Até 9 de outubro no Teatro Nacional D. Maria II, está a obra-prima de Ibsen. O Espalha-Factos já assistiu a este Pato Selvagem e levanta-te o véu sobre o voo.

Há textos que se bastam, que se constroem a eles mesmos. Textos que, esteja o que estiver em cima do palco – cenários, adereços, luzes, música, não importa – eles falam por si mesmos. O Pato Selvagem é um desses textos.

Criado em (nunca datado) 1884, muitos consideram-no o melhor e mais profundo texto de Henrik Ibsen. A última vez que tinha foi encenado em Portugal aconteceu há 116 anos, ali mesmo naquele palco. No dia em que assistimos ao espetáculo, dia de Entrada Livre, O Pato Selvagem volta a ver a luz do dia.

As cerimoniosas leituras encenadas do Sofá Rodrigues, onde se escutam crónicas do jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, vão aquecendo o ambiente para o que aí vem no resto da noite.

E o resto da noite é Ibsen, servido pelo encenador Tiago Guedes, num prato de interpretações eficazes e ambiente certeiro. Este é um Pato Selvagem de origens. Enquanto peça, faz-se viver essencialmente do diálogo. Em palco, a entregá-lo, estão Tónan Quito, Gonçalo Waddington, João Grosso, Anabela Almeida, Lúcia Maria, Margarida Correia e Pedro Gil – mas há ainda um cenário super moderno e, ao mesmo tempo, intemporal, feito de soluções simples mas cujo efeito se revela excecional.

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Foto: Divulgação

Tónan Quito é Gregers Werle, um homem que vive ressentido com o pai (interpretado por João Grosso), que culpa pela infelicidade e pela prematura morte da mãe. Gonçalo Waddington é o seu melhor amigo de infância, Hjalmar. Este vive amargurado pela armadilha em que o seu pai, o velho Ekdall (também interpretado por João Grosso), caiu, às mãos do pai de Gregers, e eternamente insatisfeito com a vida que leva. A sua mulher Gina é o pilar da família, mas esconde um passado sombrio, e a filha, Hedvig, uma miúda inteligente que só quer ver toda a gente feliz. Já o avô Ekdall, vive alheado do mundo, entretido no sótão, onde a família guarda um malfadado pato selvagem – criaturas que, uma vez feridas à superfície, mergulham e agarram-se firmemente às algas debaixo do mar, para morrer assim.

Gonçalo Waddington destaca-se, inevitavelmente. Pelo carisma, pelo humor e, sejamos absolutamente francos, pelo quão estupidamente talentoso é.

João Grosso, aqui em dose dupla, a convencer muito mais na pele do cómico avô Ekdall do que na do abastado patriarca Werle. Já Tónan Quito apresenta-se no registo mais discreto que lhe é característico e Pedro Gil, que interpreta o cínico e embriagado vizinho da família Ekdall, Doutor Relling, a deixar algumas dúvidas nas suas escolhas…  O elenco feminino, Anabela Almeida, Lúcia Maria e Margarida Correia, está presente e faz-se ouvir, exatamente do mesmo modo que as suas personagens o fazem na peça.

A empatia pela humanidade do Pato

Sim, conseguimos conectar-nos com cada um destes personagens. Há camadas de bem humanas de profundidade em todos eles, nenhum escapa. Aqui, ninguém é secundário – e aí, mais uma vez, o mérito tem de ser atribuído ao texto de Ibsen. Todos têm algo de Pato Selvagem em si, a metáfora é a rainha da peça. O que o ilustra melhor senão as maravilhosas conversas entre Gregers e Hedvig, os dilacerantes ataques entre Gregers e Relling ou a futura invenção de Hjalmar?

A verdade é a grande questão da peça. Gregers, um bom homem que procura, acima de tudo, aquilo que é correto e justo, acaba por conseguir precisamente o contrário. A busca incessante de Gregers pelo verdadeiro contrasta com a posição de Relling, que despreza o seu puritanismo e bebe para inebriar a existência porque está convencido de que essa é a única forma de conseguirmos sobreviver: com a mentira.

As consequências das ações bem intencionadas de Gregers (parece que, para Ibsen, o Inferno está mesmo cheio de boas intenções) são o grande desenlace e o ponto de reflexão de maior dimensão na peça.

Mas aquilo que Relling não diz, mas que o texto de Ibsen não esconde, é que o pato acaba por morrer tanto se ficar à tona e se deixar alvejar, como se mergulhar para fugir e se afogar no fundo do mar. Este niilismo latente que não deixa outra opção senão a morte, seja com a verdade ou com a mentira. Nunca houve salvação para O Pato Selvagem.