Era inevitável. O terceiro e último dia da 7.ª edição do Festival Mêda+ chegou e, com ele, um misto de emoções. Se, por um lado, a tristeza do fim era em demasia. Por outro, a riqueza do cartaz entusiasmava. A despedida contou com as atuações de Orelha Negra, Her Name Was Fire, Bed Legs, Mauro Barros, Luís Severo e Duquesa.

Adeus, Palco CTT

É em posição horizontal (que é como quem diz: deitado na relva) que o público observa a atuação de Luís Severo. Num registo a que o Palco CTT já nos habituou, a música espalha-se sem grandes artifícios pelo ar etéreo e chega o momento de plena descontração e abstração.Mêda + 2016, Luís Severo

Luís Severo canta então para um Parque mais cheio do que o habitual, num concerto intimista que termina com uma música sobre a terra dos avós. A razão? Nunca tocou tão perto desse local.Mêda + 2016, Duquesa

Num registo muito semelhante ao de Luís Severo, segue-se Duquesa. Em ambos impõe-se a perspetiva do indivíduo, que apenas é acompanhada por uma guitarra elétrica. Refletindo sobre a passagem do tempo e dos seus 26 anos, Nuno Rodrigues expõe aquilo que designa de “curva decrescente dos 20” e acrescenta “Obrigado por me receberem em Mêda, neste período de transição”. Após alguns temas, admite que as suas composições abordam questões “quotidianas” e “mundanas”.

Noite fria, coração aconchegado

Her Name Was Fire marca o início do fim. O primeiro concerto no recinto de Santa Cruz, no último dia de festival, tem como protagonistas o duo João Campos e Tiago Lopes. Se não os víssemos, pensaríamos que seriam mais pessoas em palco. Mas não. São apenas duas e não é preciso mais.Mêda + 2016, Her Name Was Fire

A experiência tem-nos dito que é difícil abrir o palco principal do Mêda + e este terceiro dia não foi exceção. À hora do início do concerto, o recinto encontrava-se quase vazio. Fator que pouco afetou a performance deste duo. Num concerto sólido, Her Name Was Fire mostraram ser capazes de dar ao público o que se propõem a dar: um stoner rock robusto e de grande qualidade.

O feedback do público é escasso, mas o pouco headbang que se vê poderia muito bem ser o impacto visual de um terramoto. É apenas na última música que a frontline sente calor humano. Dois homens, duas vozes, uma guitarra e uma bateria. Foram estes os ingredientes que Her Name Was Fire usaram e o resultado final foi escaldante. É que nem o frio que se fazia sentir conseguiu esfriar esta atuação.

Segue-se Bed Legs e a atmosfera no recinto muda radicalmente. Com um público motivado e pouco tímido, o concerto começa com uma frontline preenchida e agitada. Vicious e Black Bottle são das primeiras músicas a ecoar pelo recinto e o público rende-se quase de imediato. É na figura irrequieta de Fernando Fernandes que a banda detém o trunfo para uma atuação impetuosa.Mêda + 2016, Bed Legs

Wrong Man e Try vão aquecendo o público, mas é com The Fight que a 7.ª edição do Mêda + vê o seu primeiro mosh acontecer. Um ambiente intenso que se encrespa com a descida de Fernando Fernandes ao público: colocando-se na perspetiva oposta, observando os restantes elementos da banda (que continuam a tocar) e dançando com aqueles que têm sentido o concerto desde o seu início.

É um bom ambiente aquele que se sente no recinto de Santa Cruz, com um público desinibido, que salta e bate palmas ao ritmo da música e que não se retrai na demonstração do seu agrado. O desenrolar dos temas, bem como o instrumental que os caracteriza, continua a pedir mosh e o público não se acanha. Rock & Roll marca o fim do concerto. Ao público que pede “só mais uma”, Hélder Azevedo responde “Não é por nada, é só mesmo porque não temos”. Em tom de agradecimento, Bed Legs juntam-se e denunciam “uma vénia a vocês” que concretizam logo de seguida.

Todos sabemos o que vai acontecer agora. Orelha Negra são os cabeças de cartaz deste último dia e há expectativas impossíveis de ignorar. Em formação de semicírculo, Orelha Negra preenchem o palco de ponta a ponta. No lado esquerdo, Sam The Kid e DJ Cruzfader. No lado direito, Francisco Rebelo e João Gomes. No centro, Fred Ferreira.

Uma disposição que põe em destaque cada um deles, individualmente. Outro facto digno de ser mencionado é o equilíbrio que existe entre estes cinco músicos. Uma das maiores expectativas quanto a este concerto era, sem dúvida, o público – que não faltou à chamada e apareceu em peso.Mêda + 2016, Orelha Negra

Sem números certos, quase poderia jurar que Orelha Negra levou a maior enchente à 7.ª edição do Mêda +. A postura que assumem em palco é distintiva e muito própria: não houve qualquer comunicação direta com o público e, honestamente, esta é totalmente dispensável. A comunicação em Orelha Negra acontece através da música e o público mostra que compreende esta linguagem.

A sincronização das luzes é um dos efeitos visuais com mais impacto e demonstra que os concertos de Orelha Negra são pensados. O resultado é sempre o mesmo: um concerto com uma qualidade inegável. A verdade é que Orelha Negra são bons no que fazem e nunca desiludem.

Solteiro, A Sombra e M.I.R.I.A.M. são alguns dos originais que dominaram todo o recinto. A estas juntaram-se alguns hits internacionais, que todos conhecemos, como Bitch, Don’t Kill My Vibe, de Kendrick Lamar, e Hotline Bling, de Drake. Sim, porque os Orelha Negra têm a particularidade de conseguirem tornar seu não só os seus originais, como também alguns temas de outros artistas. Esta apropriação resulta pela originalidade na interpretação e pelo cunho pessoal que Orelha Negra lhes dá. Enfim, um concerto que encheu o recinto e que tornou o último dia desta edição do Mêda + memorável.Mêda + 2016, Mauro Barros

Estava ainda o recinto a recuperar do concerto que tinha acabado de ver, quando Mauro Barros sobe ao palco. E se, no início, a quantidade de pessoas no recinto poderia ser resultado do chamamento de Orelha Negra, com o início do set percebemos que a permanência destas se devia exclusivamente à energia e boas escolhas do DJ agora em palco. Mauro Barros proporcionou a festa de encerramento que o Mêda + merecia.

Fotografias: Mónica Azevedo