Tudo começou há uma ano e meio, quando Olga Roriz decidiu fazer uma nova criação sobre pessoas em movimento. Não tardou muito até que os noticiários começassem a falar dos migrantes do Mediterrâneo. A Europa tinha acordado para uma situação que já não era nova. Para Olga, fez logo sentido. A coreógrafa pensou que tinha encontrado o seu tema: refugiados. Mas bastaram alguns dias de ensaios para que percebesse que em palco deveria estar algo mais concreto, deveria ir à origem do problema. Para isso, colocou sete bailarinos num apartamento em Alepo, na Síria. Assim surgiu Antes que matem os elefantes, da Companhia Olga Roriz.

Como surgiu a ideia?

A ideia era “simples” e “muito forte”, diz Olga. A coreógrafa queria desenhar uma peça com um grupo de pessoas que procurava um novo lugar. Em palco, estariam homens, mulheres e crianças. Até pensou em reunir a comunidade nos sítios onde apresentasse o espetáculo. Mas as notícias confrontaram-na com os migrantes que atravessavam diariamente o Mediterrâneo. “De repente, tinha tudo a ver”, recorda.

Tinha chegado a algo concreto e começou a pesquisa. Viu documentários. Mas não era suficiente. A coreógrafa tinha de ir ao local, ao sítio onde tudo acontecia. “Não era tanto a situação dos campos de refugiados, mas as situações que acontecem de sítio para sítio. Os locais não estão preparados para esta invasão de tanta gente. Há conflitos que acontecem e tinha de perceber quem eram aquelas pessoas que saiam, que deixam as suas casas, parte da sua família, os seus trabalhos, pertences e vêm só com uma mochila às costas”, conta.

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Em dezembro de 2015 vai a Atenas, a um campo de refugiados, com a autorização da embaixada. Nesta jornada, foi à Praça Victoria, onde se trocavam os passaportes e se compravam os bilhetes de autocarro para se passar da Macedónia para o outro lado da fronteira.

E foi ao porto de Pireus, onde os migrantes chegam por mar. Nessa altura tinha definido que o espetáculo se chamava Welcome. “Aquela situação foi forte. Estares lá não tem nada a ver com o que vês nas notícias. Aquilo marca-te. Estás a olhar para as pessoas. Sentes tristeza, vês fome e o frio das crianças, porque mais de 50% são crianças. Depois, vêm as ajudas, as pessoas desesperadas ou a paciência de uma espera que é demasiada das pessoas velhotas mais debilitadas”, relembra a coreógrafa sobre a visita.

“As crianças estavam a brincar, mas ver tudo faz muita impressão”, revela dizendo que foram muitas as vezes que ficou com a lágrima no olho. Seriam as crianças o início do seu espetáculo, ou melhor, as vozes dessas crianças. Sem cor, sem imagem, só as vozes das crianças.

Como foi trabalhar com os bailarinos?

Os ensaios começaram e Olga encontrou os bailarinos “sensibilizados”. No início começaram por ver vídeos de campos de refugiados, mas também do próprio conflito na Síria, nomeadamente em Alepo e Damasco. O seu pensamento começa a virar-se para outra dimensão. “Não vou fazer nada sobre refugiados. Eu vou é ao problema”, esclarece.

Até que chega ao dia de comunicar aos bailarinos: “Disse-lhes: ‘Ou vamos continuar com o tema dos refugiados ou vamos passar com um grupo de pessoas que estão num abrigo numa cidade síria, que para mim é Alepo, debaixo de guerra e são os condenados a ficar lá.’ Eu começo a falar nisso com uma clareza e com uma vontade e uma paixão, que eles perceberam logo que não vale a pena contrariá-la”, brinca sobre o anúncio que fez aos bailarinos.

