Na passada quinta-feira, o Espalha-Factos foi convidado a entrar na sala do magnífico Teatro Politeama e, como já era de esperar, a experiência foi arrepiante. Assistimos ao novo espetáculo As árvores morrem de pé, de Alejandro Casona, numa encenação de Filipe La Féria, que subiu pela primeira vez ao palco no passado dia 11 de agosto.

«Morta por dentro, mas de pé, de pé como as árvores»

Há, com certeza, quem se recorde desta icónica frase. No entanto, muitos não devem ter conhecimento de quem a protagonizou. Estávamos na década de 60. A RTP transmitia alguns espetáculos de teatro. Na peça As árvores morrem de pé era possível assistir à interpretação da atriz Palmira Bastos, cuja voz eternizou esse pequeno excerto da peça.

Esta grande senhora do teatro interpretava a avó Eugénia da peça, a personagem principal, que até hoje é recordada pelos que na altura se maravilharam com a sua performance. Sem preverem, estavam perante um clássico do dramaturgo espanhol Alejandro Casona.

Casona teve um enorme papel no desenvolvimento do teatro no seu país e, na altura, alargou essa sua influência a Portugal, onde várias das suas peças foram encenadas. Depois das histórias simples e lógicas, surge o teatro que recorre à ilusão e à exposição dos conceitos de verdade e mentira, convidando o público a decifrar e interpretar os detalhes.

Cinquenta anos depois, a peça As árvores morrem de pé volta a cena pela mão de Filipe La Féria. Para ele, este é o recordar uma das peças de teatro que marcaram para sempre as noites do pequeno ecrã e os seus espetadores.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Se as árvores morrem mesmo de pé, como disse o dramaturgo espanhol, os grandes atores são mesmo eternos. Porque é de grandes interpretações que se faz este espetáculo de Filipe la Féria.

Nesta nova produção, nomes consagrados do teatro português juntam-se para fazer jus ao clássico de Alejandro Casona. Manuela Maria, Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho, João d’Ávila, Carlos Paulo, Maria João Abreu e Hugo Rendas, entre outros, dão vida às personagens da trama.

Jacarandás que contam histórias

O espetáculo começa. Entram os membros da Causa, uma associação onde uma série de atores engenham situações para ajudar as pessoas em momentos de aflição. Na primeira cena, preparam-se para salvar uma mulher do suicídio, Teresa, que acaba depois por ser convidada a integrar a equipa de atores desta causa.

Há pescadores, há padres, perucas e bigodes, há coelhos em cartolas e cães adestrados. Tudo para engendrar as mais diversas cenas e proporcionar momentos felizes.

Mas o grupo tem um grande desafio pela frente. Surge Fernando Balboa, personagem de Ruy de Carvalho, o avô que durante 27 anos tem escrito dezenas de cartas à esposa onde se faz passar pelo neto. Neto esse que viveu com eles durante alguns anos, após a morte dos seus pais, mas que acabou se tornar num delinquente, um homem calculista, frio e um “crápula”. Ao tomar conhecimento dessa realidade, há 27 anos, Balboa expulsou imediatamente o seu neto de casa, emigrado depois para o Canadá onde geria negócios obscuros.

A verdade, no entanto, teria de ser escondida da avó que tanto amava o seu neto, já que a desilusão poderia fazer parar o seu já velho e doente coração.

Nessas cartas, Maurício, o neto, era um arquiteto de sucesso, casado, muito feliz e ansioso por um dia poder rever a casa onde cresceu, a tarte de nozes e o jacarandá que espreitava pela janela do seu quarto. Ao longo de muito tempo a mentira resiste, até que a chegada do descendente do Canadá promete pôr tudo em risco.

 

Quando a peça termina, e durante quase 10 minutos, aplaude-se de pé esta fantástica produção de La Féria, mais uma a juntar ao seu vasto currículo.

Um espetáculo cheio de grandes interpretações

O cenário é majestoso, o guarda-roupa exemplar. No palco, os jacarandás artificiais agitam-se ao sabor do vento. Tudo nos deixa maravilhados a cada cena. Mas é mesmo das performances dos grandes atores do elenco que vive este espetáculo.

Carlos Paulo é o primeiro a entrar em cena, no papel de diretor da Causa. Pouco depois surge Maria João Abreu, a personagem Teresa. Dois atores de renome, que mais uma vez não desiludiram e impressionaram o público presente.

Hugo Rendas, que interpreta o verdadeiro neto Maurício, entrou já no final da segunda parte, mas nem por isso deixou de nos impressionar. Atribuiu a arrogância e frieza que a sua personagem exigia, sem nunca descurar.

Quando surge em cena Ruy de Carvalho, Fernando Balboa na peça, os aplausos ecoam durante uns longos minutos. Arrepiante! Um dos grandes nomes do teatro português entra em cena. Promete uma atuação igual a todas aquelas que já nos proporcionou. E mais uma vez cumpre! A segurança na sua prestação em palco é bastante reveladora dos seus 70 anos de carreira.

Manuela Maria, por sua vez, teve a difícil tarefa de substituir Eunice Muñoz, entretanto operada ao coração. E a verdade é que foi um deleite vê-la a encenar nas tábuas do Politeama. Consegue na perfeição expressar todas as emoções desta avó divertida mas muito vivida, dando-lhe uma ternura e dramatismo autênticos.

Todo o elenco está  à altura da histórica representação do Teatro Nacional, protagonizada por Palmira Bastos, em 1966.

Pena é só não podermos assistir à prestação de Eunice Muñoz no papel de avó. Com duas grandes atrizes e interpretações bastante distintas, a dinâmica será, com certeza, diferente.

Quando e onde podes ver…

A peça subiu no dia 11 ao palco do Teatro Politeama, em Lisboa, onde ficará até dia 27 de novembro.

Podes vê-la de quinta-feira a sábado, às 21h30, e sábado e domingo, às 17h00. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais e variam entre os 10 euros e os 30 euros.