FARCUME (Festival de Curtas-Metragens de Faro) é um ponto de encontro para muitas personalidades ligadas ao cinema e às artes. João de Brito, ator, encenador e membro fundador do Laboratório de Artes e Media do Algarve (LAMA), é natural de Faro e falou com o Espalha-Factos sobre o seu percurso e o estado atual da sua profissão.

Espalha-Factos: De onde é que surgiu o teu desejo de representar?

João de Brito: Foi um acaso. Na altura andava na Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, e decidi que queria experimentar teatro. Há pessoas que vão para o judo, futebol, basquete, karaté… Eu achei que devia experimentar fazer teatro. Sempre fui um gajo espontâneo, dizia parvoíces, tinha algum sentido de humor, então decidi experimentar. E como fiquei a repetir matemática no 12ºano, fiz algumas melhorias e fui bater à porta do grupo de teatro lá da escola, o Improviso. A professora Teresa Henriques recebeu-me e aceitou-me no grupo. Integrei-me e fiz uma peça chamada Se Tu Me Amasses, no IPJ. Houve ainda uma mostra na Póvoa de Varzim na qual não estive presente porque fui estudar economia para Évora. Só que enquanto lá estive fui fazer vários workshops de teatro em Lisboa, olhei para mim e decidi mudar-me para lá.

EF: O teu percurso começou na Tomás Cabreira, escola hoje reconhecida pelo trabalho que desenvolve não só no curso de Artes do Espetáculo como também no grupo de teatro Improviso. Sentes-te como um porta-estandarte da formação oferecida na escola?

JdB: Porta-estandarte não será bem o termo, mas sinto-me com responsabilidade. A relação com a professora Teresa Henriques e com a professora Teresa Coutinho continuou e elas estão sempre a divulgar o meu trabalho e têm orgulho no que tenho feito. Não quero descurar essa confiança. Orgulho-me de ter passado pelo Improviso e sinto-me com alguma responsabilidade pela forma como elas falam do meu trabalho aos miúdos. Mas não sou só eu. Há o Tiago Cadete que tem um percurso incrível. Foi meu colega no conservatório e passou no Improviso antes de mim. Há a Sara Santos que enveredou mais pela televisão mas também tem o seu percurso. Eu não sou o exemplo, mas é normal que possa ser uma pequena referência para os alunos que lá passam. Sempre que posso tento trabalhar com eles. Já dei aulas ao curso de Artes do Espetáculo a convite da professora Teresa Henriques. É sempre bom voltar a casa e ensinar algumas das coisas que tenho aprendido no meu percurso.

12316193_49fasfasfa6039350578157_3538056225158200077_n

EF: Tendo seguido estudos em Lisboa, no Conservatório, quais foram as principais diferenças com que te deparaste: tanto na formação como no trabalho?

JdB: Fazendo a ponte, no Improviso era uma aprendizagem inicial, tens as abordagens iniciais ao teatro. Se bem que em todos os projetos acabas por voltar às bases, porque o teatro vive, a meu ver, da simplicidade e do jogo. O teatro é brincar, é jogar. Aquela aprendizagem inicial é importante mas não deixa de ser inicial. Não deixa de ser trabalhar com miúdos que estão no secundário, miúdos que não sabem o que vão fazer da vida. É bom para a vida de qualquer pessoa. A escuta, a atenção, o espírito de grupo, a noção de espaço e a noção de tempo são coisas importantes para vida, não só para o teatro. No conservatório já entras noutro campo. Começas a abordar um percurso pré-profissional quer com a abordagem aos clássicos, as criações de raíz, a performance, etc. Tentam dar-te uma paleta de ferramentas para que possas chegar a um trabalho profissional e as possas pôr em prática da melhor forma possível. Pode ter muitos defeitos, mas também tem coisas boas. Mas onde tu aprendes realmente é nas tábuas. Já dizem os antigos, mas é verdade. Trabalhares, errares e fazeres é que te vai limando como ator. E dentro disso todas as experiências são boas: até as más. Na altura são dolorosas mas depois fazem-te aprender como o caraças. E podes por como o caraças. (risos)

EF: De que forma o público do teatro algarvio é diferente de, por exemplo, o lisboeta?

JdB: O público algarvio tem fama de ser um bocado casmurro e já tive colegas meus em Lisboa a dizerem-me precisamente isso. Mas eu não o vejo dessa forma. É um público difícil sim, porque durante muitos anos não teve assim tanta oferta ou não procurou a oferta. Para já nunca teve tanta oferta como Lisboa, obviamente. Mas se calhar também não procurou, porque também tens de criar públicos. Estuda-se nas faculdades como criar públicos e em Faro nunca foi criado nem estimulado um público porque não havia companhias de teatro suficientes ou associações que fizessem coisas com regularidade. Faro em 2001 nos censos tinha 58 mil habitantes, em 2011 tinha 64 mil. O Algarve cresceu bastante nos últimos anos. A oferta e os apoios para as companhias, para as associações e para as bandas não se compara. E se esse trabalho de públicos não for feito, acaba por se refletir. As pessoas não estão habituadas. Querem muito mais uma narrativa linear, algo que seja de fácil compreensão. O teatro em que eu acredito faz pensar. O público pode até nem ter percebido tudo, mas vai para casa refletir. Ainda que já comece a mudar, quando apresentas algo desse género cá no Algarve dizem sempre: “Ah, lá vem ele com as peças intelectuais! Coisas para o umbigo e não sei quê!” Mas felizmente já começa a ser quebrada essa barreira. Estão a haver mais espetáculos, só em Faro tens o CAPa, tens o teatro das Figuras, tens o teatro Lethes a funcionar, tens a Associação de Músicos, os Artistas, já tens uma série de sítios com algumas programações diferentes. Tens uma oferta maior que as pessoas podem ter acesso e ganhar o espirito crítico, que é o que se quer.