Os bailarinos estão presos num apartamento em Alepo. Foto: Paulo Pimenta

Os bailarinos estão presos num apartamento em Alepo. Foto: Paulo Pimenta

A partir daquele momento, os bailarinos sabiam que iriam dançar num espaço concreto: um apartamento. “Já não há a vida normal, o frigorífico já não funciona e serve para outro tipo de coisas.Há uns baldes de água e uma bacias, onde se guardam as pedras”, descreve. Começaram sessões de improvisação para perceber quem era quem naquele apartamento e o que era cada um em relação aos outros. “Cada um foi encontrado o seu lugar e é difícil esse momento”, assume.

Cada um dos bailarinos encarna uma 'persona'. Foto: Paulo Pimenta

Cada um dos bailarinos encarna uma ‘persona’. Foto: Paulo Pimenta

Bruno Alves, Bruno Alexandre, André de Campos, Carla Ribeiro e Marta Lobato já tinham partilhado o palco na reposição de Propriedade Privada. A eles, juntaram-se Francisco Rolo e Beatriz Dias, que Olga Roriz conheceu no For Dance Theater, a escola da companhia. Os sete bailarinos criaram uma “persona”, de muitas formas reivindicativa. Surge a questão: Este é um espetáculo reivindicativo? “Penso que aquilo pode levar o público a pensar nesta situação e despoletar discussões, mas não em relação ao próprio espetáculo”, responde Olga.“Há uma reivindicação física e um olhar que está num poder no canto esquerdo do palco. Há algo que faz juntar os bailarinos e algo que os chama a um sítio, esse algo tem a ver com o poder. Eles vão reivindicar com pujança física e militar. Há dois momentos em que se juntam, para reivindicar e para rezar, mas rezar no sentido de se lamentar”, acrescenta.

Surgiram dúvidas durante o processo de criação?

Foram algumas as dúvidas que foram surgindo sobre a direcção do espetáculo. A meio, a coreógrafa ainda pensou que a peça deveria só ser feitas por homens. “Não sendo eles familiares, não se iam juntar num apartamento, que não tem condições nenhumas, homens e mulheres que não se conhecem. Iam-se juntar um grupo de mulheres para um lado e um grupo de homens para o outro. E percebi, que erro”, recorda. Mas assim que comunica isso aos bailarinos, as mulheres modificam-se e o espetáculo torna-se muito masculino.

Marta Lobato. Foto: Paulo Pimenta

Marta Lobato. Foto: Paulo Pimenta

A destruição sente-se no espetáculo?

Durante os ensaios, Olga foi criando um cenário com diferentes situações. Organizado, desorganizado, um caos ou completamente vazio, para que os bailarinos trabalhassem as memórias dos objectos. “Há sofás, que já estão meio destruídos, onde põem cobertores por cima. Depois há também colchões de campismo, sacos- cama, bidons com água, um fogãozinho e um frigorífico”, enumera.  Depois há ainda um elemento que se destaca na destruição do apartamento, as pedras com que os bailarinos dançam.

Marta Lobato. Foto: Paulo Pimenta

Marta Lobato. Foto: Paulo Pimenta

A música… bem, a música começa 20 minutos depois do início do espetáculo. Numa selecção musical feita por João Rapozo e Olga Roriz,entre o mais reivindicativo, de Two Fingers, ou o mais religioso, de Dahfer Youssef com Cantus Lamentus, há seis músicas e silêncio. “Do ponto de vista musical, é um bocadinho arriscado, mas ao mesmo tempo, o espetáculo é muito sonoro com o raspar dos corpos no chão e isso torna-o mais real. Cria reações no público muito fortes”, afirma.

Depois há um reconhecimento que a coreógrafa explica virem dos figurinos. Os bailarinos vestem-se com roupas que podiam ser deles, sem máscaras. “Sentes aquela gente. Gosto de ir a um espetáculo e sentir que fiquei amiga daquela gente e que podia conversar e isso acontece-me nos espetáculos da Pina.”

