É no primeiro piso do Mercado da Ribeira que acontece o último ensaio dos Buraka Som Sistema antes do derradeiro concerto de 1 de julho, no Globaile. 

A preparação para o espetáculo desta sexta-feira corre ligeira com alguns dos grandes sucessos do grupo. (We Stay) Up All Night, Vuvuzela (Carnaval), Hangover (BaBaBa), Parede e Sound of Kuduro desfilam coladas e o tempo passa num instante. Um pouco como estes 10 anos. Uma performance só para jornalista ver, aperitivo para os últimos passos antes da pausa que nos mete medo.

Não imaginamos como seria hoje o cenário musical português sem a revolução causada pelos Buraka, não conseguimos perceber muito bem quem é que vai continuar a dar injeções desta africanidade gostosa e esfuziante à música feita neste cantinho ocidental da Europa.

Blaya - Buraka Som Sistema

Riot falou connosco sobre estes 10 anos e sobre o futuro e projetos vindouros, antes de se abrir uma interrupção por tempo indefinido.

«Buraka é um projeto de 24h/7 dias por semana e, ao fim de 10 anos, estamos a precisar de brincar a outras coisas».

‘From Buraka to the World’. Nesta altura, no início, há 10 anos… algum dia pensaram que este título se tornaria tão literal para os Buraka? 

Acho que ninguém que se lembre de juntar kuduro a techno, house ou drum n’ bass ou aquilo que fazíamos na altura e fazer uma festinha para 300 pessoas… ninguém está à espera que aquilo [From Buraka to the World] se torne literal. Até era um pouco irónico, mas acabou por “se virar contra nós”. Foi uma bela surpresa de 10 anos.

O Andy Duggan, o vosso agente internacional, diz que daqui a dois anos vocês voltam, que os fãs precisam de vocês. Ele tem razão ou isto é só a expressão de um desejo muito forte? 

Não sei se ele tem razão. Na realidade, o que nós dizemos é que estamos a fazer um hiato por tempo indeterminado. Ele pode ter razão, pode não ter… A ideia, muito sinceramente, agora… é mesmo parar, refletir sobre estes 10 anos, desenvolver os nossos projetos a solo… Somos três produtores, queremos produzir coisas diferentes, produzir outras pessoas. O Kalaf tem outros projetos, a Blaya também.

Buraka é um projeto de 24h/7 dias por semana e, ao fim de 10 anos, estamos a precisar de brincar a outras coisas. E depois, trata-se também, como calculas, de uma carreira internacional. Eu costumo dizer que os 10 anos de Buraka, se juntarmos a carreira internacional, perfazem mais cinco anos do que aquilo que as pessoas estão à espera. Não é propriamente só em Portugal, é pelo mundo inteiro.

Então acaba por ser um bocadinho cansativo ao final de 10 anos. Mesmo para nós que já não temos 16 ou 17 anos, precisamos de pensar um bocadinho mais na nossa vida. Vamos ver o que é que acontece. Não estamos a pensar em matar nada, mas transformá-lo noutras coisas. Tentar que Buraka passe para um plano 2.0, com esta ideia do Globaile, por exemplo.

Riot - Buraka Som Sistema

«Fizemos parte de um acordar de Portugal para um Portugal real que é muito mais que Trás-os-Montes, Estremadura, Alentejo e Algarve».

É interessante falares do Globaile, porque julgo que vocês vêem o Globaile um bocadinho como uma forma de deixar um legado daquilo que é a cultura dos Buraka para outras pessoas e outros futuros…

Não é um bocado, nós vemos isso mesmo como o próximo passo a dar. Poder abrir aqui um espaço em Lisboa, para se tornar a nova Meca da música eletrónica de cariz global. Outros Burakas de outros continentes e de outros países, que merecem ser ouvidos. E que foram, alguns deles, inspirações para Buraka Som Sistema. Outros já foram inspirados por nós… Agora que está a dar a volta já temos muitas bandas inspiradas por nós. Acho que também é engraçado passar para esse plano e desenvolver esse Globaile, uma vez por ano. Fazer um festival aqui em Lisboa onde, se calhar, até podem ver Buraka Som Sistema, quem sabe.

