Há mais de um ano atrás, Citizenfour era-nos apresentado como o definitivo testemunho cinematográfico desses dias fatais em que Edward Snowden, enclausurado num quarto de hotel com um grupo restrito de jornalistas, revelou ao mundo o que o mundo já suspeitava mas preferia, é certo, ignorar: que os EUA espiam milhões de cidadãos dentro e fora das suas fronteiras, sem respeito pelo direito à privacidade que qualquer estado democrático deve garantir.

Se, no que a esta questão moral se refere, o documentário de Laura Poitras forneceu novas munições para ambas as fações em guerra, a verdade é que, na sua dimensão histórica, o filme fixou uma indiscutível narrativa em torno dos acontecimentos que retrata – tornou-a consensual e una, coisa que na era digital dificilmente (e por pouco tempo) se consegue.

Por consequência, Snowden, espécie de biopic do ex-funcionário da NSA assinado por Oliver Stone (Natural Born Killers, Platoon), parece uma redundância. Todavia, e porque o cineasta deve ter consciência deste problema, o espaço cronológico de Citizenfour é apenas incluído num curto segmento de Snowden.

O filme de Stone prefere passar mais tempo com o seu herói para descrever o movimento total de uma desilusão que se insinua lentamente, começando pelo ponto de perfeita ingenuidade – quando Snowden ainda era um recém-chegado ao sistema – e terminando na tal reviravolta que pôs o seu nome nas bocas do mundo – o ato de “traição” (entre as aspas que o guião não receia colocar para tomar partidos).

É óbvio que há aqui um sentimento de identificação que une biógrafo e biografado, o realizador e o seu símbolo-fetiche de rebelião, mas essa proximidade, longe de resultar numa visão distorcida dos acontecimentos, traduz-se apenas num registo mais direcionado e pessoal do que o que esperamos deste cinema tipicamente ameno, based on a true story.

O Stone “historiador” (pouco ortodoxo), que se divertia com as conspirações implosivas no seio do establishment americano, está bem presente neste filme; já o Stone formalista, dos excessos fúteis e avessos a qualquer tipo de subtileza, surge domesticado pela urgência do enredo (coisa que até é bem-vinda, caso nos lembremos dos momentos mais deploráveis de Natural Born Killers, ou mesmo o recente Savages).

Isso não quer dizer que a imagem em Snowden não nos chegue processada ao máximo, psicadélica e trabalhada para lá da sua intenção descritiva. A diferença está no fim que, desta vez, justifica os meios: Stone filma o campo de batalha hiper-real da Internet, e que outro estilo senão o dele, hiperativo e exagerado, faria justiça a essa realidade em compulsiva complexificação?

Claro que esse conceito estético nunca atinge, por exemplo, as alturas do de Michael Mann no seu intrigante Blackhat, mas é o que basta para despertar Snowden do piloto-automático.

Gordon-Levitt, o centro gravítico de Snowden

Do resto ocupam-se os atores, ou o ator, visto que Joseph Gordon-Levitt, mais que um protagonista, está para este filme como um centro gravítico – não porque a sua interpretação seja particularmente notável, mas porque todas as ideias do argumento parecem desembocar nele, na sua tímida figura de herói indeciso.

O seu Edward Snowden ensimesmado, cauteloso, paranóico, não é muito diferente daquele que se deixava filmar em Citizenfour, o que lhe falta é o terrível silêncio, o sufoco do filme de Poitras, que Stone é incapaz de recriar. No entanto, em matéria de biopics politicamente motivados, já vimos muito pior – aqui há uma forte inspiração, ainda que baseada na manifesta admiração do cineasta pelo sujeito em estudo.

5/10

 

Ficha técnica
Título: Snowden
Realizador: Oliver Stone
Argumento: Kieran Fitzgerald, Oliver Stone
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo, Zachary Quinto
Género: Drama biográfico
Duração: 134 minutos