O FARCUME (Festival de Curtas-Metragens de Faro) voltou a abrir as portas no final de um quente verão algarvio. Entre conversas e copos cheios de frescura, as curtas-metragens foram enchendo uma das maiores telas do país. Luto Branco foi uma delas. Ainda sem saber que viria a obter uma Menção Honrosa do júri do festival, Frederico Ferreira esteve à conversa com o Espalha-Factos sobre a sua obra e processos criativos.

Espalha-Factos: O Luto Branco foi a tua primeira curta-metragem enquanto realizador mas não como argumentista. Essa foi a Remissão Completa. De que forma surgiu e se desenvolveu o teu trabalho nesse projeto?

Frederico Ferreira: O Remissão Completa foi um projeto desenvolvido de raiz com o realizador Carlos Melim que me desafiou a escrever o argumento. Foi a minha primeira experiência com escrita cinematográfica por isso a experiência dele, e posteriormente a dos atores José Mata e Afonso Lagarto, foi fundamental no processo de limar as arestas do texto original. O filme teve mais sucesso do que aquilo que prevíamos inicialmente: esteve no FARCUME, esteve no Short Film Corner em Cannes e foi considerada uma das 10 melhores curtas do ano pelo CinEuphoria.

EF: De que forma o teu envolvimento na Remissão Completa contribuiu para o Luto Branco?

FF: Primeiro, ser capaz de a partir de uma ideia original e torna-la num conceito filmável. Segundo, toda a logística inerente à produção. E uma vez que foi a primeira vez que trabalhei com o José Mata, percebi de que forma é que ele entende um argumento e trabalha uma personagem. Partimos para o Luto Branco com um conhecimento mútuo maior.

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Remissão Completa – Teaser from creart on Vimeo.

EF: Reconheces a influência de algum dos teus realizadores/escritores favoritos no teu trabalho?

FF: Em primeiro lugar, entendo-me mais como um autor e não um realizador. Sendo que escrevo e leio maioritariamente poesia, obviamente que, quer queira quer não, existe uma influência inata dos autores que mais admiro. Agora que realizei este projeto, e espero poder vir a realizar mais, começarão a surgir influencias cinematográficas mais ou menos conscientes.

EF: Nesse caso, que autor lias na altura em que escrevias o guião?

FF: Nessa altura estava a ler um livro do David Mourão Ferreira. Não sei se identifico um paralelismo entre o que escrevi e o que estava a ler, mas senti sim uma grande ajuda ao ouvir poesia. Posso dar como exemplo, um álbum que me marcou bastante, Do Amor e dos Dias do Camané, que é dos álbuns que tem melhor registo poético. Ajudou-me na medida em que a poesia, dita ou cantada, tinha uma forma mais próxima daquela que eu queria colocar no filme. Toda a sonoridade que absorvi nesses poemas, neste caso em fado, ajudaram-me a ter uma ideia daquele que podia ser o impacto do texto ao ser dito.

EF: Nesse caso, o que é que surgiu primeiro: o poema ou a narrativa?

FF: O poema. A conceção foi feita em conjunto com o João de Brito, com o José Mata, com o João Dantas e, posteriormente, com a Diana Nicolau. Numa conversa ao jantar resolvemos fazer uma curta-metragem juntos. Eu já tinha escrito o texto, Luto Branco, que foi a base para o argumento. A narrativa foi desenvolvida depois. Tendo como base histórias reais, que fomos misturando com ficção, encaixando-se umas nas outras. Tivemos como fio condutor as diferentes abordagens à perda de alguém, que não fosse por morte. Portanto, a partir de um poema, nós entendemos que seria um bom desafio escrevermos mais poesia e uma narrativa de suporte. Achei desde o início que tudo devia girar à volta do texto poético. Na altura foi um desafio maior, mas acabou por fazer sentido.

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EF: Sente-se que Luto é um filme pessoal. Há muito nele de experiências pessoais?