Achas que os Buraka, de certa forma, mudaram a paisagem sonora em Lisboa, embora a cidade tenha sido sempre muito multicultural? 

Agora que Buraka vai acabar acho que posso dizer que sim à cara podre. Acho que sim, acho que mudámos. Acho que é inevitável reparar que antes de 2006 não ouvias kizomba nas telenovelas e os tempos mudaram muito. E nós estávamos lá no início, fizemos parte de um acordar de Portugal para um Portugal real que é muito mais que Trás-os-Montes, Estremadura, Alentejo e Algarve. É um Portugal onde coabitam portugueses, com moçambicanos, com brasileiros, com angolanos. Eu, como uma pessoa de 37 anos, cresci numa escola assim, com o Branko, que cresceu na mesma escola que eu. Foi só começar a pôr esse Portugal que nós vivíamos todos os dias em papel. Saiu o que saiu. Entretanto temos uma Lisboa muito mais realista, muito mais a mostrar aquilo que é.

Buraka Som Sistema

«Era impensável haver um Sumol Summer Fest com Nelson Freitas há três ou quatro anos e agora é normal e os putos nem sequer estranham».

Vocês contribuíram, de certa forma, para abrir uma ‘caixa de Pandora’. Acho que antes já toda a gente ouvia kuduro, kizomba e semba, mas convosco puderam passar a não ter vergonha disso… 

Era aquele guilty pleasure. No início, por exemplo, devia-se ao kuduro estar associado a uma coisa brincalhona. Tinhas, por exemplo, o Hélder, o Rei do Kuduro, havia pessoal a dançar com vassouras… Mas, na verdade, já nessa altura havia muito mais que isso. E acho que Portugal é que pegou por esse pezinho primeiro, porque fazia rir e não era muito levado a sério. Quando as coisas começaram a aprofundar um bocadinho mais, e acho que aí Buraka ajudou, as pessoas perceberam que havia artistas brutais por aí a fazer música maravilhosa.

Acham que têm ‘herdeiros’ para manter em alta este kuduro e esta africanidade na música nacional?

É preciso salientar que herdeiros do kuduro nós não deixamos porque nós não fazemos kuduro. Mesmo a questão do kuduro progressivo começou por brincadeira, porque não sabíamos o que chamar à nossa música. E normalmente, quando não se sabe o que dizer, põe-se progressivo à frente e ’tá a andar.  E depois acabou por colar e toda a gente chama kuduro progressivo. Para nós até quase seria ofensivo, com pessoal a fazer kuduro desde 91, que são produtores brutais. Decidimos parar por agora porque sentimos que estamos bem acompanhados, temos colegas a fazer sons muito válidos e acho que isto, em conjunto com uns festivais aqui, uns concertos ali… hoje é diferente. Era impensável haver um Sumol Summer Fest com Nelson Freitas há três ou quatro anos e agora é normal e os putos nem sequer estranham. Portanto acho que estamos preparados para que isso aconteça.

E para ti, a nível pessoal, que projetos é que te vão ocupar neste tempo de pausa?

Neste tempo de pausa vou-me dedicar o meu álbum a solo, vou-me dedicar a produzir outras pessoas, que é uma coisa que eu também sempre quis fazer muito… Nomeadamente coisas tão distintas como aquilo que fiz com os Deolinda, da ‘Velha e o DJ‘. Coisas que as pessoas não estão à espera. É isso que me move, é surpreender as pessoas por caminhos que elas não estavam à espera. É mais trabalhar como produtor, como DJ, se calhar fazer uma banda ou outra, que eu não consigo estar muito longe ali da bateria, às vezes custa-me um bocadinho.

Fotografia: Beatriz Silva