Há exatamente uma semana, o Mêda + estava a festejar o seu 2.º dia de festival. No início dessa noite (29), momentos antes do concerto que fechou a primeira parte da tour nacional, o baterista e membro fundador dos The Lemon Lovers esteve à conversa com o Espalha-Factos.

Num ambiente descontraído, Victor Butuc abordou questões como a evolução da banda (formação e sonoridade), a experiência peculiar de gravação do 2.º disco, a tour europeia e, ainda, todas as características que tornam o Mêda + numa “iniciativa mesmo brutal”. 

Espalha-Factos (EF): Os The Lemon Lovers têm dois álbuns editados. Queremos saber as principais diferenças, e até semelhanças, entre ambos.

Victor Butuc (TLL): O primeiro disco… Nós primeiro começamos em duo. Era só guitarra e bateria, em 2012. Só depois em 2013 é que acrescentamos um baixo e aí gravamos um EP. Fomos para uma casa, três dias, gravamos um EP, cinco músicas, foi brutal!

Depois de um ano em tour, a promover esse EP, conseguimos angariar dinheiro para fazer um disco, o tal primeiro disco longa duração, que estava com o nosso primeiro baixista [Andrés Malta]. Ou seja, éramos três, já era formato trio. Nós decidimos pegar nas nossas coisas, “Olha vamos gravar um disco em Madrid” e fomos sete dias para Madrid.

Em sete dias gravamos doze temas. Depois misturaram e masterizamos com o Brian Lucey, que por exemplo isto que está a dar agora [Arctic Monkeys era o som de fundo] foi ele quem masterizou. Ou seja, nós trabalhamos com pessoas que já trabalharam com Arctic Monkeys, com os The Black Keys, Marilyn Manson, Chet Faker… E foi altamente. Só que era um rock muito a rasgar, um rock totalmente diferente, um rock muito na cara, mais produzido.

E nós, com a saída deste nosso primeiro baixista, voltamos às origens, fechamo-nos os dois [Victor Butuc e João Pedro Silva] e começou-nos a sair cenas um bocado mais vintage, por causa das influências que são muito mais vintage. Anos 70/80 marcaram-nos muito, apesar de sermos jovens e termos nascido nos 90, mas ouvimos sempre música muito antiga.

E essas influências revelaram qualquer coisa em nós em que “ok, temos de procurar uma formação que corresponda às nossas expectativas”. E aí entrou o Rolando e o Rui. Ou seja, passamos de trio para quarteto. Conseguimos ter um baixista com uma forma de tocar mesmo peculiar e mesmo à antiga como nós gostamos e conseguimos arranjar uma pessoa que tocasse hammond, que é aquele órgão típico das igrejas americanas. É a junção brutal e nós nunca nos sentimos tão felizes.

Este segundo disco foi todo assim… Tivemos um disco super produzido, rock na cara, para um rock ligeiro, vintage, clássico. Essa é a diferença, mas acaba por ser Lemon Lovers por causa da nossa composição. Apesar de termos essa composição muito atual, porque nós compomos música hoje, temos essa sonoridade vintage e juntamos essas duas coisas e agora é o que caracteriza a sonoridade de Lemon Lovers.

EF: Este segundo disco foi gravado em fita analógica. Porquê essa opção?

TLL: A melhor escolha que nós fizemos foi “a nossa sonoridade é esta, é isto que nós queremos fazer, são estas as nossas influências, como chegar a esse som hoje em dia?”. Pesquisamos e… Escolhemos o melhor estúdio possível para gravar este segundo disco, escolhemos o Sá da Bandeira, no Porto, e escolhemos o melhor produtor possível para fazer o disco connosco, que é o João Brandão.

Nós gravamos o disco todo em fita analógica, não ligamos um único computador. Estávamos os quatro ao mesmo tempo num estúdio a gravar, o Brandão lá em baixo. E foi isso. Fizemos um disco numa semana. Não há “vamos gravar baterias primeiro, vamos gravar guitarras agora”. Não. É tudo ao mesmo tempo. Se soar, soou. Se não, voltamos a tentar.

