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“Hollywood, Tens Cá Disto?”: Odete (2005)

João Pedro Rodrigues é um dos realizadores portugueses contemporâneos de maior relevância. O seu percurso é notável, recebendo louvores da crítica e demonstrando um desempenho de excelência em festivais. Sagrou-se este ano vencedor do Leopardo de Melhor Realizador no Festival de Locarno, com o filme O Ornitólogo. Este mês na rubrica Hollywood, tens cá disto? é analisada a sua segunda longa-metragem, Odete, lançada em 2005.

O filme segue Rui e Odete. Após um ano de namoro, Pedro, namorado de Rui e vizinho de Odete, morre num acidente de automóvel. Em simultâneo, Odete, que tem um desejo intenso de ter um filho, discute com o namorado que não a compreende, culminando no fim do namoro. Como por forças do destino, uma rajada de vento passa entre as cortinas da sua casa, chamando-lhe a atenção para a mãe de Pedro que se encaminha para o velório. Odete decide ir também. A partir desse momento, a sua obsessão por ter um filho passa a estar direcionada para Pedro, de quem agora insiste estar grávida, colidindo com a dificuldade de Rui em fazer o luto do namorado.

Rui e Pedro

É deste conflito mórbido entre os dois personagens que a ação vive. Por um lado Rui deprimido e suicida,  por outro Odete, obsessiva e histérica. A personagem, que na morte viu a possibilidade de vida, cria rituais relacionados com a realidade que começou a construir com o falecimento do vizinho. Visita a sua campa e compra coisas para o filho que diz carregar dele. Enquanto Rui está à deriva, tentando apaziguar a sua intensa dor em encontros sexuais ou tentativas de suicídio. O melodrama adensa-se e acaba por embaciar a linha da identidade de género. A ausência de Pedro é canalizada para a presença de Odete.

Os planos são memoráveis, com uma fotografia irrepreensível e cor em que predominam vermelhos e verdes sujos, em cenas iluminadas sombriamente. O tom fúnebre prossegue com vários momentos carregados de simbolismo. Situações como a justaposição de planos em que tanto a mãe de Pedro como Odete se agarram à barriga à porta de casa. Uma a chorar a morte do fruto do seu ventre, a outra a desejar que o seu produzisse algo. Imagens poderosas.vlcsnap-2016-08-24-17h44m26s215

Onde o filme fica mais aquém é na credibilidade de algumas cenas devido ao sacrifício do realismo para a inserção de demasiado drama. Como a morte de Pedro em que sangue jorra da boca na mesma altura em que Rui grita e som de sirenes acompanha um fade out. Embora as emoções dos personagens sejam compreensíveis, algumas motivações não têm o mesmo sustento. As crises histéricas de Odete tendem por vezes para o cómico e os encontros aleatórios de Rui, assim como tentativas de suicídio, parecem situações incoerentes.

Contudo, estes são males menores e discutíveis no todo que é um filme intelectualmente poderoso, com uma história original, planos notáveis e preocupação minuciosa pelo que é visual. Uma longa-metragem reveladora da sensibilidade singular de João Pedro Rodrigues.

Ficha Técnica:

Realizador: João Pedro Rodrigues
Argumento: Paulo Rebelo, João Pedro Rodrigues
Elenco: Ana Cristina de Oliveira, Nuno Gil, João Carreira
Duração: 101 minutos

7/10

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