Harry Potter and the Cursed Child prometeu um regresso ao mundo mágico do feiticeiro mais conhecido da ficção. Infelizmente, apesar de alguns momentos que nos permitiram reviver por um bocadinho a nostalgia, a história não consegue fazer justiça aos livros anteriores, tendo revelações e reviravoltas que parecem ter saído de uma fanfiction e não de um plot sólido ao nível dos sete livros anteriores.

Este artigo contém spoilers de Harry Potter and the Cursed Child.

A história recomeça no ponto em que acabou: Harry Potter está casado com Ginny Weasley, é pai de três filhos e o seu filho do meio Albus Severus Potter está prestes a ir para Hogwarts receoso de ser colocado em Slytherin. O rapaz é, de facto, colocado nessa mesma casa onde acaba por travar amizade com Scorpius Malfoy. À medida que a relação entre Albus e Harry piora, o segundo é visitado por Amos Diggory (pai do falecido Cedric Diggory) que lhe pede que volte atrás no tempo e salve o seu filho. Quando o Rapaz que Sobreviveu recusa, Albus, ajudado por Scorpius e Delphie Diggory (sobrinha de Amos) tenta voltar atrás no tempo de modo a salvar Cedric e a salvar uma vida perdida às mãos de Voldemort.

Pontos Positivos

O livro está dividido em três partes. Quem é fã de Harry Potter irá devorar o começo da história feliz por voltar a acompanhar a vida de personagens com os quais muitos de nós crescemos dando-nos a oportunidade de sonhar com um mundo mágico longe da nossa rotina muggle. Aqueles que resolverem ler este livro sem pensar demasiado nos detalhes da história poderão até desfrutar do livro, embora no fim acabe por saber a pouco. No entanto, os fãs mais atentos têm revelado decepção com este novo livro e eu estaria a ser desonesta se dissesse que tinha adorado esta nova história.

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No entanto, é interessante ver o futuro de Harry, Ron e Hermione como pais, embora Harry e Draco Malfoy tenham maior tempo de antena nesse aspeto. O tema da relação “pai-filho” é prevalente. Harry sente dificuldades em lidar com a revolta de Albus e Draco, ironicamente, sente-se bastante protetor em relação a Scorpius especialmente após a morte da sua mãe e com os rumores de que ele seria o filho de Voldemort.

Nota-se que Albus e Harry são pai e filho. A relação de ambos começou a detriorar-se a partir do momento em que Albus vai para Hogwarts. Ambos são pessoas complicadas, ambos têm as suas próprias angústias e/ou fantasmas do passado, e Albus está ainda acrescentado pelo peso de um legado pelo qual nenhum dos dois pediu. Eu achei perfeitamente credível que Harry tivesse dificuldades enquanto pai, tendo em conta que ele não só nunca teve os pais a seu lado querendo dar o máximo do seu apoio a um filho que vê tão revoltado quanto ele foi. No final ambos começam-se a compreender mutuamente e a desenvolver uma confiança saudável um com o outro.

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Outro aspeto positivo que devo apontar é a amizade entre Albus e Scorpius. Ao ler um livro no qual mal existem descrições, foi bastante gratificante para mim notar que a amizade entre os filhos de Harry Potter e Draco Malfoy é sólida, genuína e cheia de lealdade (quase à semelhança de Frodo e Sam em O Senhor dos Anéis). Os dois Slytherins preocupam-se verdadeiramente um com o outro, algo que de certa forma vem a criar uma certa “paz” entre os seus progenitores, assim como a reforçar a ideia de que nem todos os membros da casa da serpente estão destinados a serem feiticeiros negros.

Pontos negativos

Agora passemos aos aspetos negativos. Uma das razões pelas quais não me senti tão ligada aos personagens nesta edição deve-se ao facto da estrutura do texto estar no formato de um guião de peça. Esta estrutura apresenta-se como uma grande desvantagem para esta história especialmente quando uma pessoa se quer imaginar nesse mundo. 90% do livro são diálogos e a ausência de descrições mais aprofundadas acaba por nos levar a ler esta história sem termos exatamente uma ideia aprofundada dos sentimentos das personagens.

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Em palco talvez tal se torne mais fácil de compreender, conforme a performance dos atores. Como livro, uma pessoa não consegue exatamente envolver-se completamente na história. No entanto, há diálogos onde se nota a mão de J.K. Rowling no processo e são algumas conversas que nos fazem reconhecer as personagens com as quais muitos de nós cresceram.