EF: Quais foram as principais dificuldades deste método de gravação?

TLL: Há grandes dificuldades! Nós tivemos uma pré-produção muito alargada. Estamos a trabalhar na pré-produção do disco, por nós, desde novembro. Nós gravamos o disco em fevereiro, na primeira semana de fevereiro. Desde novembro até fevereiro, nós ensaiamos todas as manhãs, ensaiamos os quatro, criamos uma rotina, estipulamos objetivos. Foi muito ensaio, muito trabalho, muito suor para chegar lá e sair tudo bem à primeira. 

EF: É possível que a gravação em fita analógica tenha aproximado a sonoridade em estúdio à sonoridade em palco?

TLL: É diferente. O nosso tocar não foi um tocar live act. Nós não gravamos um concerto, não foi nada disso. Nós tocamos de uma forma tão pensada e tão matemática. Mas ao mesmo tempo tão contraditório porque… Não era nada matemático.

A forma de tocar em estúdio é totalmente diferente de tocar ao vivo. Apesar de nos termos juntado os quatro e termos gravado os quatro no estúdio, não tem nada a ver com um concerto. Eu falo por mim, eu tive de tocar as baterias mais devagar. Tive de tocar as baterias com mais calma e tentar sacar um melhor som. Num concerto não é nada... Tento ter esse cuidado, mas também estou para dar um bom espetáculo. Não podia estar concentrado com fones, como se estivesse “cada segundo está a contar e eu tenho de”… Não! É diferente e isso fez-nos crescer muito como músicos e aprendemos a tocar muito bem os quatro.

Uma pessoa se vê um concerto sabe que “estes quatro não são só quatro músicos que se juntam ao fim-de-semana para tocar, são quase uma segunda família”. Eu sinto cada nota que o João dá na guitarra, eu sinto cada nota que o Rolando dá no baixo e sinto cada nota que o Rui dá no teclado.

EF: Como foi a experiência de apresentar este novo álbum numa tour além-fronteiras?

TLL: O primeiro disco, nós apresentamos primeiro fora e só depois aqui, em Portugal. Nós decidimos “vamos fazer uma tour de 50 datas pela Europa fora, vamos juntar-nos todos numa autocaravana e fazer um mês e meio de tour quase sem paragens”. E foi aí que apresentamos o primeiro disco e crescemos muito como pessoas e tocamos todos os dias, tivemos muito poucas folgas. Aí é que sentimos o que é estar na estrada e tocar e aperfeiçoar a nossa técnica e a nossa sonoridade.

Com este segundo disco, decidimos fazer o oposto, ou seja, “vamos primeiro apresentar o disco em Portugal, vamos fazer uma tour de Norte a Sul do país, 20 datas e só depois vamos pensar no resto da Europa”. Nós temos tido propostas de outros países só por causa da primeira tour que fizemos de apresentação. Agora vamos ter a oportunidade de… Sei lá. Ainda não posso falar muito disso, porque ainda estamos a cozinhar isto. Mas estamos a preparar a próxima tour europeia, para apresentar o segundo disco, mas vamos com calma. Temos propostas de vários países, temos pessoal interessado. Só falta alinhar tudo com calma.

EF: Então, vocês ainda não apresentaram este novo álbum lá fora…

TLL: Não. Nós fizemos foi uma mini tour, em Março, que foi a continuação da primeira, em que nós testamos este alinhamento, que estamos a testar agora. Nós pensamos “já que estamos a tocar, vamos tocar músicas do primeiro disco, mas também vamos testar músicas do segundo para ver a reação das pessoas. E foi muito positiva. Agora vamos ter a oportunidade de apresentar o segundo disco todo, na íntegra, lá fora.

