thebeast4-1600x900-c-default

MOTELX’16: o dia do erótico e do absurdo

E ao terceiro dia, o MOTELX saltou fora da caixa. Destemido e provocador, o festival dos gritos mostrou ontem que não tem receio de arriscar ao apresentar-se com uma seleção de filmes que dividiram opiniões nas salas do cinema São Jorge.

O Espalha-Factos teve oportunidade de estar presente na projeção de We Are the Flesh, longa-metragem mexicana que levou muitos a suspirar de impaciência e até a abandonar a sala a meio da sessão, mas que também conseguiu prender a curiosidade e a atenção intelectual de alguns espectadores mais resilientes. Não menos polarizante foi o filme que se seguiu, o francês The Beast, realizado pelo polaco Walerian Borowczyk (1923-2006), o grande homenageado desta edição do festival. Villmark Asylum, em concurso para o Prémio Melhor Longa-Metragem, trouxe-nos de volta, por seu lado, ao terror convencional, e encheu os mais de oitocentos lugares da sala Manoel de Oliveira.

 

We Are The Flesh – 5/10

we_are_the_flesh_maria-evoli_1050_591_81_s_c1Ora aqui está um filme que não é para todos os gostos. We Are The Flesh deixa-nos desconfortáveis na nossa própria pele ao representar sem pudor tudo aquilo que a mente humana recalca no seio da vida comunitária e civilizada. Primeiro trabalho do realizador mexicano Emiliano Rocha Minter, a trama passa-se na sua totalidade num edifício decadente, habitado por um homem repulsivo que acolhe dois irmãos sem-abrigo, aproveitando para lhes transmitir a sua heterodoxa filosofia de vida e conduzi-los aos atos mais sórdidos e macabros.

Este mestre da manipulação cujo nome nunca é revelado (e que é interpretado por Noe Hernandez) funciona como a voz de Lúcifer, apregoando as tentações da carne aos ouvidos dos dois jovens indefesos e preparando até uma caverna infernal, simbolicamente semelhante ao útero materno, que servirá de cenário para o carnaval de obscenidades que está a planear. E Hernandez é mesmo o grande trunfo do filme, transtornando com o seu olhar demente e sorriso afetado, repugnante mas estranhamente carismático.

Visceral e subversivo, We Are the Flesh, como as suas personagens, é livre de tabus. O desconforto que provoca advém dos temas que aborda gráfica e explicitamente, sem qualquer tipo de preconceito ou contenção: o incesto, a violação e o canibalismo são retratados pormenorizadamente num mundo em que a carne e os seus impulsos são celebrados como a derradeira essência da Natureza humana. Numa realidade claustrofóbica e crescentemente anárquica, as personagens entram numa espiral de loucura em que os ímpetos carnais determinam todas as sua ações e a humanidade (ou pelo menos a perspetiva social do que é a humanidade) perde todo o terreno no seu combate contra o animalesco.

A realização é artística e o filme visualmente hipnótico, com contornos abstratos que contribuem para o ambiente surreal. Contudo, a verdade é que em todo o caos absurdo que retrata e apregoa, We are the Flesh torna-se excessivo. Não é dificil compreender que o desconforto que sentimos perante as demonstrações de liberdade sexual e violência grotesca é propositado, mas o lirismo e as perguntas existenciais que coloca e que, inicialmente, beneficiavam da representação gráfica daquilo que usualmente não tem direito a ser representado, acabam por afundar-se entre orgias e carnificinas sem fim, demonstrações gratuitas de gore e pornografia. E, surpreendentemente, mais do que perturbador ou desinquietante, o filme torna-se simplesmente aborrecido.

 

The Beast – 6/10

tumblr_nq99qmbhjf1qmemvwo1_1280-1024x615Tal como We are The Flesh, The Beast também se assume como um filme erótico, mas fá-lo com charme e uma pitada de humor, ou não estivéssemos nós a falar de uma produção francesa.

Estreado em 1975, La Bête, no original, conta a história da jovem e bela Lucy, que encontra o futuro noivo num aristocrata que habita um castelo isolado numa floresta francesa. Na sua primeira estadia na sua futura casa, Lucy descobre uma lenda local de uma besta que, no século XVIII, habitaria o perímetro da propriedade, teria um apetite sexual insaciável e uma atração particular pela dona do castelo.

Saltando entre séculos, The Beast vai-se focando alternadamente entre Lucy e na sua luta com uma sexualidade reprimida e as aventuras eróticas da aristocrata setecentista com a besta em causa. É que aqui são as mulheres o grande depósito da bestialidade, e o título é talvez tanto uma referência à criatura que se esconde por entre as árvores do mato envolvente como ao lado animalesco que descobrimos em cada uma delas.

Numa sátira à rigidez das convenções sociais e da moral aristocrática e religiosa, à recusa da sensualidade e à censura do corpo feminino, Borowczyk faz uma caricatura grotesca de uma família nobre que, na sua obsessão pelas normas e pelas aparências, acaba por encontrar escapes moralmente questionáveis para as suas frustrações.

The Beast é um triunfo estético do cinema erótico, com sequências tão memoráveis como a da épica perseguição do monstro a uma mulher com pouca vontade de fugir, ao som de uma solene peça de música clássica. Porém, em termos de conteúdo, consegue ser pouco mais do que isso, alongando-se em sequências com muito para mostrar mas, a partir de certo ponto, já pouco para dizer.

 

Villmark Asylum – 6/10

villmark-web

Num dia com tantas surpresas, não se pode propriamente dizer que o norueguês Villmark Asylum seja uma delas. Sequela direta de Villmark, de 2003, o filme de Pal Oie leva-nos até um hospital psiquiátrico abandonado à beira do lago Villmark com um grupo de trabalhadores encarregues de identificarem lixo tóxico e perigoso, antes da sua demolição.

Villmark demora a arrancar, mas quando o faz, é como uma montanha russa. Com uma mitologia intrigante enraizada na Segunda Guerra Mundial, o filme alimenta o suspense tanto através do misterioso passado do hospital, cheio de segredos e histórias mal contadas, como do ambiente crescentemente tenso e cheio de sinais ominosos.

Depois de revelado o segredo por detrás dos acontecimentos estranhos que assombram o grupo recém-chegado, o ritmo acelera, a câmara estremece, as luzes fraquejam e os espaços parecem encolher-sem dando início a um verdadeiro jogo do gato e do rato, capaz de deixar o espectador de cabelos em pé. A guiar-nos por entre os longos, estreitos e húmidos corredores do hospital está Ellen Dorrit Peterson, uma das estrelas da representação na Noruega, que é igualmente protagonista de Shelley, outro dos filmes em competição. Peterson dá a protagonista ideal, com o seu olhar forte e expressão determinada, liderando as tropas e sobrevivendo às ameaças, qual Sigourney Weaver em missão de sobrevivência em Alien.

Villmark não se propõe a ser mais do que um filme de terror, mas cumpre aquilo que promete. Não faltam os sustos nem os momentos de cortar a respiração. Não conseguindo evitar muitos lugares-comuns típicos do género, também tem alguns truques eficazes na manga (nomeadamente o desenlace final), que foram merecidamente recompensados pelo público com aplausos. Com um orçamento claramente superior à maioria dos outros realizadores na corrida pelo prémio de melhor longa-metragem do festival, Oie não desperdiçou os meios colocados à sua disposição e realizou um filme que, apesar de nunca verdadeiramente estarrecedor, não falha quando chega a hora de provocar os esperados arrepios.

Mais Artigos
Nomadland
Prémios BAFTA 2021. ‘Nomadland’ dominou com várias surpresas