Antes que matem os elefantes já chegou à capital portuguesa. Depois de ter estreado em Ílhavo e ter passado por Famalicão é acolhida no Teatro Camões. Os movimentos são ‘brutos’, o ambiente desarrumado e a realidade daqueles sete bailarinos em palco é crua. Estão num abrigo dentro do cenário de guerra, em Alepo, na Síria.

Uma confusão real

As frases surgem sem imagens. Fala-se de guerra e de sonhos. Uma contradição que apenas faz sentido quando percebemos que as vozes das palavras projectadas no ecrã são de crianças. A sua pátria está em guerra e os seus diálogos parecem confusos. Talvez seja confuso para quem vê, uma criança a falar de sangue, de falta de liberdade, da morte. Estas vozes pressupõe um espetáculo, que se irá confirmar: distante, mas íntimo.

Tirada a tela preta, há um cenário desarrumado, um sofá, um frigorífico, colchões e pedras grandes, ou apenas a sua decomposição. Há sete pessoas em palco, parecem distantes umas das outras. E estão-o na verdade, a única ligação que têm parece ser o local onde conseguiram abrigo: um apartamento em Alepo.

Cada um dos bailarinos encarna uma 'persona'. Foto: Paulo Pimenta

Foto: Paulo Pimenta

Sete diferentes ações em guerra

De ténis e fatos de treino, são sete os bailarinos em palco. É fácil acompanhar a sua ação ao longo da peça, pois têm personalidades bastante distintas. André de Campos é aquela que se demonstra mais forte, como que organiza o grupo e o desfaz. Carla Ribeiro é como a “mãe” do grupo e a bailarina que cria uma afectividade com o público. Seja pelo seu lamento cantado ou pelos movimentos mais suaves. Marta Lobato é mais violenta, tem movimentos mais agressivos e funciona como uma “explosão” de energia em palco. Já não é novidade que a bailarina tenha essa função nas peças de Olga Roriz, é como que se fosse a sua personalidade. Bruno Alves como que vai acumulando as inquietações dos seus companheiros no abrigo e Bruno Alexandre é o mais apagado, não que queira dizer que não esteja em cena, mas que vai vivendo da recolha dos desgastes dos movimentos dos restantes.

Também Francisco Rolo e Beatriz Dias merecem destaque. Dois bailarinos que foram rebuscados do For Dance Theatre conseguem estar à altura dos veteranos e que já estavam juntos desde Propriedade Privada. Francisco é como que uma personagem nervosa, inquieta, preocupada com o grupo, como que um alerta para a realidade e uma ligação com as vozes das crianças. Beatriz é mais invisível na peça e tecnicamente mais apagada que Francisco, mas cumpre e é nas euforias em que André de Campos faz a separação que Beatriz se mostra qualidade de movimento.

Há como que um protesto e uma purificação

Em conjunto, olham várias vezes para a diagonal do primeiro canto direito. É como se algo os sugasse para aquele local. Como se fosse um motivo de esperança para que o apartamento fique mais arrumado e a guerra lá fora termine. É também quando estão em conjunto que a música é mais intensa, Cantus Lamentus, de Dhafer Youssef . O movimento de grupo é uma passagem curta pelo chão, mas que apazigua os ânimos. Há também a lavagem de cabelos. Como que um ritual que procura a normalidade. Ouve-se a água a escorrer, apesar de não se conseguir ver com nitidez a ação.

André de Campos descreve a sua personagem como violenta, mas ao mesmo tempo, apaziguadora. Foto: Paulo Pimenta

Foto: Paulo Pimenta

O que estamos ali a fazer? 

Para muitos talvez pareça impossível, mas a peça sobrevive grande parte do tempo sem música. Tal e qual como os habitantes daquele abrigo permanecem sem a normalidade. Suspiros, lamentos, respirações ofegantes, embates no solo e arrastar pelo poeira da destruição é esta a banda sonora mais forte de Antes que matem os elefantes. Pode parecer constrangedor o silêncio na plateia, mas é o ideal na linha de um espetáculo como este. Faz com que o espetador por vezes olhe em volta, se remexa na cadeira e se sinta desconfortável. A inquietação não é só em palco. O que estamos ali a fazer?

É uma peça que entra na linha de Propriedade Privada pela aproximação a uma situação real e dura e que se confronta com o ambiente de Pets pela desarrumação e materialidade. Não é um espetáculo fácil. É longo (cerca de 1h50min) e hipnotizante. Há a estranheza de não ser um sítio desconhecido, mas também não aquele que habitamos. Há sempre um lugar estranho, o da guerra e do terrorismo. A Companhia Olga Roriz encontrou o para lançar o desafio. E se fosse connosco? Aqueles bailarinos podem ser qualquer um de nós. Um espetáculo que precisa de uma continuação, quem foram estas personas que conhecemos? Olga Roriz pensa nisso, vamos esperar. Neste momento precisamos de peças com este fôlego.

Antes que matem os elefantes vai estar nos dias 15 e 16 de julho, no Teatro Camões, em Lisboa. No dia 23 de setembro, no Teatro Sá da Miranda, em Viana do Castelo. No dia 29 de outubro no Teatro Municipal de Bragança e de 26 a 28 de janeiro de 2017, no Teatro Municipal São João, no Porto.Para mais informações, consulta aqui.