EF: Sentem que são melhor recebidos pelo público estrangeiro por cantarem em inglês?

TLL: Claro! Sim. O facto de cantarmos em inglês foi mesmo com esse objetivo. Nós queremos chegar a um país como França ou Austrália ou Reino Unido e que as pessoas nos compreendam, porque é a língua mais falada do mundo e tem de ser. As pessoas têm de nos perceber.

Apesar de termos ido a países como a Eslováquia, em que as pessoas não sabem falar inglês, chegamos a cidades e havia para aí uma pessoa a falar inglês decentemente. E ainda bem que a encontramos, porque senão tínhamos de falar por mímica: Yes, “No”. A música, nesse caso, foi o que…

Apesar de ter sido em inglês e as pessoas não perceberem, acho que a música é o mais importante e a música juntou-nos a todos nessa noite e criou ligações em que o pessoal manda mensagem, mesmo escrito em eslovaco, já aconteceu. Por exemplo, no outro dia falaram da Roménia, em romeno escrito, “Nunca me vou esquecer do concerto que deram nesta cidade. Por favor, voltem.”… São cenas que eu vou ao Google Tradutor e fico… Pá, fogo, altamente! E foi tudo por causa da música, da nossa sonoridade.

Isso é o que nós queremos. Temos objetivos de voltar lá e de continuar e… Isto não vai ter fim. Nós queremos mesmo isto. Nós temos esta cena de planear. Planeamos sempre com muito cuidado todo o ano e já estamos a fazer programação para daqui a dois anos. Estamos com esses objetivos e é muito bom para uma banda… Nem que esteja a começar.

Nós somos uma banda que começou realmente em 2013. Temos três anos de banda e já temos três registos discográficos. Temos um EP, temos dois discos, temos uma tour europeia. Nós queremos é continuar. Esta é a altura certa para fazer isto. Todos nós reunimo-nos e dissemos “é agora ou não é?”. Temos essa mentalidade e é muito difícil encontrar isso numa banda e digo que sou muito sortudo por causa disso.

EF: Quais são as expectativas para o concerto de hoje, no Mêda +?

TLL: Este concerto vai ser uma espécie de celebração para nós, porque vai ser o último concerto da primeira parte da tour nacional de apresentação do disco. É incrível, após estas 20 datas, acabar neste palco, com bandas amigas como os Granada, como os Salto. É tudo malta do Norte, a malta conhece-se.

Estamos em casa e vamos fazer um alinhamento muito parecido com a tour de apresentação, mas também vamos tocar músicas do primeiro disco. Talvez quem sabe do EP… Do EP não vamos tocar! (risos) Eu costumo dizer essa cena, mas não é. Do primeiro disco vamos tocar de certeza e do segundo. Vamo-nos concentrar nisso, mas claro com o foco no segundo disco e nesta nova formação, porque há muito pessoal que ainda não… “Ok, vocês eram um trio há um ano e agora são um quarteto. O baixista é diferente. A sonoridade está diferente.”. Ainda estamos nesta fase.

Lemon Lovers vai ser sempre eu e o João e finalmente, passado este tempo todo, posso dizer que o Rolando e o Rui são o terceiro e o quarto elemento e finalmente estamos mesmo confortáveis. Acho que esta é a formação que define realmente os Lemon Lovers como eles são e o que é que nós temos na cabeça. Por isso, vai ser a nossa formação até não dar mais e duvido que tenha um fim, porque somos colegas, mas também somos grandes amigos. Isso é muito importante.

EF: Já conheciam o festival?

TLL: Claro! Sim! Já conhecia o festival e digo-te que a iniciativa que estes rapazes estão a ter… Pelo que eu percebi, é um grupo de 30 pessoas. Basicamente, são rapazes cá da zona, que se juntam uma vez por ano para organizar um festival e dá-lhes mesmo gozo fazer isto. Esta cena, para mim, é mesmo uma luz no fundo do túnel. Há pessoal mesmo com boa iniciativa e está a apostar em boa música e bandas emergentes como nós.

