A Quatro Quartos estreou a sua nova peça Baixa-Chiado, uma adaptação de Central Park West, de Woody Allen. O Espalha-Factos foi assistir ao espetáculo e ainda conversou com o jovem grupo de atores da Escola Secundária de Mem Martins.

A Quatro Quartos é um grupo que pretende vir a tornar-se uma Associação Cultural, não só incidindo no teatro mas também em outras formas de arte. “A nossa base de criação inicial é ainda o teatro, base de formação dos fundadores, mas pretendemos alastrar as nossas criações para cinema, música, BD e causas sociais ligando a arte e os jovens de risco na região de Sintra. Para já, os primeiros passos são dados no teatro”, diz Tiago Pereira, um dos fundadores da Quatro Quartos, ator e encenador da peça Baixa-Chiado.

O talento reconhecido

A peça é já o quinto espetáculo produzido pelo grupo, embora apenas o segundo oficial da Quatro Quartos (sendo que os anteriores surgiram de colaborações). Baixa-Chiado foi, ainda, um passo numa nova direção, na medida em que incluiu não só os atores já pertencentes à Associação, mas convidou ainda duas atrizes, Ana Colher e Raquel Lopes, de um outro grupo de teatro.

“Fui convidada pela Quatro Quartos no fim de um espetáculo do meu antigo grupo (o grupo Reticências, da Escola Secundária Leal da Câmara). O Tiago e o Bruno [fundadores da Quatro Quartos] fizeram-nos o convite, a mim e à Raquel, e nós aceitámos um pouco às cegas, sem sabermos bem para o que íamos”, explica Ana, a Julieta de Baixa-Chiado. “Gostei de ver o meu trabalho reconhecido por outras pessoas que já tinham experiência na área. Tem sido uma experiência boa e interessante. A forma como o grupo de organiza é muito diferente daquilo a que eu estava habituada”, acrescenta Raquel, que, no palco, dá voz a Filipa.

A pequena sala enche-se rapidamente de pessoas curiosas que se sentam nas almofadas dispostas no chão. É noite de casa cheia e a equipa de produção acaba por ter de colocar cadeiras para que todos os espectadores fiquem sentados. O palco está escuro e distingue-se apenas o contorno de um sofá. Uma atriz entra em palco, senta-se, as luzes acendem-se e o espetáculo começa.

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Foto: Gonçalo Sousa

Amor e traição

Tudo o que se segue é um reboliço de emoções e de reviravoltas, de surpresas e de escândalos. O público ri-se com as tiradas irónicas e os dramas que se desenrolam um atrás do outro na sala de estar de Filipa, uma psicanalista sarcástica e com um carinho especial pelo álcool. À medida que a sua sala se vai enchendo de pessoas que rapidamente passam de amigas a inimigas, o público fica mais preso no enredo que se adensa à sua frente. É uma história de amor e traição, com um duplo sublinhado na traição. O elenco, embora pequeno, enche as medidas: cinco personagens, cada uma com o seu distúrbio e dose de loucura.

O fim, tão surpreendente e catastroficamente hilariante como toda a peça, deixa os espectadores a aplaudir de pé. “Baixa-Chiado é uma peça caracterizada por uma forte energia, quer a nível de diálogos quer a nível de movimentação”, descreve Madalena Pronto, uma das atrizes da peça, que dá vida a Carolina. “A complexidade deste texto é ter de ser dito muito rápido pois grande parte dos diálogos do espetáculo são em tom de discussao”, acrescenta Bruno Santiago, que veste a pele de Ricardo na peça. Tanto na voz dos atores como na perspetiva do público, é impossível negar o quão eletrizante e arrojada é esta maravilhosa adaptação de Woody Allen.

A paixão pela criação artística

E porque um espetáculo é apenas a ponta do icebergue daquilo que levou à sua apresentação, o Espalha-Factos falou com a pequena equipa de atores que constitui a Quatro Quartos sobre todo o processo de preparação para esta peça e também as dificuldades que encontraram na organização da mesma. “Felizmente encontrámos um grupo muito bom e bem organizado e contámos também com o enorme apoio do nosso técnico Marco Lopes, pelo que a preparação e organização do espetáculo correu tão bem quanto podia correr. A parte mais complexa é mesmo a montagem e desmontagem da sala todos os fins-de-semana. Tenho sido sempre eu a gerir esta montagem e é coisa para durar cinco horas a montar e entre uma e duas a desmontar”, explica Bruno Santiago, produtor e ator de Baixa-Chiado. Tiago Pereira diz, ainda, numa nota positiva: “Temos as dificuldades que todos os grupos não profissionais e sem apoios têm, mas como somos unidos e nutrimos uma paixão enorme pela arte e pela criação, conseguimos organizar-nos para tudo corra nas melhores condições.”

A dinâmica e união do grupo de atores que forma a Quatro Quartos é transparente e percetível, caracterizada por uma força de vontade que nasce do amor pela arte. Esta motivação sente-se não só quando pisam o palco, mas também quando as cortinas baixam. “Apesar das dificuldades que por vezes surgiram relacionadas com o espaço, tempo, ideias ou materiais, conseguimos sempre superar isso e transformar um corredor de uma escola num palco digno de se ver Teatro, da melhor forma que conseguimos”, conclui Raquel Lopes.

A Quatro Quartos promete regressar em setembro com novidades, e o Espalha-Factos aconselha desde já que sigam o percurso desta ousada Associação.