D. W. Griffith é um dos nomes mais magnânimos da sétima arte. Tendo surgido na era do cinema mudo, Griffith moldou Hollywood e ajudou a desenvolver a linguagem cinematográfica que posteriores realizadores continuariam a utilizar.

Esta é uma figura de grande controvérsia devido a O Nascimento de Uma Nação (1915), uma história acerca da guerra civil Americana e das suas consequências, que ficou marcada pelo seu conteúdo racista que apresenta os Ku Klux Klan como heróis. Por outro lado, o seu O Lírio Quebrado (1919) apresenta um dos primeiros romances inter-raciais do cinema.

Numa filmografia tão densa e composta por mais de 450 filmes (contando com curtas e longas-metragens), o seu maior feito provavelmente foi Intolerância (1916). Esta obra juntou narrativas de diferentes épocas e fez uso de uma edição revolucionária. É devido a Intolerância fazer um século de existência no dia 5 de setembro, que o 5 desta semana decidiu dedicar-se às 5 formas como D. W. Griffith revolucionou o cinema.

Desenvolvimento da montagem

Margaret Booth, editora de muitos dos filmes de Griffith.

Algo a ter em conta no que toca à carreira de Griffith é o facto de ele não ter inventado as técnicas fílmicas que lhe são associadas. O que fez foi pegar no que outros tinham feito previamente e melhorá-lo. Este facto torna-se óbvio no seu uso da montagem.

Cineastas anteriores já tinham brincado com a montagem antes, mas esta era geralmente usada apenas em mudanças de local. O realizador usou-a não apenas para isso, mas também para aumentar a tensão. Tanto Nascimento de Uma Nação como Intolerância mostram conclusões tensas, em que eventos em cenários diferentes se estão a desenrolar. Para prender a atenção dos espetadores nestes momentos, a montagem vai-se tornando cada vez mais rápida, à medida que o clímax do filme se aproxima.

Esta tática já havia sido desenvolvida pelo cineasta nas suas curtas-metragens, e ainda é atualmente utilizada.

O primeiro blockbuster

No início do cinema, quase todos os filmes eram curtos. Achava-se que o público não conseguia manter a sua atenção no grande ecrã durante muito tempo. No entanto, filmes mais longos começaram a popularizar-se ao longo da década de 1910. Inspirado por épicos italianos da altura, como Quo Vadis? (1913) e Cabiria (1914), Griffith decidiu fazer um épico que oferecesse ao público uma experiência mais cinemática do que este estava habituado: O Nascer de Uma Nação.

Altamente publicitado e com uma banda sonora compilada de propósito para a exibição do filme, esta obra foi um sucesso imediato. Apesar de a quantidade de dinheiro ganho ser ainda discutida, considera-se que este tenha sido o filme a ter ganho mais dinheiro até à estreia de Tudo o Vento Levou em 1939. Também foi seguido pela primeira sequela da história da indústria com The Fall of a Nation (1916), um filme que é agora considerado perdido.

O realizador continuou a fazer filmes em grande escala, e superou-se no ano seguinte com Intolerância. A sua abordagem ao cinema impulsionou outros realizadores em Hollywood, como Cecil B. DeMille (Os Dez Mandamentos), a procurarem oferecer ao público espetáculo em “alta escala”, algo que é agora sinónimo do cinema americano.

Aceitação do cinema enquanto arte

A dar ainda os seus primeiros passos durante a era de Griffith, o cinema era maioritariamente considerado uma mera curiosidade, não sendo ainda visto como verdadeira forma de arte pela maioria das pessoas. O realizador ignorou isto e procurou sempre realizar obras únicas que utilizassem esta forma de media ao seu máximo potencial.

Com Intolerância, afastou-se do tipo de narrativa esperado na altura e apresentou quatro diferentes linhas narrativas a desenrolarem-se em simultâneo, com as suas únicas semelhanças a se encontrarem na temática titular. Há o popular mito de este filme ter sido feito como forma de D. W. Griffith se desculpar pelo racismo de O Nascer de Uma Nação, mas a verdade é que a decisão de fazer este filme teve mais a ver com “ego”, tendo o tema sido apenas escolhido devido à “intolerância” que ele sentira por parte de quem queria censurar Nação.

Intolerância foi um projeto caro e acabou por não ganhar dinheiro suficiente para cobrir os seus custos, no entanto, a sua estrutura visionária faz com que este seja considerado um dos primeiros filmes “artísticos”.

Aperfeiçoamento de técnicas de filmagem importantes

Técnicas como o “close-up” não foram exatamente uma novidade. Mas o realizador foi um dos primeiros a compreender o seu poder dramático. De facto, ele começou a utilizá-los para demonstrar pequenas características de atuação em maior pormenor. Em vez de usar a atuação apenas para apresentar os eventos a desenrolarem-se, ele  procurou dar à câmara um maior papel na qualidade do filme.

Outra característica comum na sua filmografia é a câmara em movimento. Mais uma vez, Griffith não foi o inventor desta técnica de filmagem, mas perfecionou-a de tal modo que é quase como se o tivesse feito. O famoso crítico norte-americano Roger Ebert chega a afirmar que o uso da câmara em movimento em Nascer de Uma Nação foi muito mais impressionante do que quando fora usado em Cabiria no ano anterior.

Cinema enquanto agente de mudança social

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A reputação de D. W. Griffith estará para sempre manchada por Nascer de Uma Nação devido às repercussões sociais que este filme desencadeou. No entanto, o cineasta procurou sempre explorar temas socialmente relevantes. Temas que se focam na forma como os governos e as pessoas no poder se preocupam pouco com os danos que causam na população mais desfavorecida podem ser observados em filmes como Intolerância e As Duas Orfãs (1921).

A sua preocupação pelas questões sociais tornou-se ainda mais óbvia com O Lírio Quebrado (1919). Lançado numa época em que os Estados Unidos da América demonstravam sentimentos racistas contra os chineses (época conhecida como “Yellow Peril“), o filme procurou mudar essa percepção, e no processo também deu a Hollywood o primeiro romance inter-racial.

Esta abordagem do cinema continuaria a ser seguida por realizadores da era como Erich von Stroheim (Aves de Rapina) e Fritz Lang (Metropolis e M).