No dia em que se assinalam cinco anos da morte de uma das vozes mais icónicas que o mundo já ouviu, o Espalha-Factos faz uma homenagem ao legado de Amy Winehouse, a criadora da receita perfeita entre o soul, o jazz e o R&B.

Criada numa família de músicos e com fortes ligações ao jazz, Amy Winehouse sempre gostou de cantar, mas nunca pensou em ser cantora. Pode não ter sido por ambição, mas certamente por paixão, que Amy entrou numa relação séria com uma guitarra acústica e um caderno de canções, ainda na tenra idade dos 15.

Felizmente para nós, estavam alinhados os planetas: uma voz contralto, expressiva, única e apaixonante estava prestes a entrar no panorama musical britânico, para depois envolver o mundo todo na sua teia de soul, jazz e R&B.

Foi no de 2003 que a cantora se estreou na “primeira divisão” da música, com o álbum Frank e o êxito imediato Stronger Than Me. Ainda assim, o lançamento internacional de Amy Winehouse viria a acontecer uns anos mais tarde, em outubro de 2006: Back To Black, o segundo álbum, trouxe oficialmente de volta a onda soul de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan que o mundo achava estar esquecida, fazendo aparecer na ribalta a cantora que trouxe consigo toda a vibe da década de 60. Mas o que acendeu o rastilho da explosão de sucesso de Amy Winehouse?

Como a década de 2000 na sua generalidade, o ano de 2007 foi fortemente marcado pela música pop e o que hoje apelidamos carinhosamente de mainstream: Beyoncé tornou-se Irreplaceable, Rihanna descobriu a importância de um Umbrella (e o romance com Chris Brown estava ainda bem abrigado), Fergie chegou à conclusão de que Big Girls Don’t Cry e Avril Lavigne (oh, Avril) ainda estava a tentar ser a Girlfriend de substituição de um rapaz qualquer. A música internacional estava bem servida de hinos pop e que ainda hoje não passaram de moda.

É neste panorama que Amy Winehouse marca pela diferença: chega-nos uma jovem de 23 anos, de presença desconcertante e algo misteriosa, cabelo preto arranjado num boémio beehive que, ocasionalmente, incorporava uma bandana, eyeliner preto carregado e pele coberta de histórias tatuadas.

O estilo de Winehouse, completamente inspirado nos anos 60 que também eram relembrados pela sua voz, não era nada do que estava na moda, mas sim tudo o que a artista se orgulhava de ser. Mesmo na sua música inconfundível, não havia como ignorar a genialidade das letras: emotivas e sinceras de um modo (às vezes) quase cruel, sem dispensar o tom crítico das palavras, todas baseadas em experiência pessoal – porque esta, tal como o cartão de cidadão, é sempre pessoal e intransmissível. Para Amy, era aqui que residia a particularidade das canções que escrevia.

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Amy nos MTV Europe Music Awards, em 2007

É certo e sabido que Amy Winehouse nem sempre foi reconhecida pelos melhores motivos e que serão eles o primeiro pensamento de muita gente (que não é fã) mal se pronuncia o nome da cantora. A sua carreira esteve inúmeras vezes ameaçadas por alguns dos problemas que faziam parte do seu historial desde muito cedo: um passado marcado pela bulimia, grave vício em álcool e vários tipos de drogas perseguiram Winehouse até ao fim da sua curta vida.

O primeiro grande êxito do seu segundo álbum, Rehab, mostra-nos de relance a batalha de Amy com a reabilitação, que tantas vezes tentou e que nunca surtiu o efeito desejado. A controvérsia que rodeava a artista, também impulsionada por uma relação aparentemente conturbada mas assolapada com Blake Fielder-Civil (de quem mais tarde se divorciou), tornou-a num alvo bastante apetecível dos media: as batalhas constantes com paparazzi (no mínimo) inconvenientes , aparições em condições menos felizes em público e atuações falhadas, em que chegou a ser vaiada até sair do palco, eram acontecimentos rapidamente espalhados por todos os canais de informação possíveis e imaginários.

Ainda assim, se a desgraça mediática que envolveu Amy Winehouse durante grande parte da sua inesquecível carreira nunca a impediu de continuar a ser quem era e de percorrer o seu caminho da música, teve um efeito de desgaste nas suas performances e na vontade de as realizar, sequer.

Nos últimos meses de vida, Amy alegava estar demasiado cansada e desmotivada para cumprir a tournée que tinha prometido aos fãs, nomeadamente no tão famoso (e trágico) concerto em Belgrado, na Sérvia. A artista acabou por perder a vida num episódio fatal que combinou o consumo abusivo de álcool com o debilitado estado de saúde, fazendo-a juntar-se ao Clube dos 27, já composto por Kurt Cobain, Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix.

Amy Winehouse fez renascer o soul e o jazz, deixou para trás uma vasta legião de fãs inconformados e abriu portas para que novas vozes, cuja semelhança à cantora é notória, marcassem a diferença no panorama da música – tais como Adele e Duffy, que foram uma lufada de ar fresco para a era do estilo pop.

Faz hoje cinco anos que Amy Winehouse nos deixou, mas nunca a deixaremos morrer.