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MOTELX’16: entre o drama e o slasher

O final de semana trouxe ao cinema São Jorge uma enchente apenas superada pela do primeiro dia. Mesmo com o atraso superior a meia hora nas sessões da sala 3, ninguém arredou pé e as filas continuaram a crescer. Felizmente, suspeitamos que os fãs do terror não se terão arrependido da espera. É que o quarto dia de MOTELX foi inteiramente dedicado aos sustos, no sentido mais literal da palavra.

O Espalha-Factos não quis faltar ao espectáculo e marcou presença na projecção do checo The Noonday Witch, em concurso pelo Prémio Melhor Longa-Metragem, e do americano February, da secção Serviço de Quarto. Logo dois filmes que têm tanto para nos dizer.

 

The Noonday Witch – 7/10

O que é que existe em The Noonday Witch que falta em tantos outros filmes de terror da nossa era? Este é o nosso palpite: cérebro e coração. É que este pequeno, belo segredo do terror europeu não se evade à sua missão de assustar, mas também não se esquece que às vezes os piores sustos são aqueles que damos a nós próprios.

O ponto de partida da história é trágico e o desenlace augura-se pior. Depois do suicídio do marido, Eliska decide mudar-se com a filha Anetka para a sua pequena aldeia-natal, numa tentativa de manter viva a sua memória. Mas Eliska não contou a Anetka razão por detrás da ausência prolongada do pai e mente de rosto fechado perante as suas perguntas insistentes.

The Noonday Witch triunfa ao deixar-nos com a sensação de que, por mais sinistra que pareça a ameaça que ronda o lar desta família desfalcada e debilitada, o principal foco de inquietação nunca deixam de ser as dificuldades da relação entre mãe e filha. É que Eliska é uma verdadeira bomba-relógio. O luto que a consome lentamente e a dor silenciosa que assombra o seu rosto tornam-na numa presença tão nociva para Anetka como a suposta bruxa local que lhe sussurra palavras enigmáticas ao ouvido.

É que esta sinistra senhora vestida de preto, conhecida na aldeia por ter morto o próprio filho e ter posteriormente enlouquecido, bem como a criatura aterrorizante que figura nos seus desenhos, não são mais do que um símbolo para o verdadeiro monstro desta história: a depressão. É que, tendo em conta o Sol brilhante que nunca se esconde nesta aldeia, o amarelo dos campos de trigo que traz alegria ao cenário envolvente e a selecção de personagens com defeitos, mas essencialmente bondosas e honestas que rodeiam a recém-chegada família, difícil é considerar hostil o lugar escolhido por estas personagens para recomeçar a sua vida. A verdadeira ameaça vem de dentro.

O pior mal de que The Noonday Witch padece é um clímax insatisfatório. A conclusão é poética e repleta de significado, mas o build-up que o antecede não é suficientemente intenso para o desfecho final ter o impacto desejado. Nada que não o impeça de se posicionar como um dos grandes candidatos ao Prémio Melhor Longa-Metragrem Méliès D’Argent.

 

February – 6.5/10

Há fórmulas no terror que são ganhadoras à partida: o slasher protagonizado por adolescentes inconscientes é uma delas. February insere-se nesta categoria, mas distingue-se por alguns dos truques que traz na manga.

Contada linearmente, a história segue duas raparigas de um colégio privada cujos pais não apareceram nas férias de Natal para as levar para casa. Enquanto Rose se debate com uma possível gravidez indesejada, Katherine tem pesadelos que lhe dizem que os pais não vão voltar mais, porque faleceram num acidente de carro. Em simultâneo, são consumidas pelos rumores de rituais de adoração ao demónio supostamente praticados por freiras na cave da escola.

February leva algum tempo até ficar sangrento e é apenas na segunda parte que percebemos verdadeiramente onde o filme está a tentar chegar. É que o enredo está estruturado em capítulos que seguem individualmente cada uma das personagens, com os fios de narrativa a unirem-se no desenlace final. É esta forma de encadear os acontecimentos que prende a atenção do espectador e o mantém colado ao ecrã até ao último minuto. Ao subverter a estrutura tradicional da narrativa, com direito a investimento personalizado na dimensão psicologica de cada personagem, o filme não perde o interesse e nunca deixa de apelar à nossa curiosidade.

Porém, como não podia deixar de ser num filme que se insere na categoria em causa, February não evita os lugares-comuns habituais. Na verdade, nem se propõe a isso. Utiliza os mesmos artifícios de qualquer slasher da nossa era. Sangue, sustos e ingenuidade de personagens que já têm idade suficiente para tomar decisões mais sensatas.

Em suma, February é uma boa aposta para os amantes do slasher, principalmente no que diz respeito à criatividade narrativa, mas que não apresenta argumentos suficientes para seduzir o público em geral ou trazer algo de verdadeiramente novo ao género.

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