André de Campos começou o seu percurso na Companhia Olga Roriz como estagiário. Nesse período, foi o responsável pelos ensaios do espetáculo Pets. Após ter também estado envolvido na reposição de Propriedade Privada, volta à companhia para interpretar uma peça em plena guerra na Síria. André está em Alepo com mais seis bailarinos.

Um voto de confiança renovado

“O processo de Pets foi muito grande”, adianta André de Campos sobre a reposição realizada em 2015. O bailarino tem conhecimento da causa. Para além de ter dançado a peça, André foi ensaiador. Esteve ao lado de Olga Roriz durante quatro meses. “Foi um voto de confiança”, afirma o bailarino.

O voto de confiança voltou com a reposição de Propriedade Privada, no mesmo ano. Houve uma audição e André de Campos interpretou o papel de Fabrizio Pazzaglia, que dançou a criação em 1996. Volta agora com Antes que matem os elefantes.

André de Campos foi um dos intérpretes de 'Propriedade Privada'. Foto: Alípio Padilha

André de Campos foi um dos intérpretes de ‘Propriedade Privada’ (o primeiro à esquerda). Foto: Alípio Padilha

Antes dos ensaios há uma pesquisa pessoal

Oficialmente, os ensaios para a peça começaram em fevereiro, mas André de Campos refere que existiu uma pesquisa muito pessoal antes. “Neste caso era fácil de explorar o tema, porque dava todos os dias no jornal”, assume. Contudo, acrescenta que tal informação não era suficiente. Havia um trabalho de contextualização a ser desenvolvido. “Tivemos de ir à origem de tudo. À origem de refugiados, à maneira como eles eram tratados e o porquê de acontecer desde há 500 anos. Eu acho que não pode só fazer o que existe agora”. O bailarino fala na procura de uma justificação para o que está a acontecer atualmente.

Após a pesquisa, surgem momentos de partilha com Olga Roriz, que o bailarino destaca serem como uma “mostra de ideias”. Viram vídeos, levaram textos e experimentaram músicas. E no fim, acabaram por andar atrás no tempo. “Começamos pela viagem e pela ideia da viagem e fomos até à ideia da origem da crise, a guerra na Síria”, afirma.

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André conta que existiram alguns momentos de tensão nos ensaios. “Os bailarinos dão-se todos bem. Só que há tensões e havia momentos que de repente olhávamos em volta e perguntamos o que está a acontecer?” Durante o processo de improvisação até chegarem à peça “aconteceram coisas estranhas”, como salienta. “É como se estivéssemos num sítio onde nunca estivemos. Mas aquele sítio existe na nossa cabeça. De repente, partilhamos exactamente o mesmo sítio”, reflecte.

O bailarino aponta que o maior desafio foi ter de experimentar um sítio em que nunca esteve, mas que pode estar na iminência de experimentar. “Aliás, na Síria, em Alepo, uma parte da cidade não experimentou esse estado de sítio, essa guerra constante. É a privação de tudo! De repente, a casa não existe, os bens materiais não existem, a família não existe. Só existe uma memória. Para nós é difícil porque temos tudo isso. Temos inclusive material e equipamento para pesquisar pessoas que não têm isso”, esclarece.

André de Campos revela que existiram momentos de tensão nos ensaios. Foto: Paulo Pimenta

André de Campos revela que existiram momentos de tensão nos ensaios. Foto: Paulo Pimenta

São dois os elementos que André destaca em palco. Um desses elementos é as pedras, que representa destroços, com que tem de dançar: “É um material muito abrasivo ao corpo. Ainda tenho marcas no corpo das apresentações que fizemos.” Também a música, e a falta dela, para si, torna a peça mais “íntima”. “Somos só nós, o barulho do material, do cenário, das nossas roupas e a respiração, o que se torna mais difícil. É mais desafiante”, diz sobre o facto de a música começar 20 minutos depois do espetáculo se iniciar.

Uma personagem violenta mas apaziguadora

Na peça, André tem vários momentos. O bailarino fala numa “violência explicita”, mas que não é agressiva. “É uma violência que vem de um auxílio, de uma urgência e é essa urgência que faz que essa violência venha ao de cima”, explica. Para a construção da sua ‘persona’ revela que viu e se seguiu por vídeos. “De repente, cai uma bomba, cai um prédio e está ali alguém que é teu querido, que é teu conhecido, tu tens de agarrar e tirá-lo dali para aquela pessoa não morrer”, esclarece sobre o que foi visualizado e utilizado para concretização da personagem.

André de Campos descreve a sua personagem como violenta, mas ao mesmo tempo, apaziguadora. Foto: Paulo Pimenta

André de Campos descreve a sua personagem como violenta, mas ao mesmo tempo, apaziguadora. Foto: Paulo Pimenta

Olga Roriz descreve a personagem de André de Campos como tendo dois pólos. Para a coreógrafa, é alguém que junta e afasta as pessoas. “Tanto é muito pacifico, como de outras vezes não é nada pacífico”, aponta. Sobre o bailarino, a coreógrafa denomina-o de um intérprete “inteligente”, uma pessoa que vê e lê muito. “Não tem que se ler tudo, mas tem que ter lido o bastante para poder ler o que estou a dizer nos ensaios. Nesse aspecto, o André não só sabe, como também me dá exemplos de outras coisas que eu própria não sei. Isso é o que eu preciso dos bailarinos”, afirma sobre André.

Um bailarino “inteligente” e “exigente”

Sobre o percurso de André na companhia fala numa “relação muito correcta” quando foi ensaiador de Pets. “Os bailarinos nunca tinham visto o André ao pé de mim como assistente. Tudo correu muito bem. Ele é exigente, mas distante, portanto há um respeito e tem uma qualidade muito especial: não se irrita facilmente”, conta a coreógrafa. Quanto à sua participação em Propriedade Privada: “Gostei muito do trabalho, da entrega e por ter ultrapassado as dificuldades que teve. Depois para mim foi óbvio que ele fizesse a próxima criação”. 

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Olga Roriz fala de André de Campos como um bailarino inteligente. Foto: Paulo Pimenta

Licenciado em Dança pela Escola Superior de Dança, André revela que começou a ver as peças de Olga Roriz antes de começar a dançar. “Foi se calhar uma das razões para começar a dançar. Não digo que seja a principal, mas foi uma das grandes razões”, conta o bailarino. Já há mais de um ano a trabalhar com a coreógrafa, André descreve o trabalho de Olga Roriz como “desafiante” e de um “rigor físico e, ao mesmo tempo, sensível”. 

O bailarino já trabalhou também na Companhia de Dança de Almada e na Companhia de Dança Contemporânea de Évora. Vai também estar na Alemanha a apresentar um solo da sua autoria: Cellar. A peça está incluída numa trilogia de três solos, o projecto Aurora.  “É um projecto muito cinematográfico, falo muito sobre vários filmes e peças que me influenciaram enquanto bailarino e performer”, refere. Em paralelo com a Companhia Olga Roriz está também a uma residência artística multidisciplinar na Alemanha, designado Wbmotion Kultur Verein. “É o trabalho oposto com o da Olga, mas é um complemento, uma mais valia”, esclarece.

Como ver a peça mais recente de André de Campos como bailarino:

Antes que matem os elefantes vai estar nos dias 15 e 16 de julho, no Teatro Camões, em Lisboa. No dia 23 de setembro, no Teatro Sá da Miranda, em Viana do Castelo. No dia 29 de outubro no Teatro Municipal de Bragança e de 26 a 28 de janeiro de 2017, no Teatro Municipal São João, no Porto.Para mais informações, consulta aqui.