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MOTELX’16: o dia das inquietudes

O segundo dia de MOTELX viveu-se com mais descontração no Cinema São Jorge, mas nem por isso com menos entusiasmo. É que ontem foi dia de viajar pela Europa. O “Velho Continente” esteve fortemente representado numa noite em que os sustos e os gritos foram substituídos, em grande parte, por silêncios meditativos e uma sensação de desconforto latente.

Da Polónia chegou-nos Demon, a última longa-metragem do falecido Martin Wrona, que integra a secção Serviço de Quarto. Na corrida pelo Prémio Melhor Longa Europeia, a grande novidade deste MOTELX’16, o animador Pedro Rivera e o realizador Ali Abbasi apresentaram-nos os seus filmes Pyschonauts, the Forgotten Children e Shelley, respetivamente, com direito a sessões de perguntas e respostas no final. O Espalha-Factos esteve presente e conta como foi mais um dia na festa dos arrepios.

Demon – 6/10

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Com um título tão genérico e uma premissa inicial aparentemente tão simples, certamente eram poucos os que esperavam o que vimos no ecrã da Sala Manoel de Oliveira. A história é como tantas outras dentro género: um jovem inglês chega a uma pequena aldeia polaca para casar com uma rapariga judia e é possuído por um espírito vagueante depois de desenterrar um cadáver no quintal. É a partir daqui que o filme começa a surpreender.

O que é importante estabelecer desde já é que, de terror, Demon tem pouco. Desenrolando-se a um ritmo pachorrento e com raros – mas satisfatoriamente executados – sustos, a quase totalidade do filme é passada na cerimónia de matrimónio dos protagonistas, num casamento tão longo que faria inveja às personagens de O Padrinho ou de The Deer Hunter. É que a grande preocupação de Wrona não é a a entidade sobrenatural que resolveu vir arruinar o dia mais feliz da vida de Zaneta (Agnieszca Zulewsca). Nem sequer é o pobre Piotr (Itay Tiran), que vai lentamente desaparecendo dentro do seu corpo à medida que a alma de uma mulher atormentada o ocupa. A atividade paranormal é aqui apenas um meio através do qual se procura chegar ao coração de uma comunidade judaica ainda profundamente marcada pelas cicatrizes do Holocausto, angustiada pelo confronto entre a memória e a necessidade se seguir em frente. Estas questões tão localizadas são enquadradas no contexto de uma contenda mais universal: a que opõe a ciência à religião, a racionalidade à superstição.

É que este é um filme que se ocupa, antes de mais, das inconveniências sociais da possessão. A prioridade do pai de Zaneta não é expulsar o espírito do corpo do genro, mas sim assegurar-se de que ninguém no casamento se apercebe do que se está passar com o noivo. A verdade é que o humor é talvez o que melhor funciona neste filme que por vezes se leva muito a sério, mas que também descai com frequência para o ridículo. Numa miríade sem fim de personagens, cada uma tem a oportunidade de brilhar e arrancar algumas gargalhadas.

O grande problema de Demon é que acaba por fugir ao controlo e entrar no domínio absurdo. Com o início do último ato, esperamos uma sequência de eventos que nos indique um desenlace próximo, mas a verdade é que tudo se vai apenas tornando crescentemente caótico à medida que a história vai ganhando mais contornos abstratos, que anulam por completo tudo aquilo que ao início o filme parecia prometer. E uma longa-metragem com tanto para dizer, acaba por se tornar confusa e algo saturante.

 

Psychonauts, the Forgotten Children – 8/10

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Há filmes que nos assombram não pelos sustos ou pelo choque que provocam, mas simplesmente pela forma como contam uma história. Desengane-se quem pensa que Psychonauts, por ser animado, é um filme para crianças. Este pode bem ser um dos trabalhos mais sérios da presente edição do MOTELX e um candidato forte ao Prémio Melhor Longa-Metragem Europeia.

Baseado na banda-desenhada homónima, Psychonauts conduz-nos até uma realidade distópica e pós-apocalíptica em que adoráveis animais humanoides se debatem com a miséria, a opressão e a falta de esperança. Depois de um desastre ambiental que matou grande parte da população da ilha que habitam e arruinou a vida dos que sobreviveram para contar (como vimos acontecer na curta de 2012 que precede esta história, Birdboy), estas criaturas frágeis e puras viram-se engolidas por um mundo padronizado em que se tomam comprimidos para a felicidade. Decididos a fugir, Dinky, Birdboy, Zorrit e Sandra ingressam numa aventura por terrenos pouco mais animadores do que a sua ilha-natal, nomeadamente a lixeira da cidade.

Psychonauts é violento e destemidamente cruel, ainda que graficamente lindíssimo. Em toda a sua inocência, estes “peluches” falantes lidam com temas tão sérios como a depressão, a toxicodependência, a marginalidade, o preconceito, o fanatismo religioso ou a degradação ambiental. Ainda assim, encontra espaço para as gargalhadas. Cáusticas e amargas, é certo, mas por essa mesma razão mais valiosas.

Este é um filme com um coração enorme, em que a sensibilidade e a delicadeza convivem com a dureza e a brutalidade de uma realidade difícil. Abordando temas universalmente relevantes, muitos deles intemporais, outros tipicamente modernos, Psychonauts fecha com uma mensagem de esperança, mas deixa-nos com um peso incomensurável no peito.

 

Shelley– 6/10

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Shelley não é o primeiro filme sobre uma gravidez demoníaca e certamente não será o último. A diferença é que, ao contrário da maioria, não poderá ser propriamente apelidado de “terror”. O próprio realizador Abis Abbasi confessou que não é grande fã do género.

O filme conta a história de uma jovem romena (Cosmina Stratan) que vai trabalhar para a habitação de um casal dinamarquês, que vive isolado numa floresta, sem água canalizada ou eletricidade (como não poderia deixar de ser), numa tentativa de fugir aos hábitos nefastos da vida moderna. A história arranca verdadeiramente quando Louise (Ellen Dorrit Petersen), a frágil patroa de Elena, lhe pede para servir de depósito aos óvulos que congelou depois de descobrir que o seu corpo não a permite ter filhos. A precisar desesperadamente de dinheiro, Elena aceita a proposta, completamente inconsciente do martírio que a espera.

Este é mais um filme que evita os jump scares e se preocupa antes em construir, manter e intensificar uma atmosfera de tensão que, à medida que a gravidez de Elena se arrasta, nos vai lentamente consumindo. A ameaça paira e é inescapável. A jovem romena está tão presa àquela residência solitária no meio da Natureza como ao bebé que tem no ventre, e parece caminhar inexoravelmente para a tragédia.

A influência de Rosemary’s Baby é evidente, principalmente na forma como gere a angústia e nos deixa crescentemente desconfortáveis e perturbados. A sensação de encurralamento vai-se tornando cada vez mais sufocante num filme que conta com alguns momentos regados a sangue mas que nunca explode verdadeiramente. Talvez seja essa a razão pela qual Shelley não nos satisfaz na totalidade. Apesar do desenlace final, esperamos algo que nunca chega a acontecer. Resta-nos refletir acerca do que Abbasi nos estava a tentar dizer.

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