Rodrigo Amarante
Margarida Silva

Rodrigo Amarante, o homem do improviso e falatório

Não têm sido poucos os exemplos de músicos brasileiros que ao longo dos tempos têm sido capazes de cruzar o Atlântico para vir conquistar Portugal. Em termos demográficos, o desafio não lhes deve ser particularmente assustador. De qualquer forma, olhando para um grupo como a Banda do Mar que andou quase um ano a esgotar salas onde quer que fosse nesta terra, deve ser gratificante ver o amor que se recebe num país que não é o deles, mesmo que ali houvesse um Fred Ferreira que servia como ponte de ligação.

Desta vez o caso é o de Rodrigo Amarante e é também significativamente diferente. Não só porque este já tem vindo a seduzir o público português há bastante tempo mas, também, porque se poderia dizer que as pretensões de conquista de Amarante são um bocadinho diferentes. Não parece que ele queira só Portugal, é capaz de querer o mundo. E tem conseguido.

Rodrigo Amarante

Num Tivoli cheio até às costuras, o homem da noite subiu ao palco quando já não faltava muito para as 22 horas. Rapidamente se percebe o minimalismo dos concertos que por cá se darão nesta mini-tournée: uma guitarra, umas teclas e um Sr. Amarante feliz, pronto para nos cantar o seu primeiro e único álbum Cavalo, mas também para visitar alguns temas de Los Hermanos, Little Joy, da sua Orquestra Imperial e ainda algumas canções novas.

O caminho começou-se num repente com Nada Em Vão, Mon Nom e I’m Ready, canção sobre o soldado que vai para a guerra. Português, inglês e francês. Três das quatro línguas com que Amarante nos foi presenteando ao longo da noite e que, em conjunto com o castelhano da canção Tuyo, completam a faceta poliglota deste senhor afavelmente barbudo. Não vale a pena ir passeando pelas canções que Rodrigo Amarante foi escolhendo porque, a verdade é esta: tocou tudo aquilo que é seu. Naturalmente, destacaram-se a já referida Tuyo, Irene, Cavalo, Tardei, Hourglass e Maná, que foi tocada em medley com uma canção nova, ainda sem nome, e que se centrava em torno da relação de Rodrigo Amarante com os seus pais. Numa das muitas vezes em que o cantor admitiu estar a falar muito mais que aquilo que devia, graças à sua presença naturalmente bem-disposta e humorada, um dos melhores momentos da noite acabou por ser a forma como contou as memórias que constrói dos seus pais.

Foi graças a esses vários momentos de conversa de intervalo entre canções que se foi criando uma dualidade bonita. O Rodrigo Amarante que contou histórias com palavrões no lugar de vírgulas, que declamou poemas escritos em cima do joelho sobre Lisboa e sobre si, que disse que o português de Portugal era a mulher austera e o português do Brasil era a mulher mais bonita mas mal vestida, foi o mesmo Rodrigo Amarante que, numa delicadeza quase cristalina, cantou e tocou cada canção numa simplicidade bela e encantadora.

Rodrigo Amarante

Para o fim, num encore forçado pelas palmas que teimaram em não cessar, ficaram as músicas emprestadas (afinal, os temas de Cavalo já tinham terminado…). A despedida teve a beleza de tudo o resto. “Obrigado por terem escolhido vir aqui neste dia à noite, sem vocês aí eu não sou ninguém”. Pois naquela noite Rodrigo Amarante foi tudo o que há de bom no mundo.

Fotografia: Margarida Silva