Carla Ribeiro e Bruno Alves. Foto: Paulo Pimenta

Carla Ribeiro e Bruno Alves. Foto: Paulo Pimenta

Mas a sensação de guerra não vem só da música e nos figurinos. A parceria no desenho de luz entre Cristina Piedade e Olga Roriz continua e desta vez com a teia dos projectores caída. “Tem uma força muito grande e faz uma diferença enorme, para a Cristina são umas luzes completamente diferentes Os projectores são muito pequeninos, é uma coisa rudimentar, como se fazia antigamente”, salienta. Este tipo de luzes permite até que se possa, quem sabe,fazer o espetáculo ao ar livre.

É um espetáculo no sítio certo?

Por todo o processo e resultado, Olga pode afirmar algo que nunca disse sobre os espetáculos restantes: “Era isto mesmo que eu queria. Já estava um bocado apaixonada no ensaio geral. Gosto muito deste espetáculo.” A coreógrafa explica que é uma teatralidade que começa de dentro: “Há um sítio perfeito para mim, que é uma coisa que eu nunca disse sobre um espetáculo meu. De perfeição do que eu queria mesmo e ser aquilo, ainda por cima estamos a falar de uma coisa específica, não foi ao lado, foi aquilo. Tem o seu tempo, tem aquelas situações, aquele peso, aqueles silêncios, mas podia ter a vontade de cortar aqui ou ali, mas não. Acho que lhe iria tirar a essência.”

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Marta Lobato e André de Campos. Foto: Paulo Pimenta

Há relação com peças anteriores da companhia?

A essência deste espetáculo pode vir de espetáculos anteriores. De Terra, estreado em 2014, tem “eventualmente” a matéria, em que o corpo estava em relação com terra. Em Antes que matem os elefantes, há o corpo em relação com pedras. Com Propriedade Privada, pode ter o concreto dos temas. Se em Propriedade Privada tem os 100 anos do cinema. Contudo, este espetáculo não é fragmentado, “tem princípio, meio e fim.”

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Como surgiram os elefantes no título da peça?

No fim, faltava o nome. Welcome já não se adequava e Olga procurou a morada de uma rua em Alepo. Contudo, apercebeu-se que as moradas funcionavam como números, apenas as ruas principais tinham nome. “Não me apetecia muito ter um número num título”. Foi a sua musa da época em que coreografou no Ballet Gulbenkian que encontrou a solução. Depois de ver alguns ensaios, Elisa Ferreira sugeriu ‘antes que matem os elefantes’. “Vi que elefantes é o nosso reduto. Extinguir os elefantes era quase extinguir a raça humana. São os nossos dinoussaros”, reflete. A antiga bailarina  ficou “super contente” e tudo fez sentido para Olga. “Há um momento do espetáculo que chamamos andar de elefante, que depois de falarmos de elefante, parece mesmo um andar de elefante“, conta.

Onde se pode assistir?

Para a estreia andaram até Ílhavo, no dia 29 de abril, o dia mundial da dança, seguido de Famalicão. A adesão do público foi sentida pela coreógrafa. “As salas estavam quase cheias. E estamos a falar em dois sítios que não são as capitais e estão habituadas a ver”, diz com agrado.

Antes que matem os elefantes vai estar nos dias 15 e 16 de julho, no Teatro Camões, em Lisboa. No dia 23 de setembro, no Teatro Sá da Miranda, em Viana do Castelo. No dia 29 de outubro no Teatro Municipal de Bragança e de 26 a 28 de janeiro de 2017, no Teatro Municipal São João, no Porto.

Depois seguem-se novas criações, quem sabe um seguimento deste espetáculo. “Curiosamente, estou com muita vontade de pegar de novo neste espetáculo. Talvez a minha próxima criação seja continuar este espetáculo do sítio onde parou. Nunca fiz isto, mas estou mesmo com vontade. Porque nada mudou em relação ao que estamos a falar e porque queria dar um outro ponto de vista, mas queria dar voz àquelas pessoas. Elas nem abriram a boca.”

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