Apsarases são criaturas místicas que dançam para agradar os Deuses hindus. São seres que dão tudo o que têm para com o seu corpo contar histórias, influenciar mentes, criar novos ideais.  Apsarases é também a rubrica mensal do Espalha-Factos em que um redator escolhe um momento do mundo da dança que o tenha marcado e que sinta necessidade de realçar. Hoje trazemos Babel (Words) de Sidi Larbi Cherkaoui e de Damien Jalet.

A história da Torre de Babel já é por todos conhecida. A procura do poder divino por parte dos Homens levou a que várias línguas surgissem, os desentendimentos começassem e a sociedade humana, que até então vivia em harmonia e paz, se tornasse numa comunidade caótica cheia de problemas.

O fim da língua comum e o aparecimento de diferentes línguas, segundo a história, levou a que os Homens perdessem o sentido de identidade comum e de união. A igualdade deu lugar às diferenças e os sentimentos de narcisismo abafam a necessidade de altruísmo.

O famoso coreógrafo Sidi Larbi em parceria com Damien Jalet criou uma performance atual e arrebatadora. Babel (words) é um espectáculo que se baseia nas diferenças linguisticas e a relação destas com identidade, nacionalismo e religião.

 

De uma enorme dimensão, cinco grandes torres, ou jaulas, são movida por todo o palco pelos próprios interpretes. Estas grandes esculturas metálicas tanto se assumem como casas, como barreiras entre grupos. Na terra de ninguém, num lugar que parece não ter nada de identificável bailarinos, músicos e cantores todos juntos num mesmo palco desenvolvem diferentes papéis que combinam e se completam. As dicotomias que as ciências sociais tanto falam (privado/público, individual/coletivo) são exploradas no seio de uma comunidade onde espaço, poder e fé estão em constante disputa.

Fotografia: Koen Broos

Fotografia: Koen Broos

Os 21 interpretes vão desenvolvendo uma coreografia inteligente onde as referências ao mundo em que vivemos são evidentes. A robotização das pessoas, com trabalhos repetitivos, é um dos momentos levados ao extremo. Pequenos movimentos muito rápidos e sempre iguais são repetidos por todos em palco. Numa referencia ao cinema, um verdadeiro transformer é criado: do corpo de um bailarino os outros vão construindo extensos membros, armas e até bombas originando uma espécie de máquina do mal aniquiladora que no fim se assume como rei e senhor de todos.

Fotografia: Koen Broos

Fotografia: Koen Broos

Com estreia em 2010, Babel revela-se uma obra com um olhar crítico muito atual. Estando o mundo envolto num manto de caos e terror, onde a ideia de união ou de identidade parecem ter-se esfumado e cada povo prefere olhar para o seu umbigo e ignorar o vizinho do lado, esta performance revela este estado de confusão. Mais do que um apelo à ação, Babel é um retrato assustadoramente real daquilo que há muitos anos se previa. Fronteiras que são mais do que tudo espaços elásticos de partilha, transformam-se em barreiras físicas. Línguas, religiões e etnias diferentes originam maiorias e minorias, guerras e demasiadas mortes. A ideia de comunidade e o conceito de igualdade perdeu-se. E aqui nos encontramos nós, imóveis, assistindo a imagens como se de uma performance apenas se tratasse.

Fotografia: Koen Broos

Fotografia: Koen Broos