Durante o serviço militar que prestou na guerra colonial, António Lobo Antunes escreveu apaixonadas cartas à sua esposa, nas quais já se descobria a prosa emotiva, de inclinações cruéis, que lhe é tão característica. Qualquer fiel transcrição dessa correspondência para o grande ecrã resultaria, à partida, num projeto minoritário, porque um filme falante como Cartas da Guerra é de uma rara exigência que certamente alienará quem nele procure um relato “posto em cena”, inscrito numa narrativa que reduza a palavra às imagens.

A solução achada por Ivo M. Ferreira parece-nos muito mais corajosa – consiste na justaposição dos dois discursos, o visível e o legível, não se dissipando o primeiro no segundo. O filme resiste a acomodar-se em funções ilustrativas. Estabelece antes um diálogo entre a voz de Lobo Antunes (mediada pela de Margarida Vila-Nova, que lê essas cartas reveladoras, surpreendentemente íntimas) e as paisagens sobre as quais ela se faz ouvir, sem que haja uma fácil concordância entre o que se ouve e o que se vê. São várias as vezes em que a narração aponta numa direção inesperada, senão mesmo contrária à que nos é sugerida pela ação “vista”, encenada. Enquanto o texto se declama, recordações de outros soldados, ficcionais ou não, cruzam-se com as de António, e contribuem para completar esta visão panorâmica da guerra do ultramar, aqui retratada como uma longa e duríssima noite de sobressaltos e fantasmas.

Apesar de nos falar de um momento histórico desta gravidade, Cartas da Guerra ousa ser romântico, descobrindo uma paixão inabalável nas palavras ternas, por vezes desencantadas, que o médico-escritor dirige à sua mulher. É um erotismo religioso, assente na possibilidade da (re)ligação dos dois amantes, e cabe no filme sem que por isso este perca a sua ferocidade – encontramos nele uma secura implacável que nos lembra Pedro Costa ou mesmo Céline, cuja cáustica crítica dos mais profundos defeitos humanos é filtrada pela poesia “em carne viva” de Lobo Antunes.

Todavia, para que a angústia do texto transparecesse por completo, Cartas da Guerra deveria ser um pouco menos fotogénico e livrar-se de poses e citações (na cena em que os soldados são visitados por um grupo de dançarinas, o “apocalipse” de Coppola vem imediatamente à memória). Quando há bons atores, boas ideias e uma execução competente das mesmas, como é o caso, falta alguma sujidade, menos cautela, menos simetria, menos enquadramentos que pareçam trabalhados até ao mais ínfimo dos pormenores. É esse academismo formal que impede o filme de Ivo M. Ferreira de cumprir todo o seu potencial de comoção, disciplinando-se em demasia.

Ficamos, porém, com a certeza de que Cartas da Guerra é uma interessante e louvável incursão num território ainda desconfortável para o cinema português – o de uma História recente que pede para ser lamentada ou reivindicada, mas que não nos permite a irresponsabilidade da ignorância.

 

7/10

 

Ficha técnica
Título: Cartas da Guerra
Realizador: Ivo M. Ferreira
Argumento: Ivo M. Ferreira, António Lobo Antunes (D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra)
Elenco: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira
Género: Drama biográfico/histórico
Duração: 105 minutos