Surge muitas vezes a questão: Quem foram os escritores mais emblemáticos do século XX em Portugal? De certeza, que na lista da maioria dos leitores aparecerá Fernando Pessoa e José Saramago. O poeta e o romancista estão juntos no palco do Teatro A Barraca. O Ano da Morte de Ricardo Reis saiu do livro escrito por Saramago para a peça encenada por Hélder Mateus da Costa

Em dezembro de 2015, o Teatro A Barraca estreava Clarabóia, o primeiro romance escrito por José Saramago, em 1952. O ciclo do Nobel português continua e a passagem foi feita por um dos seus romances com mais maturidade: O Ano da Morte de Ricardo Reis. O livro publicado em 1984 tem como figura principal um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis.

Médico e Monárquico, Ricardo Reis foi para o Brasil em 1919, por vontade própria. No livro, Saramago faz com que Reis volte a Lisboa e morra no ano 1936. Adérito Lopes enverga o fato claro do médico no palco da Barraca. Desembarca em Lisboa para se instalar no Hotel Bragança e logo encontra a desconfiança do empregado Salvador (Samuel Moura) de um país em ditadura. Por Lisboa, conhece Lídia (Sónia Barradas), que se torna empregada e amante, e Marcenda (Carolina Parreira), com um simbólico problema no braço esquerdo. É um ano agitado para Ricardo Reis, que é investigado, perseguido e interrogado pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado).

De facto, 1936 é um ano de muita agitação. Mussolini invade a Etiópia, Hitler persegue cada vez de forma mais intensa os judeus, faz 10 anos do golpe militar de 28 de maio de 1926, o pontapé de saída do fascismo em Portugal. Mas em palco é ano de muito mais. Ricardo Reis regressa a Lisboa e isso é motivo de muita ação.

1) A desconfiança reina em palco

A “pevide” como Lídia destaca na peça e como era conhecida a PVDE, polícia antes da PIDE, está na peça a observar as movimentações de Ricardo Reis. 1936 era um ano de profunda censura e lugar de espionagem em Portugal e na Europa. Hitler fazia discursos na Alemanha nazi, Mussolini liderava a Itália fascista e Franco começava a guerra civil para instalar a ditadura em Espanha. Salazar controlava Portugal. A desconfiança está nas personagens mais humildes como o Salvador do hotel, nas que envergam a gabardina ou no Dr. Sampaio (João Maria Pinto), um assumido franquista.

2) Está lá Fernando Pessoa, mas não é o que se imagina

Em 1935, uns meses antes da morte de Ricardo Reis, faleceu Fernando Pessoa. Contudo, Saramago colocou o seu “fantasma” na ação da história em diálogo com Fernando Pessoa. Mas bem, na peça da Barraca, não é bem o Fernando Pessoa reservado e de expressão mais fechada que se imagina. Ruben Garcia interpreta um Fernando Pessoa extrovertido, com um riso mecânico (quase como tivesse reminiscências da poesia mecânica de Álvaro de Campos) e com um humor causado pelo ridículo das suas ações (o poeta vai festejar o Carnaval ou chora quando sabe que não leram os seus poemas) ou das suas palavras.

Este Fernando Pessoa é difícil de agarrar. Não pela estranheza da cara com ‘pó’, mas pela gestualidade acelerada e o palavreado desenrascado e por vezes “pouco poético”. Contudo, o andamento da peça é determinantes para se criar uma ligação. Fernando Pessoa (Ruben Garcia) é a interpretação mais assertiva e com personalidade. Caso para dizer: “Primeiro estranha-se e depois entranha-se”.

Marcenda, Fernando Pessoa e Ricardo Reis. Foto: Luis Rocha

Marcenda, Fernando Pessoa e Ricardo Reis. Foto: Luis Rocha

3) Conhecemos a História através da rádio e do jornal

1936, O Ano da Morte de Ricardo Reis é também uma peça pedagógica. Ao longo da 1h30 que decorre, vão sendo projetadas passagens históricas através de imagens de capas de jornais ou do rádio do quarto de Ricardo Reis. Como meios que dominavam na altura, é um bom ajudante no fio condutor para o espectador. Assim como a ida ao Teatro Nacional com a peça Tá Mar, a distração das noites lisboetas para a elite representada pelo Dr. Sampaio e a sua filha, na peça.

4) Lisboa menina e moça, com gaivotas e… sempre em obras

“Aqui o mar acaba e a terra principia”, assim começa o livro de Saramago, com a inversão do verso “Onde a terra acaba e o mar começa”. Ao contrário de Camões,que explorou a expansão portuguesa pelo mundo n’ Os Lusíadas, Saramago preferia falar dos portugueses em Portugal, como é o caso de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Por isso, colocou Lisboa na História. Também os principais ingredientes lisboetas estão em cena.

Desde a Gaivota cantada por Carlos do Carmo ou a calçada portuguesa no fosso, há espaço ainda para miradouro do Adamastor acompanhado pela referência ao Monstrengo, de Pessoa. São estes pequenos elementos que fazem o público sentir-se na capital portuguesa, que parece sempre ter sido daquela forma. E como o texto é de Saramago, um assumido crítico, porque não relacionar a actualidade a 1936? Pois bem, parece que até Ricardo Reis se queixava por Lisboa estar sempre em obras. “Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera”, termina Saramago no livro, é Lisboa.

5) A poesia de Pessoa está na estória de Saramago

Nenhuma das declamações, quer de Adérito Lopes (Ricardo Reis) ou Ruben Garcia (Fernando Pessoa) é genial. Falta assertividade na forma como dizem os versos do poeta. Mas é determinante a inserção do poeta na estória e não se pegam ao livro e aos tempos criados pela escrita de José Saramago. De destacar a colocação de Coitadinho/ do tiraninho!/ Não bebe vinho./ Nem sequer sozinho… dirigido a Salazar e escrito por Pessoa, mais uma vez uma colocação no ponto na linha de Saramago.

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O Mostrengo é referido na peça. Foto: Luis Rocha

Ponto forte: Dá-nos a conhecer o ano e o livro com originalidade

Não é novidade que as peças da Barraca sejam dinâmicas e que joguem com a realidade de uma forma descontraída e desconstruída. Também é esta uma das marcas de Hélder Costa. Desta vez, consegue-o com o texto de um poeta e romancista, nem sempre muito fáceis de analisar.

Ponto fraco: Há personagens  que não tem personalidade

Se Fernando Pessoa, de Ruben Garcia, consegue criar uma relação com o público, o mesmo não se pode dizer das restantes. Ricardo Reis, de Adérito Lopes, é inconstante, mais do que era suposto ser. A mudança que faz do português de Portugal para o português do Brasil torna-se confusa. Este é um pormenor que em vez de intensificar a personagem a torna oscilante.

Lídia, de Sónia Barradas, é apagada e passa demasiado rápido pelos diálogos.  Onde está o enlace das mãos entre Reis e Lídia? Não é sentados à beira rio que o fazem de certeza. Talvez as tenham mesmo desenlaçado, mas com pouco expressão, pelo menos na peça.

Podes ver a peça até 31 de julho, consulta aqui mais informações.