dia as críticas já me divertem. Não me posso deixar afetar porque se não auto-censurava-me em tudo. Se durmo bem? Durmo perfeitamente bem.

EF: Com o Ofensivo já esgotaste o São Jorge e o Sá da Bandeira. Isto significa o quê?

PA: É a primeira vez que eu estou a fazer uma tour sozinho. Foi bom esgotar Lisboa e Porto porque são as cidades em que tenho mais público, é bom para o ego, apenas. Agora quero fazer o máximo de cidades. E cada vez mais há mais abertura para o humor mais agressivo, e há mais salas a receber estes humoristas, o que é bom. Público sempre houve, mas agora temos mais pessoas a irem às salas para ver ao vivo. No entanto, ainda existem salas que não deixam que alguns humoristas apresentem o seu trabalho. É triste, mas é verdade.

EF: Queres provar que não existem tabus para uma piada. Não achas que isso é um desafio difícil mesmo para um psicopata?

PA: A diferença principal do Psicómico para o Ofensivo é que o primeiro foi um espetáculo muito mais pessoal, foi o primeiro solo então eu falei da minha vida naqueles primeiros 10 anos como humorista. O Ofensivo tem uma componente muito pessoal, mas também abordo temas que pretendo que deixem de ser tabu. Começo o espetáculo na forma mais ofensiva possível e depois vou desconstruindo tudo o que se vai passando, e acabo por gozar comigo mesmo.

EF: Ofensivo porquê? Quem é ofendido?

PA: Escolhi o nome Ofensivo porque dizem que as minhas piadas são ofensivas, e eu aqui quero mostrar que se calhar não sou eu o ofensivo, mas sim que as pessoas é que se ofendem e depois se tornam elas próprias ofensivas quando fazem certas críticas. O espetáculo é divido em cinco grandes blocos e num deles falo do cancro, mas não numa perspetiva de ofender quem tem cancro, mas sim numa perspetiva de mostrar que as pessoas se ofendem com o cancro, e gozo com elas. Sei que quando faço uma piada dessas nas redes sociais vou ter pessoas a não achar piada, mas depois quando recebo mensagens de pessoas a dizer que têm ou tiveram cancro, e me agradecem por falar assim sobre o assunto, de forma diferente e quase com naturalidade, é bom, vale a pena.

EF: Sentes-te nervoso quando sobes ao palco?

PA: Sempre. Acho que o dia em que já não me sentir nervoso é porque já me estou completamente a “cagar” para aquilo, e se isso acontecer tenho que pensar no que ando a fazer. Já não é o mesmo nervosismo de quando comecei, este é um nervosismo de responsabilidade. Se tu gostas do que fazes e tens respeito pelas pessoas que pagaram bilhete para te ir ver, tens sempre que sentir nervosismo. Ao fim de 20 minutos passa e esqueço-me que estou numa sala de espetáculo.

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Foto: Sandra Reis

EF: Depois de terminares a tour do Ofensivo, o que podemos esperar a seguir?

PA: O novo solo só vai aparecer daqui a uns meses, talvez no primeiro semestre do ano. Agora há um novo espetáculo, o Overdose de Tourette, que é composto por duas duplas [Rui Cruz e Paulo AlmeidaOverdose; Manuel Cardoso e Diogo BatáguasTourette], e somos todos amigos e decidimos fazer uma primeira experiência no Teatro do Bairro, em Lisboa, que esgotou rapidamente, e agora vamos fazer no Porto, dia 14 de outubro, no Teatro Sá da Bandeira. É uma vertente diferente porque gosto de fazer a solo, mas é muito divertido fazer espetáculos pelo país com amigos. O nível de responsabilidade que sinto é igual de quando faço a solo, mas o nervosismo quando subo ao palco é atenuado.

EF: Se tivesses que eleger uma pessoa com quem adores partilhar um projeto, quem seria?

PA: O Rui Cruz. Conheci-o não há muito tempo, mas trabalhei muito com ele. Ao longo desse tempo fomos criando uma amizade muito boa e sólida e fomo-nos complementando muito. Estamos dentro da área mas somos diferentes, e isso é bom.