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Britney convida-nos para uma ‘slumber party’ mas adormecemos antes do fim

Há pouco mais de um ano, Britney Spears aliava-se a Iggy Azalea para nos trazer o hino forçado Pretty Girls. A canção foi um fracasso e Spears foi alvo de críticas da própria companheira, que a acusou de falta de promoção da música. Pretty Girls marcou uma tentativa falhada de Spears de soar trendy e de acompanhar a sonoridade-moda de 2015 e, em retrospetiva, soa tão datada como se tivesse sido lançada há uma década atrás.

Por isso, foi refrescante ouvir o primeiro single do seu nono disco, Make Me…, que nos deu a conhecer uma Britney mais relaxada e menos preocupada com tentar acompanhar aquilo que é feito por Katy Perry ou com soar igual ao novo single de Rihanna. Em 2014, aquando da promoção da sua linha de roupa íntima The Intimate Britney Spears, a cantora-atriz-empresária-mestre de perfumaria afirmou à Next TV estar “lenta mas progressivamente” a trabalhar no seu novo disco. “Quero fazer algo muito ‘artsy fartsy’, algo que nunca tenha feito antes“, adiantou.

Glory e a Britney ‘artsy fartsy’

Glory é o nono disco de originais da sua carreira e não podia soar mais atípico que a sua discografia anterior. Sensual no seu conjunto preferido de lingerie, Britney convida-nos para a sua slumber party.  Invitation é o cântico de Spears que nos chama, que suspira “Here’s my invitation, baby / Come feel my energy” e que pede: “Put all your love all over me“. O convite fica feito.

Os gemidos e suspiros prolongam-se em Make Me…, que, no contexto do disco, é a canção mais cativante para a rádio e a escolha óbvia para primeiro single. Sobre a canção ficam por resolver dúvidas: a primeira, sobre a questionável necessidade de incluir o rap de G-Eazy, e a segunda, e talvez mais premente, reside na escolha de arquivar aquele que seria um vídeo possivelmente icónico de David LaChapelle e lançar isto:

https://www.youtube.com/watch?v=etfJCm0nfr4

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Passaram cinco anos desde Femme Fatale, com direção de Max MartinDr. Luke, agora persona non grata, que nos trouxe o êxito Hold It Against Me e o apocalíptico Till the World Ends. O último álbum, o homónimo Britney Jean, foi um produto da marca will.i.am, que lhe injentou uma sobredose the EDM e autotune. Em Glory, Spears replica as tendências de um mundo pós-The Weekndcom elementos vagos de R&B, linhas de baixo graves e a acústica de guitarras. O minimalismo das gémeas Just Luv Me e Love Me Down encaixaria na perfeição numa reunião familiar com Revival, o último esforço de Selena Gomez.

Em termos vocais, Glory flutua constantemente entre a voz sussurrante, nas nuances de reggae em Slumber Party, a doçura infantil, como no romance planetário Man On The Moon, e a monocórdica nasalação, na banda sonora de clube de striptease Private Show. A voz, de mão dada com a composição tongue-in-cheek, pintam uma personagem supersexualizada que não se leva demasiado a sério. “Boy, watch me work it / Slide down my pode / Watch me spin it and twerk it“, brinca.

Mas o fator cómico torna-se maçador após uma dúzia de faixas e a grande desilusão de Glory é mostrar-nos uma Britney unidimensional. Custa crer que uma estrela pop com quase duas décadas de carreira apenas se queira colocar na posição de objeto erótico, provocadora e dominadora, mas paradoxalmente submissa e vitimada por desamores.

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As surpresas do disco estão guardadas na sua versão Deluxe, que inclui cinco faixas adicionais. Better tem produção de BloodPop, responsável por Sorry de Justin Bieber, que infunde os versos de uma atmosfera tropical. “Oooh oooh, when you know somebody / And they know your body / It’s so much better“, canta Spears. Liar soa a um single rejeitado por Katy Perry e é o som mais pop de todo o disco. “Call, call, call / But I’m never gonna come / Baby, cry, cry, cry / You ain’t fooling anyone“, rima o refrão. O seu interesse amoroso sabe que é mentiroso e ela sabe que ele o sabe: “You know I know that you know I know / That you’re a liar, a liar“. Em Better, canta “It feels much better” e, de facto, estas duas faixas soam melhor que a grande parte do álbum.

Glory não é um trabalho glorioso. Ouvimos ainda uma artista que segue a opção mais segura e imita as tendências populares do momento. A música pop é, por natureza, o género que sublinha o popular até se esgotar em si mesmo, mas, ainda assim, esperávamos mais de Britney Spears. Aplaudimos por soar mais chill e descontraída, feliz até,  mas queríamos mais da princesa da pop.

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