O segundo dia do festival proporcionou alguns dos melhores concertos aos visitantes até à data.

Dia dois do Super Bock Super Rock, e uma análise do dia anterior traria, pelo menos parcialmente, alguns desapontamentos: os dois cabeças-de-cartaz haviam falhado em superar as expectativas que granjearam, apesar de Jamie xx e Kurt Vile terem feito muito boa figura debaixo do Pavilhão de Portugal. Novo dia, novas expectativas, e com actos principais da magnitude de Massive Attack e Iggy Pop, antecipava-se mais uma vez um grande dia no Parque das Nações.

E porque não começá-lo com duas talentosas bandas portuguesas em ascensão? Passando pelo Palco Antena 3 ao início da tarde de concertos, o visitante deparar-se-ia com Basset Hounds, jovem grupo assinado pela NOS Discos que tem conquistado apoiantes com a sua mescla de pós-punk, britpop e a pontinha da estética do shoegaze. Em palco, apresentaram o seu disco homónimo de 2015 com uma ferocidade admirável, numa execução que dificilmente denunciaria a sua inexperiência.

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Com o mesmo grau de sucesso atuaram PISTA, aproveitando o ímpeto deixado pelos colegas par aumentar o passo do festival a 110%. Não se encontrou, até ao momento (e dificilmente se encontrará) uma banda de tanto ímpeto em palco quanto este trio do Barreiro: implacáveis na performance dos seus riffs, assumem a rapidez e a energia como suas principais armas, e com elas não deixaram que o público ficasse parado, num concerto que gerou uma comparência invulgar para tão cedo num festival – e justificadamente.

A progressão até horas mais tardias traria mais dois concertos bastante apreciáveis, embora por motivos diferentes. A primeira instância da noite no Palco Super Bock, vulgo MEO Arena, seria dos ressuscitados Bloc Party, que apesar de já terem deixado o pico da sua fama (e talento) algures nos anos 2000 deram um bom espectáculo para os fãs que compareceram.

Havia, é claro, uma discrepância abismal entre os momentos algo monótonos que advinham do mais recente Hymns (2016) e as gigantescas ondas de saltos que faziam brotar do público com as canções mais antigas (Banquet, Hunting for Witches, Positive Tension e Helicopter foram óbvios destaques), mas alguma técnica instrumental e uma interacção saudável com a plateia fizeram da totalidade do espectáculo uma boa experiência.

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A Bloc Party seguia-se, no Palco EDP, a dupla canadiana-dinamarquesa de Rhye, uma aposta interessante que foge ao registo habitual do Super Bock Super Rock e que, sendo naturalmente prejudicada pela sobreposição com Iggy Pop, deu frutos bastante vistosos. Uma quebra com as atuações frenéticas que até aí se tinham visto, Rhye consistiu num R&B descontraído, colorido, a puxar tanto para o melódico quanto para o rítmico e com um trabalho de improvisação impressionante. Os temas do seu début Woman soaram divinais com o cair da noite no Parque das Nações, com destaque para a excecionalmente dançável The Fall.

O intemporal (e pouco vestido) Iggy Pop

Foi com esta bagagem que se dirigiram os festivaleiros aos principais espetáculos da noite, o primeiro deles comandado pelo intemporal Iggy Pop. E houve pouco que Iggy Pop não tenha feito para agradar à volumosa multidão que se concentrava à sua volta no Meo Arena.

Na plenitude do seus 69 anos, saltava, corria de um lado para o outro do palco e exibia para as câmaras a sua já conhecida pose de rockstar em tronco nu, para delírio da plateia incrédula. Para isso contribuiu também a excelente companhia que tinha em palco, e que ia dando corpo às canções novas e antigas que compõem o repertório de Iggy, mas não era segredo que estavam todos lá para o ver no que tem de mais lendário – êxitos como Lust For Life foram os mais efusivamente aplaudidos e cantados num espetáculo que teve tudo para persistir na memória.

Do espetro oposto da idade, Mac DeMarco e a sua banda davam outro concerto de rock que não merecia ser perdido. Exibindo orgulhosamente o seu impressionante talento para a criação de clássicos instantâneos pop, o canadiano de 26 anos passaria por muito mais jovem em palco, tão imaturas eram as suas brincadeiras entre canções.

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Passavam por um pouco de tudo, desde competições de gritos ao microfone a beijos mútuos na barriga, mas para quem já conhece a personagem não passou de um brinde inerente e indispensável à sua inconsequente personalidade. Não era como se isso fosse o que contasse mais: com o som calibrado e a atitude no sítio, deslumbrou com performances de Another One, o seu último EP, e uma mão cheia de canções de trabalhos passados (Freaking Out the Neighborhood, Salad Days, My Kind of Woman).

Um ataque às consciências

Mas o melhor seria, inevitavelmente, deixado para o final: mais grandiosos que a palavra pode descrever, Massive Attack foram os indiscutíveis donos da noite, numa performance que se constituiu em simultâneo dinâmica, fervorosamente intensa e, mais importante que isso, consciente.

De facto, foi cheia de paradoxos a atuação dos britânicos, que não se contentou pelo corriqueiro ou pelo superficial. Durante todo o espetáculo, o público era bombardeado com mensagens que o forçavam a confrontar-se com a sua própria realidade: por que razão continuamos a tolerar os homicídios em massa que todos os dias ocorrem ao redor do mundo? Ou a destruição do nosso património ambiental e cultural com o passar dos séculos? Ou o facto de a comunicação social privilegiar informação inútil em detrimento das verdadeiras questões?

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A verdadeira beleza vinha, no entanto, no facto de, por mais sufocante que esta “overdose” de consciência ideológica pudesse parecer, era um pouco libertador ver uma banda expressar-se com tanta frontalidade sem parecer condescendente ou paternalista no processo. E fazê-lo, é claro, com a melhor das bandas sonoras: com o apoio de Azekel, Deborah Miller e Young Fathers (com apenas 4 canções interpretadas com o grupo, foi algo desnecessário ter publicitado o evento como “Massive Attack & Young Fathers”, mesmo sendo duas delas covers dos mesmos), maravilharam com faixas como Voodoo in my Blood, Safe From Harm ou Unfinished Sympathy.