FF: É um filme pessoal, mas não autobiográfico do autor. É autobiográfico de todos os que participaram na sua conceção. Poderá ser, não querendo parecer pretensioso, autobiográfico para todos os espectadores. O tema da perda é comum a qualquer pessoa adulta. Falamos aqui de uma perda particular: a perda de uma relação. Esse processo de luto, ao qual chamámos luto branco, já todos passámos por ele. Fomos limando as tais arestas, juntando contributos pessoais de todos, não só enquanto agentes ativos, mas também observadores daquilo que achamos ser o fenómeno da perda. E nessas contribuições acho que validámos o argumento, porque quando se ficciona demais corre-se o risco de poder afastar a história da sua tangibilidade.

EF: O José Mata tem tido muito sucesso com os seus últimos projetos, estando inclusivamente nomeado para o prémio de Melhor Ator na gala anual do Shortcutz Viseu pelo trabalho que desenvolveu no teu filme. De que forma o input dele fez o protagonista evoluir?

FF: Honra-me bastante essa nomeação e todas as outras, não pela questão mais fútil que possa vir associada às nomeações e aos prémios, mas pelo reconhecimento do nosso trabalho. O José no último ano tem ganho em cinema tudo o que havia para ganhar, e para mim de forma completamente justa! Fico muito feliz enquanto amigo dele, porque sei o quanto ele trabalha. Os seus projetos nos últimos tempos têm-no feito crescer muito enquanto ator e, obviamente, que o contributo dele para a personagem foi enorme: quer durante o processo de construção de guião, quer nas gravações de voz-off e nas filmagens. Espero ter-lhe dado toda a liberdade que ele merecia para desenvolver a personagem. (Risos)

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EF: Fala-nos da personagem Lisboa.

FF: Lisboa surge, em primeira instância, porque vivemos todos lá. (risos) Não havendo outros suportes logísticos, tivemos que nos cingir à proximidade da nossa residência para filmar. Acabou por ser bom porque quando andámos em repérage não partimos do zero. Já conhecíamos os locais: uns melhor, outros pior. Acabaram por surgir muitas negas a pedidos de autorização para filmar, as quais eu agradeço, porque os locais que ficaram definitivos foram melhores do que os que tínhamos inicialmente. Entendo que a estética que existe na própria cidade é muito poética, sendo que o preto e branco foi uma escolha feita para que a cidade falasse a mesma linguagem que as personagens. É uma cidade que tem uma oferta muito grande na zona onde filmámos, oriental, e também na margem sul. Em todo o caso, eu gostava de filmar na minha terra que é Coruche e espero conseguir fazê-lo em breve. Tem muita poesia e muita prosa para dar.

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EF: O Luto Branco está nomeado, não só para o prémio de Melhor Ator do José, como também para o de Melhor Argumento e Melhor Curta. Como encaras este sucesso e como é que ele afeta o teu futuro na indústria do cinema?

FF: Fico muito contente que as nossas primeiras nomeações ocorram na rede Shortcutz, neste caso particular em Viseu. Vejo o Shortcutz como um projeto fulcral para autores que têm menos capacidade de dar visibilidade às suas obras, porque tem, na sua maioria, muita qualidade no critério de seleção e está muito bem organizado na sua rede. No caso particular de Viseu, decidimos conjuntamente estrear lá. Não foi por acaso, porque temos uma admiração enorme pela forma devota e desinteressada com que eles sabem organizar e receber e fazer sentir especiais os autores. É de certa forma uma espécie de retribuição por tudo aquilo que eles nos dão. Portanto se existe reconhecimento deles, organizadores e jurados, pelo nosso trabalho é com uma grande satisfação que recebemos essas nomeações e esperamos poder retribuir no futuro com novos trabalhos. Em relação ao futuro, espero ter a oportunidade de continuar a desenvolver este tipo de projetos de escrita e de cinema mas não sei o que vai acontecer. Este tipo de reconhecimento é uma boa influência e espero que nos permita continuar a fazer aquilo de que gostamos.

 

Fotografias por Mariana Silva.