Vasco Santana e Beatriz Costa são duas das maiores figuras do cinema português. Apesar de ambas estas carreiras já terem terminado há muito tempo, os atores foram para sempre imortalizados em 1937, quando o povo os elegeu como “príncipes do cinema português”. Apesar de terem participado em outros filmes que se tornariam clássicos (O Pátio das Cantigas e A Aldeia da Roupa Branca), A Canção de Lisboa é a obra que mais marcou as suas carreiras.

Sob a realização de Cottinelli Telmo, este filme iniciou uma Era de Ouro no cinema português. Para além de ser a primeira longa-metragem sonora feita em Portugal, também serviu de modelo para as comédias nacionais que se seguiram. Mesmo após sair das salas, a popularidade de Canção de Lisboa não diminuiu, sendo que permanece uma presença assídua na televisão há mais de meio século (a sua primeira emissão foi em 1957). Será que o filme realmente merece a reputação elevada que tem? Descobrir isso é o objetivo principal deste Hollywood, tens cá disto?.

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A história segue Vasco Leitão (Vasco Santana), um estudante da Faculdade de Medicina de Lisboa. Vasco é um boémio que parece nunca mais conseguir terminar o seu curso. Apesar disso, ele mente às suas tias provincianas ricas, dizendo que já é doutor e que tem um “riquíssimo consultório”. Nunca tendo ido à capital, elas decidem fazer uma visita a Vasco, o que o força a arranjar formas mais criativas de manter a mentira. Para este fim, Leitão alia-se ao Alfaiate Caetano (António Silva), o pai da sua namorada Alice (Beatriz Costa), que entra no esquema com a condição de ficar com parte do dinheiro da eventual herança das “velhotas”.

Com esta história, não há qualquer tema moral a ser exposto ao espetador, o propósito é pura e simplesmente o de entreter. Felizmente, essa é a especialidade de Vasco Santana e Beatriz Costa. Os atores são igualmente carismáticos, compensando as falhas apresentadas pelas suas personagens. Para além disso, o tipo de diálogos é extremamente natural. Em 1933 também estava a ser lançado Os Grandes Aldrabões nos Estados Unidos da América, e deve-se salientar o alto contraste de método de atuação, sendo que Hollywood ainda seguia um estilo de atuação relativamente “teatral”.

Problemas surgem na escrita das próprias personagens. Vasco Leitão é propositadamente egocêntrico, e apesar de tal facto abrir a possibilidade de uma jornada na qual ele possa aprender com os seus erros, isso nunca chega a acontecer. Algumas das suas características mais negativas acabam por ir desvanecendo, mas não devido a uma auto-reflexão ou vontade de melhorar, apenas devido ao filme estar quase a acabar e precisar de uma resolução. Há assim uma falta de estrutura na jornada de Vasco, com diferentes eventos a ocorrerem sem qualquer consequência entre si.

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A fotografia também não é muito impressionante. Esta é usada apenas para mostrar o que se está a passar e é raro ver um enquadramento que mereça destaque. Apesar disso, o uso de câmara em movimento ajuda na dinamização da história. O som é bom para a altura, com a exceção de uma cena em que este parece desaparecer completamente.

Apesar destes problemas, e da sua reputação o ter elevado a um nível acima da sua qualidade, este é um filme que permanece um importante marco histórico no cinema português. Com a ajuda de performances louváveis, especialmente por parte de Vasco e Beatriz, esta é uma obra que capta na perfeição o espírito português.

Ficha Técnica:
Realizador: José Cottinelli Telmo
Argumento: José Cottinelli Telmo e José Galhardo
Elenco: Vasco Santana, Beatriz Costa, António Silva e Manoel de Oliveira
Duração: 85 minutos

7/10