zululuzucalipiopadilha_3
Alípio Padilha

‘ZULULUZU’: Todos em manifesto contra uma… caixa preta

Não, não é falta de vocabulário da tua parte. ZULULUZU é uma nova palavra na língua do teatro português. Este neologismo é o título da nova peça do Teatro Praga. Contexto? A passagem de Fernando Pessoa por Durban, África do Sul.

Contudo, desengane-se quem pense que os Praga se ficam pelo óbvio.  ZULULUZU não está para interpretações lineares. E não há cá histórias sobre como Fernando Pessoa chegou a África do Sul ou mais uns quantos diálogos sobre a sua passagem por lá. Há uma desmistificação de clichés com o recurso ao teatro.

E mais uma vez, não se servem do conceito na sua interpretação mais direta para chegaram ao busílis da questão. Aqui o teatro é a “caixa preta”, ou melhor, o palco, que serve de armadura a esta peça. O teatro da caixa preta começou a ser muito utilizado a partir dos anos de 1960 para destacar os atores em palco, mas o Teatro Praga vai sublinhar outras questões.

Uma luta contra a caixa preta

Tudo começa com uma discussão (em francês) com uma parede, a parede preta e limitada do palco. Surge de seguida André e.Teodósio com o já seu sempre sarcástico e socialmente crítico monólogo (Quem se lembra dele em Tropa Fandanga?), desta vez em confronto com a “puta normativa” da caixa preta, como uma espanhola de buço, interpretada por Joana Barrios, a define. Sendo que se falarmos de quem afrontou de forma mais intensa a referida caixa, apontamos o dedo a Cláudia Jardim, também muito semelhante ao registo de Tropa Fandanga.

Mais que uma caixa preta, repleta de fios eléctricos e atores de vez em quando, este palco é uma metáfora do preconceito e do politicamente correcto. É assim porque assim se definiu. Daí a discussão. Um dos momentos mais simbólicos, acaba por ser, no escuro, a entrada da única “atora” (como é referido o elenco) preta, que comparativamente à branca, não se vê.

A luta das "atoras" durante o espetáculo é contra a "caixa negra". Foto: Alipio Padilha
A luta das “atoras” durante o espetáculo é contra a “caixa negra”. Foto: Alipio Padilha

Mas a dinâmica dos Praga em palco faz-se sempre a uma velocidade alucinante em que nem deixam arrefecer as ofensas à “pobre” caixa negra já está Pedro Zegre Penim e Diogo Bento, em registo talk show, a definir a palavra ZULULUZU. Basicamente, a expressão pode ser dividida em duas partes: ZULU, da cultura sul-africana, e LUZU, da cultura portuguesa. E aparecem os estandartes com vítimas, activistas, mártires, … de ZULULUZUs. Entre muitas personalidades, Peter Singer é ZULULUZU. Gandhi é ZULULUZU. Até Leonardo Di Caprio e Kesha são ZULULUZU. ZULULUZU são todos os que ultrapassaram a barreira do socialmente instituído e inovaram, mesmo que algumas das personalidades sejam referidas de forma irónica.

Uma peça com Pessoa e não sobre o poeta

Esta é uma peça despida de preconceitos e na maior referência feita a Fernando Pessoa, este veste-se no feminino. Outro dos momentos mais críticos e representativos é a explicação num inglês “colonial” propositado de Pedro Zegre Penim ao que é fazer uma peça em África.

Depois de Tropa Fandanga (numa referência à revista portuguesa), os Praga voltam em potência e a desconstruir com graça. (Ao longo da peça são sempre muitos os risos dos espectadores).

Pessoa ficou por representar? É preciso dizer algum dos seus poemas para o evocar? Não. Era tão múltiplo e de variadas interpretações, que o jogo que a companhia faz com o conceito queer ou do pré-definido condiz com o poeta.

Já vai sendo constante, mas se fosse necessário destacar algum dos atores seria impossível. Os Praga representam pelo colectivo. Arrisco-me mesmo a dizer que estão entre os melhores no teatro nacional pelo nível da interpretação e dos temas discutidos. Foram ZULULUZU, depois de já terem passado pelo 20.º Ístanbul Tiyatro Festivali (Festival de Teatro de Istambul), por Paris (Théâtre de la Ville) ou São Paulo (Festival Mirada). Venha mais teatro desde com ou sem caixa negra.

Ficha Técnica

Texto e direção: Pedro Zegre Penim, José Maria Vieira Mendes e André e. Teodósio; Interpretação: André e. Teodósio, Cláudia Jardim, Diogo Bento, Jenny Larrue, Joana Barrios, Maryne Lanaro, Gonçalo Pereira Valves, Pedro Zegre Penim; Cenografia: João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira;

Figurinos: Joana Barrios; (o figurino de André e. Teodósio na cena da Nympha Negra é da autoria de Mariana Sá Nogueira e gentilmente cedido pelo Teatro Cão Solteiro);

Mestre costureira: Rosário Balbi;

Música original: Xinobi;

Luz: Daniel Worm d’Assumpção;

A peça está até dia 25 de setembro no São Luiz Teatro Municipal, de quarta a sábado, às 21h, e no domingo, às 17h30.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
A Viagem dos Cem Passos
Guia TV: As melhores séries e filmes de 30 de março a 5 de abril