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O Demónio de Néon: Beleza sem Conteúdo?

Sendo responsável por peças cinematográficas únicas, Nicolas Winding Refn tem sempre sobre si a pressão de se suplantar. Após ter cedido a essa mesma pressão com a desilusão que foi Só Deus Perdoa (Only God Forgives, 2013), o próximo filme do realizador dinamarquês teria obrigatoriamente de ter uma qualidade no mínimo semelhante à do aclamado Risco Duplo (Drive, 2011). Surge assim O Demónio de Néon (The Neon Demon), um filme dificilmente memorável e que é classificado como pertencendo ao género de terror, apesar de assustador não possuir nada.

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A narrativa do filme e a mensagem que o mesmo tenta transmitir é uma que já foi repetida inúmeras vezes. Somos apresentados à personagem de Jesse (Elle Fanning), uma jovem e bela rapariga que com a ajuda de um fotógrafo amador (Dean, interpretado por Karl Glusman) e de uma maquilhadora chamada Ruby (Jena Malone) procura entrar no mundo da moda, apenas para se inteirar que este é um mundo obscuro e cruel. Ou seja, um óbvio comentário social sobre as qualidades negativas da referida indústria. Como disse: nada de novo.
O desempenho do elenco é algo que, infelizmente, também tem pouco de positivo. Os destaques vão claramente para Elle Fanning e Jena Malone (que desempenham o papel que lhes foi atribuído o melhor que podem), enquanto que a decepção nesta área é a performance de Keanu Reeves (Hank), que serve apenas para relembrar que a pessoa no ecrã é o ator e não a personagem.

Outra crítica a esta longa-metragem é o facto do mesmo se assumir como um filme de terror. Deixo desde já um aviso: se és fã do género, não vejas O Demónio do Néon com grandes expectativas. Apesar de contar com duas cenas que podem ser consideradas como chocantes e mais uma ou duas que podem ser classificadas como grotescas, nenhum sentimento de medo é despertado durante toda a obra. Aliás, a primeira hora do filme é excessivamente lenta no seu desenvolvimento e os seus últimos vinte minutos (aqueles que Refn deve considerar aterradores) levam, em alguns momentos, ao riso.

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Mas nem tudo é negativo na película do realizador de Bronson (2008) e há que reconhecer mérito quando o mesmo é merecido: no que toca à cinematografia, este é um dos filmes mais impressionantes de que tenho memória. Cada imagem parece ser cuidadosamente montada, o jogo de luzes em cada cena hipnotizam a audiência e o que de outra forma se tornaria numa experiência cinematográfica aborrecida torna-se numa experiência que, aliada a uma excelente banda sonora, se torna absolutamente bela e cativante.
A atenção ao detalhe artístico presente ao longo de toda a obra é ainda mais acentuada por não parecer forçada ou gratuita: na grande maioria dos casos (especialmente naquela que é de longe a melhor e mais memorável cena de todo o filme) é até mesmo fundamental para perceber o desenvolvimento das personagens e da história criada pelo realizador dinamarquês.

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Percebemos então que O Demónio de Néon poderia ter sido algo muito melhor, e até mesmo especial, caso a sua narrativa tivesse sido estruturada de uma forma mais complexa e organizada. Peca também pela sua tentativa de se assumir como um filme de terror quando maior parte da sua imagética pesada serve apenas para chocar ou transmitir a recorrente mensagem de que no mundo da moda é “comer ou ser comido”.
No entanto, não existe forma de negar a genialidade de Nicolas Winding Refn no que toca em tornar uma obra cinematográfica esteticamente magnífica, característica que acaba por salvar este filme.

6.5/10

Ficha técnica
Título: The Neon Demon
Realizador: Nikolas Winding Refn
Argumento: Nikolas Winding Refn
Elenco: Elle Fanning, Jena Malone, Karl Glusman, Keanu Reeves
Género: Terror, Thriller
Duração: 118 minutos

 

 

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