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Foto: Teatro Aberto

Constelações: uma história de amor e a teoria quântica da cosmologia

A história é simples, mas a forma de a contar é muito invulgar. É esta a principal característica da peça a que assistimos no passado dia 7, no Teatro Aberto. Chama-se Constelações e foi estreada em 2012, no Royal Court Theatre, em Londres, pelo dramaturgo britânico Nick Payn.

De Londres para Lisboa

Agora em Portugal, o espetáculo tem encenação de João Lourenço, dramaturgia de Vera San Payo de Lemos, uma adaptação de ambos do texto original, e conta com a interpretação de dois talentosos atores e bem conhecidos do público, Joana Brandão e Pedro Laginha.

Com tanto de igual e de diferente ao mesmo tempo, Constelações é um espetáculo invulgar em que apenas dois atores representam um número infinito de situações, através de uma narrativa em permanente desconstrução. Aqui, a vida pode assumir uma miríade de formas em simultâneo e todos os futuros são possíveis.

O cenário também conta…

Surpreendidos? Não mais do que nós. Após esperarmos a concentração de todos os convidados na receção do teatro, e depois de finalmente começarmos a descer a escadaria que levaria à Sala Vermelha, apercebemo-nos logo ali, que o cenário era já alusivo ao tema. Antes mesmo de entrar, as luzes azuladas no teto e os pontos claros na parede davam uma pequena pista para o que estava para vir.

Ao entrar, salta mais uma vez à vista o cenário. A sala é intimista, o público quase que toca no palco. Mas aqui não existe um só palco nem um pano vermelho. Existem sim três palcos redondos, um a direito no meio, e outros dois ligeiramente inclinados nas pontas. Do teto surgem bolas de aço, em representação dos astros e estrelas alinhados, e as luzes criam um ambiente que nos transmite a sensação de quase levitar pelo espaço.

Uma história e ‘mil e um’ desfechos diferentes

Com base na teoria do multiverso quântico, que propõe a existência de universos paralelos, várias dimensões do espaço e do tempo e múltiplas versões de cada um de nós, esta é a história de Mariana e Rodrigo que se cruzam em diferentes universos e situações com infinitas possibilidades de desfecho.

Começamos por testemunhar o primeiro encontro de ambos, num churrasco de uns amigos que têm em comum. Ela é cosmologista, introduz dados científicos num computador e trabalha na universidade; ele é apicultor e vive das vendas do seu mel e outros produtos. Ambos trabalham com assuntos da natureza. Num primeiro universo as coisas não resultam, porque ele revela que tem namorada. Mas, noutro dos cinco ou seis universos apresentados, a relação dele terminou e os dois sentem-se logo atraídos.

Assistimos depois à primeira noite na casa de Mariana, onde mais tarde vivem também juntos. Posteriormente surgem discussões e, inclusive, a confissão de uma traição. Num universo é Mariana que trai Rodrigo, noutro é Rodrigo quem confessa o seu erro. E aí é que separam.

Encontram-se, mais tarde, numa aula de dança. Os motivos são vários: casamentos de familiares, perder peso, passar o tempo, ou mesmo estar noivo(a). No final, estão ambos solteiros e esse reencontro desperta novamente a chama, acabando num encontro. Mariana e Rodrigo reatam a relação.

Seguidamente surge o pedido de casamento em cinco universos diferentes. No primeiro Mariana diz que tem que pensar. No segundo universo, recusa-se a passar aquela ‘vergonha’ e pede-lhe que se levante. Na terceira e quarta cenas, o discurso de Rodrigo sobre a vida e morte das abelhas não corre bem. O sim? Esse só chega no quinto pedido, finalmente.

Há também um universo em que a felicidade do casal é posta em causa por uma doença de Mariana, que ao longo da peça vai sendo referida. Um tumor no cérebro que lhe causa dificuldades gramaticais e a prejudica tanto na fala como na escrita. Vêem-se diferentes reações do casal à situação.

No entanto, confrontada com a possibilidade da morte, que já tinha visto acontecer com a sua Mãe, Mariana considera a eutanásia. Desiste dessa ideia num cenário, por ver a tristeza de Rodrigo. Mas, noutra vida, o seu tumor afinal é benigno e Mariana avança apenas com o tratamento para voltar a ficar totalmente bem e viver por completo o seu amor com Rodrigo.

Este vaivém de episódios, todos distintos, têm, contudo, um aspeto em comum. Mariana debate-se diariamente pela busca do conhecimento e pela necessidade de provar os conceitos abstratos, tão frequentes na área em que trabalha. Rodrigo, por outro lado, convive cara a cara com a Natureza e tem uma postura simples perante a vida. E é este contraste que surge em todas as situações, a calma do elemento masculino com as dúvidas da sua amada.

Porém, não é isso que influencia cada desfecho, mas sim o universo em que se encontram. Pois, como Mariana afirma e como mais tarde surge também projetado na tela, «somos apenas partículas governadas por uma série de leis muito particulares, aos tombos aí por todo o lado», e tudo à nossa volta tem uma grande influência na maior parte das nossas escolhas.

O autor e a sua própria história

Em Constelações, de cena para cena, existem pequenas alterações, que podem despertar interpretações diferentes no espectador. Chega a parecer confuso, quase como um ensaio que se repete vezes sem conta, mas, no fundo, faz todo o sentido. E mais sentido faz quando fomos levados a conhecer a história do autor…

Nick Payn, na procura de significados para a perda do seu pai, falecido há pouco tempo, encontrou um texto sobre a teoria da física moderna e a teoria quântica da cosmologia. Nele referia-se a tal teoria que sugere a existência de múltiplos universos e dimensões de tempo-espaço. Com dificuldade em ultrapassar esse momento, Constelações foi então, segundo o próprio, a sua «tentativa de dramatizar este dilema: o desejo de lembrar, por um lado, e a necessidade de esquecer, por outro».

‘Constelações’ que não deves perder

Com uma excelente interpretação e desconstrução de um texto que não é fácil, tanto de perceber como de explicar, Joana Brandão e Pedro Laginha deixam-nos a pensar na facilidade com que tudo começa, se transforma e termina. Na vida que passa tão depressa e durante a qual estamos permanentemente expostos a elementos que influenciam as nossas decisões e tudo o que acontece à nossa volta. Tal como como um zangão, que vive apenas para reproduzir uma vez com a Abelha-Rainha e depois é morto. Tal como as obreiras e a própria Rainha, cuja função se repete vezes e vezes sem conta e cujo destino está traçado.

Esta é uma viagem entre os altos e baixos da vida com base na relação de um simples casal, e onde experiências e emoções se revelam humanamente universais. Um desafio aos espectadores que, habituados às tramas com princípio, meio e fim, podem aqui descobrir um novo desfecho em cada uma das múltiplas variantes da história de amor de Mariana e Rodrigo. Um desafio que te propomos até ao dia 31 deste mês.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Constelações estará em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, de quarta a sábado, às 21h30, e domingos, às 16h00. Os preços dos bilhetes variam entre os 7,50 e os 15 euros e podem ser adquiridos nas bilheteiras online e no Teatro.

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