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Uma Salsicha que quer assassinar os Deuses

Estreou no passado dia 15 de setembro o filme mais recente de Greg Tiernan e Conrad Vernon, uma animação que nasceu de mais uma das extravagantes ideias de Seth Rogen, Evan GoldbergJonah Hill.

Dentro de um supermercado, os alimentos sonham em ser escolhidos pelas pessoas e mudarem-se para o seu novo lar, conhecido como “o além”. Mas eles nem suspeitam que serão cortados, ralados, cozidos e devorados. Quando uma salsicha descobre a terrível verdade, ela reúne outros alimentos com a tarefa de voltarem ao supermercado e avisarem todos os colegas do risco que correm.

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Sim, não se enganaram a ler a sinopse. Salsicha Party é, na verdade, uma introspecção metafísica e religiosa sobre alimentos e produtos de supermercado. Mas o que é verdadeiramente espantoso com este filme, contrariamente por exemplo ao suplício que foi A Entrevista, é que esta estapafúrdia ideia que deve ter naturalmente nascido de uma embriaguez da alma (uma daquelas não alcóolicas), consegue ser transposta para o comum do ser humano e falar de dois pontos fulcrais de toda a nossa existência: a fé e a ilusão.

Piadas à parte e tirando toda a parte do argumento em que tiveram mais preocupados em fazer “dick jokes“, Salsicha Party é um filme que retrata de uma forma hilariante a própria experiência e relação milenar entre a religião e o ser humano. A forma como os alimentos se comportam diante os “deuses” (neste caso os humanos) é de uma forma muito semelhante a todas as religiões criadas pelo Homem: o fascínio, a prestação de homenagem (a canção inicial como o primeiro grande momento do filme), as superstições, os rituais de simbolismo, o medo, o receio do desconhecido e, por fim, a ilusão de tudo que disfarça o prazo da validade associado a cada um dos produtos e alimentos do supermercado, muito ao jeito da reencarnação que também nos tranquiliza a nós da nossa própria mortalidade.

E é no pegar desta temática de uma forma cómica, sem pudores ou indícios de cuidados para se tornar politicamente correcto que é de facto admirável neste filme. Estamos em pleno 2016, numa altura em que a internet não descansa a castigar tudo o que acha inapropriado (qual inquisição espanhola), numa altura em que a comédia tem que se munir de mil escudos para conseguir fazer alguma piada que não ofenda ninguém. Mas Salsicha Party simplesmente levantou o dedo do meio a esta cultura do politicamente correcto: usou e abusou de estereótipos, é um filme brejeiro, ridículo e ofensivo para muitas comunidades, mas não é por causa disso que se torna insultuoso, porque antes de gozar com os outros o filme goza consigo mesmo e com quem os criou, deixando desse modo a audiência completamente confortável com as piadas vindouras.

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Salsicha Party é, no entanto, uma longa-metragem de animação que se assume muito mais como comédia do que um produto de relevância no termo da técnica animada. Digamos que assim foi feito porque é a maneira mais lógica de contar umas história como estas, de momentos tão extravagantes como uma super orgia entre todos os alimentos de um supermercado (eu sei, nunca pensei escrever esta frase na minha vida). Mas de boa animação tem pouco. O filme não é, de todo, visualmente atrativo, a animação é de um 3D muito óbvio e pouco cuidado, o que pode ser desculpável pelo argumento associado e por não ser uma obra tipo Brave da Pixar que demorou anos a ser desenvolvida.

Em suma, e além de tecnicamente ser fraco, este é um filme que, de uma forma descontraída e engraçada, acaba por tocar em muitos pontos essenciais da nossa vida em sociedade e até como ser humano individualizado. Uma longa-metragem que aborda os nossos maiores medos e sonhos e que joga com esses símbolos numa paródia que é, acima de tudo, um retrato do real.

7/10

Ficha técnica
Título: Sausage Party
Realizador: Greg Tiernan e Conrad Vernon
Argumento: Ideia de Seth Rogen, Evan Goldberg e Jonah Hill e escrito por Kyle Hunter, Ariel Shaffir, Seth Rogen e Evan Goldberg
Elenco: Seth Rogen, Evan Goldberg, Kristen Wiig, Salma Hayek e Jonah Hill
Género: Animação
Duração: 89 minutos

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