No que toca ao fio condutor da história, assim que Albus e Scorpius começam a viajar no tempo, detetei de imediato uma contradição com os livros anteriores. Agora, ao invés de uma pessoa viajar no tempo e independentemente do que fizer as suas ações criam o futuro, a trama imita o conceito de Regresso ao Futuro, no qual uma pessoa que viaje no tempo e altere alguma coisa acaba por mudar todo o futuro e criando uma realidade totalmente diferente Se o tema das viagens no tempo já é complicado, esta história nada faz para descomplicar o conceito.

Albus e Scorpius voltam atrás no tempo (só podendo ficar 5 minutos num certo período) mais do que uma vez e provocam danos aparentemente irreversíveis. Eventualmente conseguem desfazer o mal que provocam apenas para mais tarde serem obrigados a viajar novamente no tempo com a mesma limitação dos 5 minutos. Depois ainda voltam mais atrás no tempo, ficam presos num certo período e fazem uma alteração nesse passado que de certa forma salta à vista às personagens que estão no tempo presente. Estão a perceber a confusão? Afinal é criado um futuro alternativo com as mudanças? Ou o que quer que se faça no passado eventualmente reflete-se no presente, conforme se viu em O Prisioneiro de Azkaban? Esta história esteve um bocado indecisa neste aspeto a meu ver.

Neste caso há quatro viagens no tempo, três das quais criam dimensões alternativas. No entanto os efeitos que isso tem em várias personagens são completamente contraditórios com as suas personalidades. O Espalha-Factos já referiu os problemas com a personagem de Hermione, perspetiva com a qual estou totalmente de acordo. Também aconteceu o mesmo com o próprio Harry (que se torna numa pessoa frustrada que quer à força que o seu filho lhe obedeça nem que o tenha que forçar a manter-se separado de Scorpius), com Cedric Diggory (que se torna num Devorador da Morte só por causa de uma humilhação no Torneiro dos Três Feiticeiros e acaba por matar Neville Longbottom), Snape (que está vivo numa dessas dimensões e é demasiado generoso para o meu gosto) entre outros. São estes momentos off-character que deturpam um pouco a imagem que temos das personagens e piora quando nos são revelados os motivos pelos quais uma personagem se tornou arrogante. O pior caso é o de Hermione; o artigo que referi explica melhor o porquê.

Lê também: Harry Potter: Mudanças de Hermione em ‘Cursed Child’ agitam fãs

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Contudo, a revelação principal da história foi o que definitivamente solidificou a minha opinião que me leva a referir-me a este livro como sendo similar a uma fanfiction: aparentemente Voldemort tem uma filha! A terceira personagem do trio apresenta-se incialmente como Delphi Diggory, sobrinha de Amos Diggory, apenas para ser revelado que ela é a filha de Bellatrix Lestrange e do Quem-Nós-Sabemos. A trama do “filho secreto” já está tão gasta em ficção, já para não falar que nas histórias escritas por fãs de HP, este conceito era um dos temas recorrentes. Já para não falar que Bellatrix não mostrou qualquer sinal de gravidez em Os Talismãs da Morte, altura na qual nasceu esta criança (mais especificamente, antes da Batalha de Hogwarts). Portanto, exatamente quando é que Delphi nasceu? Se essa gravidez foi sequer possível como é que a mãe a conseguiu esconder?

O climax da história também deixou muito a desejar. Apesar de ter contribuído para a melhoria da relação entre Albus e Harry, a vilã foi muito fácil de derrotar. O futuro é deixado como está e Harry vê em primeira mão a morte dos seus pais (um dos poucos momentos brevemente emotivo enquanto lia a história e que gostaria de ver como seria em palco).

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A minha opinião geral? Apesar de The Cursed Child nos permitir voltar por instantes a Hogwarts e ter tido momentos que me entretiveram, não consegue estar ao nível dos outros livros. Não só por causa da estrutura do texto, mas também pelas inconsistências e plotholes que polvilham a história. Estragou a minha infância? Não, de todo. Contudo da próxima vez que quiser voltar a imaginar os corredores de Hogwarts enquanto leio histórias com personagens com carácteres fortes e desenvolvimentos interessantes, este definitivamente será o último dois oito livros no qual pegarei. Se é que alguma vez o venha a ler de novo.

Nota: 4.5/10

Ficha técnica

Título: Harry Potter and the Cursed Child

Autores: J. K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany

Editora: Little, Brown and Company

Páginas: 320

Ano de lançamento: 2016