Numa das edições mais cheias de sempre, o NOS D’Bandada deste ano regressou com Orelha NegraFirst Breath After ComaSelma Uamusse, entre outros. As filas e ruas cheias são já uma das paisagens habituais do intitulado “São João da música”.

D’Bandada é sinónimo de duas coisas: filas e decisões difíceis. Para aqueles que escolheram os Maus Hábitos como paragem oficial, o dia começou às 16 horas. Cachupa Psicadélica veio de Cabo Verde com uma guitarra elétrica no saco. O dialeto africano e as notas suaves da guitarra ecoaram pelo restaurante do espaço de intervenção cultural, e deram início a um dia que se avizinhava de muito calor humano.

Isto porque aqueles que passaram do restaurante para a sala de concertos depararam-se com uma autêntica sauna. Os Quelle Dead Gazelle davam um dos concertos mais quentes do dia, não só pela massa humana que se agregou para assistir, mas sobretudo pela combinação guitarra-bateria que tão bem funciona.

Aqueles que conseguiam sair da sala e foram abençoados com a brisa que corria no pátio puderam tirar uns minutos antes de Surma subir ao palco do restaurante. E é nestes momentos de pausa que se vê que o D’Bandada é um encontro amistoso entre o público e os artistas. Com uma prestação sólida, como já nos tem habituado, Surma encantou os que ainda não conheciam aquilo que vem da nova cena musical de Leiria.

Aqui, o espaço começava a ficar apertado. A fila à porta – e não às escadas, como nos anos anteriores – já subia muito a rua Passos Manuel. Também o Coliseu, em frente, mostrava uma fila que descia pela rua. Aqueles que foram cativados pelo africanismo de Selma Uamusse ou Bonga teriam mesmo de esperar para entrar – isto se o conseguissem fazer.

Entretanto, já alguns tiravam lugar na sala para um dos concertos mais lotados do dia: First Breath After Coma. E é fácil perceber porquê. O som a la Explosions in the Sky cantado é bonito, é novo, é fresco. É tudo o que se precisa na música portuguesa. Viajando entre The Misadventures of Anthony Knivet e o recém lançado Drifter, temas como Salty EyesShoes For Man With No Feet ou Escape eram ecoadas por aqueles que esperaram para ver os, também, leirienses.

Enquanto os Maus Hábitos faziam a pausa de jantar, muitos aproveitavam para satisfazer a vontade do estômago. As famosas Galerias de Paris estavam ainda a meio gás. De tarde, o Café Au Lait começou as hostilidades com um par de cantautores: Lourenço CrespoSallim.

Mais tarde era a vez de os Galgo mostrarem o porquê de serem atualmente uma das bandas que mais fãs tem ganho. O som eletrizante e dançável da banda da capital é uma das jóias da coroa da música nacional. Em palco são imparáveis, absolutamente imparáveis. O novo disco Pensar Faz Emagrecer, com data de lançamento para o final do mês, soou tão bem aos (sortudos) que conseguiram entrar num café demasiado pequeno para a qualidade dos Galgo.

Depois de um concerto hipnotizante de First Breath After Coma e de uma pausa (indispensável) para recuperar os sentidos, o Maus Hábitos reabre as portas e recebe um registo musical bem diferente. Plus Ultra atuam para uma sala cheia, vibrante e inquieta. Gon veste-se a rigor para a ocasião: é envolto em balões coloridos que o vemos a pisar o palco. Mas a atuação explosiva a que já nos habituaram não permite grandes artifícios e, por isso, rapidamente os balões dão lugar a troncos nus e suor.

O mosh começa no momento em que o concerto começa. A música de Plus Ultra, aliada à postura volátil em palco, não dá espaço para qualquer outra demonstração de contentamento: os corpos embatem-se em perfeita sintonia com a música e os cabelos acompanham os movimentos agressivos da cabeça. As baquetas que se ressentiam a cada batida foram substituídas por punhos agressivos. Instrumentos destruídos, stage diving confiantes, adesão ao mosh que instigam… Plus Ultra não deixaram mesmo nada por fazer e os Maus Hábitos sobreviveram por pouco.

Era Uma Vez Em Paris recebeu o D’Bandada com dois concertos com tanto de bom como de diferentes. Se as Golden Slumbers trataram de dar um dos concertos mais fofinhos da noite, os Chibazqui trataram de fechar o café com o melhor rock que se ouviu este ano. De Planos Para o Futuro, do ano passado, os Chibazqui mostraram que músicas como Cachorra e Elefante e Micróbio são dos melhores temas de rock de 2015.

A noite fechou para muitos a dançar na Rua Cândido dos Reis, ao som de DJ Nuno Lopes. O ator recém premiado mostrou que do cimo de uma estrutura conseguiu fazer com que centenas de pessoas se concentrassem numa rua para dançar.

Muitos foram os concertos que não puderam ser vistos. No Passeio das Virtudes, os Salto e os You Can’t Win Charlie Brown, com o seu novo disco Marrow, agitaram aqueles que os viram. Na sobrelotada Praça dos Poveiros, o hip-hop reinou ao som de Orelha Negra. E um pouco por todo o lado se ouviu música no dia do São João da música.

Artigo escrito por Luís Pereira e Mónica Azevedo