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Chevalier: o homem é a medida de todas as coisas

A bordo de um iate, seis homens competem por um anel dourado. E todavia, assim que detetamos em Chevalier indícios de uma farsa de tom político, reformulamos essa frase introdutória. A bordo de um iate de luxo estão seis patéticos exemplares da nova burguesia grega que lutam para se tornarem visíveis, distintos, nobres. Será este um dos ângulos a partir dos quais podemos contemplar a narrativa e as suas personagens? É que o filme não perde muito tempo para nos recusar – pelo menos, parcialmente – essa leitura possível, com gags eficazes (mas, na sua maioria, desconexos) que aproximam este barco da costa do humor nonsense e o afastam da crítica social que antecipámos. Afinal, a bordo de um iate estão seis homens ridículos num jogo igualmente ridículo, pouco mais que isso. Ficamos, portanto, à espera do riso, porque agora nos julgamos mais conscientes do tipo de filme que estamos a ver. Mas as piadas não são tão numerosas quanto imaginávamos, e falta-lhes a carga surrealista necessária para uma verve de denúncia (que nos faria regressar às águas sociopolíticas de onde partimos). Pois se a comédia é irregular e o enredo demasiado fechado em si mesmo para permitir a entrada da metáfora e do subtexto, dificilmente se percebe o destino da rota percorrida por Chevalier.

No entanto, seria injusto classificar a terceira longa-metragem da cineasta grega Athina Rachel Tsangari (colaboradora frequente de Yorgos Lanthimos) como um projeto à deriva, em busca de um conceito, porque é evidente que pelo menos um tema é consistentemente abordado ao longo do filme: o da masculinidade vista como uma ansiedade, como um esforço de constante redefinição ao qual todos os homens se submetem com a ambição de se adequarem perfeitamente às várias instâncias da vida social. A virilidade é, por isso, um jogo que nenhum dos participantes de Chevalier quer perder.

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Retomemos a premissa: a bordo de um iate, seis homens competem por um anel dourado. Essa competição baseia-se num flexível sistema de atribuição de pontos (inventado por eles mesmos) que premeia a conduta digna, padronizada, e pune os comportamentos indesejados, a extravagância (a não ser que esta apenas sirva propósitos humorísticos e seja, consequentemente, inofensiva neste combate de egos masculinos). Tsangari faz o que pode com esta premissa: dá-nos um convincente estudo de personagens que se pontuam umas às outras e que funcionam como as diferentes faces de um mesmo prisma – o do moderno homem ocidental, afetado e inseguro. Mas, porque não está situado explicitamente no território da comédia alegórica ou da alegoria cómica, este fio narrativo é ténue e insuficiente. Entre os momentos de foco humorístico, o filme divaga, dispersa-se e demora-se – nas paisagens, nos tiques de personagens e em diálogos inconsequentes.

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A verdade é que queremos muito rir da prestação dos atores, que nunca abandonam o navio ambíguo que é Chevalier, comprometendo-se, feliz e infelizmente, com essa sua indefinição que não resulta num sentimento de mistério, e é somente frustrante. Porém, o argumento não nos permite grandes divertimentos, não por muito tempo; antes prefere fazer desfilar um conjunto de planos bem cuidado mas exasperante pelo seu silêncio (ou pela sua incapacidade de nos dizer o que quer que seja para além do nível imediato e sensorial em que ocorre). Falta um porto de chegada a este filme – uma desilusão, porque pelo caminho, Chevalier até faz algumas paragens interessantes.

5/10

Ficha técnica
Título: Chevalier
Realizador: Athina Rachel Tsangari
Argumento: Efthymis Filippou, Athina Rachel Tsangari
Elenco: Vangelis Mourikis, Nikos Orphanos, Yorgos Pirpassopoulos
Género: Comédia dramática
Duração: 99 minutos

 

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