Screen-Shot-2016-03-15-at-12

MOTELX’16: casa cheia na abertura

Foi dia de festa e ninguém quis faltar. O décimo aniversário do MOTELX foi celebrado com pompa e circunstância numa noite de abertura em que não faltou o bolo nem o champanhe… e claro, os sustos. No arranque da décima edição do festival que tem por missão apavorar a capital, as sessões esgotaram e o Cinema São Jorge vestiu-se de gala para dar uma vez mais as boas-vindas a um público tipicamente heterogéneo que tomou o gosto aos arrepios.

O Espalha-Factos esteve presente na sessão de abertura e assistiu a Don’t Breathe, do uruguaio Fede Alvarez, integrado na secção Serviço de Quarto. Apresentado em palco como “o filme que destronou Suicide Squad nas bilheteiras dos Estados Unidos”, Don’t Breathe chegou à Sala Manoel de Oliveira sobrecarregado pelo peso da expectativa, numa noite em que foi claramente o centro de todas as atenções.

Don’t Breathe: 7/10

O mais recente trabalho de Fede Alvarez não vem propriamente revolucionar o género do terror e tem até alguns ecos de familiaridade. Ainda assim, o realizador uruguaio responde com mestria àquele que será talvez um dos grandes desafios de quem trabalha com a matéria-prima do terror: assustar e surpreender um público que, como o do MOTELX, está habituado a prever e identificar os artifícios da arte de produzir sustos e que, como tal, se torna por vezes imune à bactéria do medo. É que, no momento de introduzir e gerir a tensão, Alvarez raramente fraqueja.

Em Don’t Breathe ninguém é inocente. Mas uns são mais inocentes do que outros, como os minutos iniciais nos tentam ensinar ao apresentar-nos os protagonistas. Rocky (Jane Lefty), Alex (Dylan Minnette) e Money (Daniel Zovatto) formam um trio de assaltantes cuidadosos e relativamente inofensivos que decidem assaltar a casa de um veterano de guerra que perdeu a visão em combate e que terá guardada uma pequena fortuna no seu “forte”. O carácter de cada uma das personagens é estabelecido pelas suas motivações para colocarem em prática o crime. Contudo, rapidamente percebemos que o maior vilão é afinal a vítima.

O drama humano que marca a abertura do filme acaba por consistir numa série de lugares-comuns usados para granjear a simpatia do espectador pelas personagens. O objetivo cumpre-se, mas este não é definitivamente o seu ponto forte e Don’t Breathe não perde demasiado tempo a ser melodramático. Parece tão ansioso como o público por trancar-se dentro de casa com o vilão psicopata.

E é aqui que Alvarez triunfa. Enclausurando o trio de assaltantes no mesmo espaço que um predador cego mas de sentidos imperdoavelmente apurados, o cineasta não tem receio de explorar ao máximo as possibilidades dessa decisão. Aqui, o perigo está nos detalhes. O som de cada passo hesitante, cada soluço abafado ou ranger discreto da madeira é maximizado e torna-se ensurdecedor. Ruídos e silêncios são sentenças de morte. Os travellings pelos corredores estreitos da casa, suja e deteriorada, contribuem para o ambiente de claustrofobia, que se intensifica quando descemos à cave ou subimos às condutas de ar. No escuro e no silêncio da sala de cinema, tememos que o bater dos corações nos denuncie. Nem respiramos.

Quando nos parece que se tornou finalmente impossível continuar a fugir às garras da morte, twists inesperados (ou não tanto) trazem as personagens de volta ao jogo, por meio daquelas improbabilidades do mundo real que são tão prováveis nos filmes de terror e que arrancaram até algumas gargalhadas e sorrisos cúmplices entre o público.

O monstro sem-nome é rápido, astuto e implacável e encontra em Stephen Lang uma presença física poderosa e intimidante, bem como a expressão amargurada de um homem cuja deficiência física estabelece correspondência simbólica com a cegueira deixada pelas torturas do sofrimento psicológico.

Intenso e sufocante, Don’t Breathe conseguiu por momentos congelar a Sala Manoel de Oliveira, naquele que foi um dos dias mais quentes do ano. O mote foi lançado, a fasquia está elevada. Esta semana, a noite em Lisboa promete ser longa.

Mais Artigos
Facebook
Já podes procurar o amor no Facebook. Serviço de encontros chegou a Portugal