10382382_7133sfasfa98662056830_1892144979823731609_o

EF: Como foi o teu salto dos palcos para televisão e mais tarde para cinema?

JdB: A minha entrada no teatro foi feita pelo grupo de teatro Improviso, depois ainda fui para a Moderna para um curso de formação de atores do Tó Zé Martinho. Era de 3 anos mas só fiz um porque não gostei do curso, era mais vocacionado para televisão que não era o que eu procurava na altura, nada contra a televisão. Depois fui convidado em 2005 pelo meu amigo Luís Zagallo para fazer uma peça dele. Foi a peça na qual me estreei e na qual já me podia considerar profissional. Fiz O Gato do Henrique Santana em digressão e depois fui para InImpetus, que é um curso de formação de atores, também de um ano em Lisboa. E assim que entro na InImpetus faço um casting para O Diário de Sofia da RTP2 e fico no elenco fixo. Faço um casting para publicidade, fico também. Foi tudo em simultâneo. Quando acabo a InImpetus concorri para o Conservatório e entrei à primeira. Fiz o processo um bocado ao contrário, achei que não tinha ferramentas suficientes para ir logo para o conservatório então andei a estudar antes. O cinema já vem depois. Como o conservatório é de teatro e cinema há ali a ligação e comecei a fazer curtas com alguns alunos da ESTC.

14183773_11fsf81274768602548_2594013091511697841_n

EF: Tens sentido um crescimento na produção e, consequentemente, no número de oportunidades para atores no cinema português nos últimos anos?

JdB: Nem por isso. Há muito pouca produção cinematográfica financiada. Há sim mais pessoas a fazer filmes independentes com muita qualidade, mas mais pela vontade e um certo grau de maluquice, porque sem budget é dureza. É um limbo complicado porque, como se fazem poucos filmes, há uma tendência natural para trabalharem com os mesmos atores, os do círculo mais próximo. E não há mal nenhum nisso. As oportunidades são escassas, mas ainda vão aparecendo. Só acho absurdo quando vejo jovens realizadores a dizerem que gostam é de trabalhar com não-atores, porque os atores têm vícios. Será que os atores antes de serem atores não são pessoas? São opções, mas esta não concordo. Devia haver forma de financiar mais projetos cinematográficos e só assim talvez houvesse mais oportunidades para todos os envolvidos.

EF: Com que realizadores e atores ainda não trabalhaste que gostavas de trabalhar?

JdB: Ui! Gostava de ressuscitar alguns como o Fellini, o Kubrick, o Cassavetes e o João César Monteiro. Quanto ao reino dos vivos, gostava de me cruzar com o Tarantino, Woody Allen, Milos Forman, e os portugueses João Botelho, João Canijo, Edgar Pêra e Marco Martins. Já tive a sorte de me cruzar com muitos atores e atrizes de que gosto. Cruzei-me com o Miguel Borges e o Pedro Gil, no espetáculo A Morte de Danton, mas não contracenava diretamente com eles. São dois dos que admiro muito e com os quais gostava de trabalhar. Sou apaixonado pelo que faço e tenho uma panca grande, que é saber o nome de praticamente todos os atores, principalmente os que fazem mais teatro. Voltando aos nomes, é difícil nomear todos… Há o Albano Jerónimo, o Tónan Quito, Miguel Seabra, e no lado feminino, a tia Eunice (Muñoz) é inevitável, a Carla Maciel, a Carla Galvão, a Luísa Cruz, a Maria João Luís, a Maria José Pascoal, a Teresa Sobral, a Margarida Carpinteiro, a Cucha e há muitas mais.

EF: Quando te apresentam um argumento o que procuras nele para decidir se o aceitas ou não?

JdB: É fundamental gostar do texto e da visão do realizador sobre o objeto artístico, se é desafiante. Com a idade vais deixando de aceitar só por aceitar, tornas-te mais seletivo, não por vaidade, mas para não te estourares todo. Se a equipa for lesta de processos é ótimo, não gosto de pacholice.

13728896_gdsg1150604178336274_3885008028839200598_n

EF: Uma carreira no estrangeiro era algo que verias com bons olhos?

JdB: Quero ser ator em Portugal. É claro, que se surgisse um convite pensava duas vezes, mas ser eu a procurar não está nos meus planos. Há sempre a barreira linguística, vais ser sempre o estrangeiro se não dominares perfeitamente a língua e o sotaque. Lembro-me sempre duma entrevista que li da Beatriz Batarda que dizia que se continuasse em Londres seria sempre a empregada e nunca faria os grandes papéis. Nasci aqui e quero ser e fazer aqui.

EF: Tens alguns objetivos profissionais para os quais estejas a apontar?

JdB: Quero pôr de pé duas criações, o Leôncio e Lena do Buchner, que irei encenar e que estreia ainda em 2016, e o projeto Carripana, co-criado com a minha querida Manuela Pedroso que estreia em março de 2017. Gostava de ver um projecto do LAMA no Teatro Nacional. Gostava de fazer uma longa-metragem e uma novela, mas do princípio ao fim. A novela é uma espécie de maratona, é duro e gostava de ter essa experiência. Costumo dizer que a novela é a nova Revista, pela capacidade de estar on e off num ápice, pelas constantes mudanças de figurino, pela constante atualização do que acontece no mundo e pelo arcaboiço físico para aguentar o ritmo.