Refrigerantes e Canções de Amor, a inconvencional comédia romântica com argumento de Nuno Markl e realização de Luís Galvão Teles, estreia dia 25 de agosto nas salas de cinema portuguesas.

O Espalha-Factos teve a oportunidade de falar com o prolífico argumentista da obra, possibilitando assim mergulhar na visão de Nuno Markl e nas histórias dos bastidores de Refrigerantes e Canções de Amor.

 

Espalha-Factos: Como nasceu a ideia e inspiração para Refrigerantes e Canções de Amor?

Nuno Markl: Comecei a escrever o argumento no fim do meu primeiro casamento, em 2007. Foi uma separação amigável e de comum acordo. Mas na mais banal das situações – ir pela primeira vez ao supermercado sozinho, depois da separação – apercebi-me do choque da solidão.

Não senti esse choque a recordar coisas épicas do casamento – a cerimónia, as grandes viagens, os momentos mais românticos – mas sim na coisa mais rotineira e banal: uma ida ao supermercado. É tão ridículo como, de repente, passar pela ala do papel higiénico e lembrar-me que durante anos passávamos ali duas pessoas, levávamos aquela marca, depois íamos ali buscar aquele produto e aquele e aqueloutro e depois íamos os dois para casa – e agora ali estava eu a fazer aquele caminho sozinho.

“(…) na mais banal das situações – ir pela primeira vez ao supermercado depois da separação – apercebi-me do choque da solidão”

Achei que tinha de escrever sobre a maneira como as pequenas coisas da vida podem tocar-nos mais do que as coisas grandes e supostamente inesquecíveis.

Ao mesmo tempo tinha descoberto na net uma notícia bizarra sobre uma prática que algumas pessoas andavam a levar a cabo em supermercados americanos – a carrinhologia – e que consistia em engatar pessoas com base na observação do que elas levavam nos respectivos carrinhos, para perceber se havia compatibilidade. Inicialmente a história era sobre isso – o primeiro título era “O Carrinho da Esperança“, e era uma coisa meio deprimente sobre almas solitárias num supermercado em busca de mais do que simplesmente as compras do mês.

Só que a meio da escrita disso, e sem saber para onde aquela história me levava, apaixonei-me pela Ana Galvão, com quem viria a casar e a ter um filho. Apaixonei-me por ela sem saber bem como ela era – isto apesar de sermos amigos e colegas há anos. Mas a Ana sempre preservou muito a sua vida privada aos olhos dos outros, sempre foi um enigma – o que a tornava ainda mais fascinante. E é aí que o argumento muda. No fundo eu acho que a rapariga que o protagonista não sabe como é porque está dentro de um fato de dinossauro cor-de-rosa – por trabalho e por defesa – e por quem, ainda assim, ele se apaixona, tem a ver com a Ana e com o que eu estava a atravessar naquele momento.

Ao mesmo tempo, o filme fala de dúvidas sobre o papel de um tipo que tem um trabalho público: faço arte ou apenas comércio? São inquietações que tenho e optei por não manter o filme no universo do humor, para afastar a história de mim. Optei por fazer tudo passar-se no universo da música, porque adoro música, e tenho muitos amigos nessa área.

Falei então do projecto à Cláudia Semedo, com quem fazia manhãs na Antena 3 na altura, e a verdade é que sem a intervenção dela nada disto estaria a acontecer. A Cláudia está na génese de tudo: levou o argumento ao Luís Galvão Teles, chegou a fazer pré-produção e a tentar angariar apoios e foi uma das forças inspiradoras para que isto se tornasse realidade. A minha dívida de gratidão para com ela é gigante. Ela, para mim, será sempre a grande impulsionadora disto.

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EF: Qual foi o maior desafio durante a escrita do seu argumento?

NM: Acho que foi mesmo tentar servir de uma maneira digna uma quantidade de coisas bizarras e arriscadas que podem não funcionar. Uma protagonista feminina que está sempre fechada dentro de um fato de dinossauro; um Jorge Palma imaginário que dá conselhos ao protagonista… Mas se eu não experimentasse essas coisas, nunca saberia se resultavam ou não.

E ainda não sei, agora o público será o juíz. Este argumento é todo ele muito arriscado e delicado porque é muito pessoal. Mas se falhar, pelo menos tentei. Esse é um ex-libris meu desde sempre. Aquelas que considero as melhores coisas que escrevi na vida – como por exemplo a série Paraíso Filmes – não foram êxitos de audiências, longe disso. Seja como for, uma das primeiras pessoas a quem o dei a ler foi o meu bom amigo Filipe Melo, em cujo juízo confio cegamente, e que me deu uma série de dicas preciosas e que melhoraram o argumento.

 

EF: Dada a sua sinopse no mínimo curiosa, o que é que o público pode esperar de um projecto tão ambicioso quanto este?

NM: Um filme que tenta qualquer coisa que não está dentro de fórmula nenhuma. Nada contra as fórmulas, mas aqui fomos por caminhos que, apesar de acessíveis ao público, são diferentes. O Luís Galvão Teles, com toda a experiência que tem na produção de filmes, fez-se rodear de uma equipa de incríveis talentos não só no elenco – o Ivo Canelas, a Victoria Guerra, o João Tempera, a Lúcia Moniz, o Ruy de Carvalho, o André Nunes, o Gregório Duvivier – mas também na parte técnica e artística.

O director de fotografia, por exemplo, é um génio da sua arte, o brasileiro Gustavo Hadba. E para mim é incrível ter o Jorge Palma e o Sérgio Godinho juntos a interpretar palavras que escrevi. A Victoria dizia-me um dia, nas filmagens, que isso era das coisas mais surreais dos dias de trabalho: estarem ali juntos aqueles que são, provavelmente, os dois maiores cantautores nacionais vivos.

Ela disse-me isto vestida com o fato de dinossauro, o que tornou tudo ainda mais surreal. Única coisa de que tenho pena: que, para condensar a trama e torná-la mais escorreita, alguns diálogos e momentos tenham caído nesta versão que verão nos cinemas. O que me consola é que esses pedaços irão surgir na versão extensa que passará em episódios o ano que vem na RTP.

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Uma obra que promete estabelecer-se como um culto do cinema nacional, culmina na interação de um prestigiadíssimo elenco, com o génio da escrita de uma das maiores figuras da comédia a nível nacional, bem como uma indiscutível experiência na realização.

Refrigerantes e Canções de Amor chega dia 25 de agosto às salas de cinema portuguesas, e tem tudo para ser uma lufada de ar fresco na imensidão de comédias românticas monótonas a que nos temos habituado.

https://www.youtube.com/watch?v=qBgRrWqk9qo