Desde o primeiro contacto que fiz com o Pedro e com o irmão dele, o André, percebi logo que isto é malta cinco estrelas, que é malta que está a trabalhar tudo para o mesmo lado e que estão a organizar e a fazer uma cena brutal. Ainda por cima, no interior de Portugal.

Hoje em dia o litoral está sobrecarregado… E isso, de estar sobrecarregado, é excelente, é muito bom termos música da segunda até ao domingo. Só que o facto de passar um bocado a atividade toda que há no litoral para o interior, isso é o que mais me dá gozo. O facto de estar aqui a fechar a tour nacional é das melhores sensações. Podemos considerar missão cumprida. Fizemos uma tour nacional, correu tudo muito bem, passamos por salas brutais e finalmente estamos a acabar num festival que nós acreditamos e gostamos muito.

EF: O que acham do cartaz?

TLL: Eles têm um cartaz fortíssimo. Já conhecia e já sou grande fã do festival, como disse anteriormente. Acho que apostarem neste tipo de cartaz é mesmo bom. É bom ter cabeças de cartaz nacionais. É bom ter bandas que estão a começar. É bom ter bandas que já estão assumidas e estão a construir carreira. Eles apostam nisso tudo, até por terem dois palcos.

Primeiro dia PAUS foi… Eu não estive cá, mas já os vi muitas vezes e é uma boa aposta, acredito muito na sonoridade deles. O facto de os Oioai terem voltado e terem estado cá foi brutal. O dia de hoje é tudo malta conhecida, tudo malta do Norte. Os Granada são pessoas incríveis. Já os conhecia desde O Bisonte, estou com eles na estrada muitas vezes, gosto muito deles. O Gualter, o Davide, o Hélder. Hmm… Os Salto também! O Tito… Fogo! É tudo lá da zona e é muito bom estar assim num festival com esta malta e termos esta oportunidade. Orelha Negra no último dia vai partir tudo, como sempre. Já os vi no Super Bock há dias e foi um concerto memorável. Bed Legs, de Braga, é muito boa cena também.

Gosto mesmo muito do festival. Acho que apostaram em bons cabeças de cartaz e boas bandas emergentes. É esse o caminho e vale sempre a pena dar a conhecer bandas novas ao pessoal.

EF: Como se sentem por ser um festival gratuito? Sentem que esse fator pode influenciar o tipo de público, por exemplo?

TLL: Eu acho uma iniciativa mesmo brutal, porque estão a dar a conhecer bandas novas a zero. O bilhete é zero. A entrada é gratuita. O campismo é gratuito. Não há desculpas! Eu acho que é essa a mentalidade. Não há desculpas para não vir! E têm a oportunidade de conhecer cenas novas… Acho que aqui no interior, ainda nesta fase, acho que é muito por aí…

Eu imagino se este festival tivesse um bilhete, um bilhete diário… E acho muito bem! Não sei se é essa a opção deles, se é esse o objetivo deles. Lá está, eu pagava para estar aqui e pagava para ver bandas novas. Eu tenho a ideia e tenho a noção que o pessoal aqui no interior é mais mente fechada e acho que esta é a única maneira de conseguir arrastar o pessoal todo para aqui. Nem que seja por curiosidade. Acho que é a única maneira de obter adesão. Tem tudo a ver com a localização e com a mentalidade do pessoal que habita esta localização. Se perguntares das pessoas que estão aqui, quantas são realmente daqui, se calhar ficas surpreendida.

Há muito pessoal que se desloca para vir aqui, para passar uns bons três dias, curtir um bom som, beber uns bons finos e estar na boa. E para o ano vou estar cá, de certeza! É a primeira vez, que estou cá neste festival. Já conhecia, mas nunca tive a oportunidade de vir ao festival. Mas estou convencido! É apostar mais no interior.