Num ano em que se comemora o quarto centenário da morte de Shakespeare, justificava-se uma revisão de Romeu e Julieta ao sabor dos novos ódios, menos aristocráticos e solenes do que os de então, hoje desligados de caprichos de honra ou genealogia, baseados em categorias mais profanas, como o tom de pele, a nacionalidade ou a orientação sexual. E é neste contexto que não nos surpreende – mas nem por isso se perdoa – o lamentável sensacionalismo de Black, que parece ter seguido à risca a lista de ingredientes necessários para a confeção de um indigesto filme-choque.

A segunda longa-metragem de Adil El Arbi e Bilall Fallah decorre em Bruxelas, onde dois jovens se apaixonam sem grandes demoras porque o enredo assim o exige. Ela é africana, ele é árabe; ambos ocupam o seu tempo com assaltos e outros delitos, como se se tratassem de desportos ou atividades “extracurriculares” que o filme nunca se atreve a examinar com seriedade. Ainda a procissão vai no adro e já se percebeu qual é o inevitável contratempo que pode vir a sabotar esta relação: os dois pertencem a gangs rivais, em competição pelo mesmo espaço social, geográfico e económico. A segregação xenófoba que está na origem desta tensão torna-se, no entanto, numa espécie de ruído de fundo enterrado sob uma avalanche de insultos, tiros, esfaqueamentos e violações, uma massa amorfa de violência que faz colapsar toda a narrativa. Esta infantil proposta de fatalismo, que age sobre as personagens silenciando-as, não consegue sequer simular um estilo pseudo-sofisticado que a outros sádicos de profissão (Haneke, Von Trier…) permite alguma margem de manipulação.

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Nenhuma das cenas mais cruéis deste filme seria forçosamente injustificada caso fosse dirigida com intenção, mas estamos perante um fatigante e monomaníaco processo de atordoamento do público, este sem ideias onde se possa agarrar, apenas um emaranhado de sotaques, corpos feridos, lugares-comuns e simplificações ingénuas das provações destes órfãos do multiculturalismo.

Em Black, não nos convence nem o romance (gélido, que se resume a uns quantos diálogos inocentes pontuados por encontros sexuais), nem a tragédia (coreografada, anestesiada e anestesiante). Se fracassa enquanto atualização da peça de Shakespeare, o que traz este filme de novo ao “cinema do ódio”? Nada, ainda que reconheçamos um bom esforço da parte dos atores (o casal central, Aboubakr Bensaihi e Martha Canga Antonio, impede que tudo isto se desmorone) e, pelo menos, uma voz sincera no que à realização diz respeito.

3/10

Ficha técnica
Título: Black
Realizador: Adil El Arbi e Bilall Fallah
Argumento: Adil El Arbi, Bilall Fallah e Hans Herbots
Elenco: Aboubakr Bensaihi e Martha Canga Antonio
Género: Drama
Duração: 95 minutos