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Estado Livre de Jones: o filme do costume

Ainda que praticamente nula em relevância artística (nem 12 Anos Escravo pôde transcender a sua condição de lição de História audiovisual), esta nova vaga de cinema que revisita os tempos da escravatura na América oitocentista tem alguma pertinência sociológica – expõe um evidente mal-estar na sociedade norte-americana dos dias presentes, que se espanta consigo mesma ao desenterrar o terrível passado racista sobre o qual está edificada. Nesse sentido, as intenções pedagógicas de Estado Livre de Jones, tal como as de todos os outros filmes inseridos neste género histórico-traumático, são, sem dúvida, as melhores. Mas quando se convocam todos os clichés possíveis e apenas se cumprem os mínimos necessários para traçar o eixo temporal de uma narrativa biográfica, é difícil ensinar o que quer que seja ao espetador que, mesmo sendo um bom aluno (leia-se: alguém genuinamente interessado nestas temáticas), olhará quase tantas vezes para o relógio como para o ecrã. A culpa é, definitivamente, do professor.

Narra-se a história verídica e panegírica (por isso, oscarizável) de Newton Knight, um camponês que se torna num desertor da guerra civil americana quando se desilude com a Confederação pela qual combatia, e que depois decide juntar-se a ex-escravos e soldados fugidos do campo de batalha para com eles formar um novo Estado, uma pequena utopia mestiça que sobrevive à margem dos massacres e da segregação racial. Esta metáfora do oásis, da breve suspensão do terror, tinha potencial para ser explorada de muitas e variadas formas, o que faz com que seja ainda mais frustrante o previsível foco no perigo, na ameaça desta comunidade (que raramente vemos a funcionar na sua normalidade, preferindo-se um constante e falsificado estado de emergência). Há que bombardear o espetador com tiroteios, perseguições e cadáveres, porque o filme arriscar-se-ia a ser interessante, e até, quiçá, memorável, se se atrevesse a passar mais tempo no quotidiano das suas personagens.

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Portanto, temos uma comunidade pacífica que o guião melodramático nunca deixa em paz. O que falta agora? O didatismo, pois claro – entre as cenas de violência, que servem como intervalos de recreio, o espetador tem de aprender tudo o que há para saber sobre estes tempos da História americana, e o enredo até faz questão de nos mostrar as ramificações futuras desse pensamento racista com uma sub-narrativa que decorre no século XX, e que serve somente para engrossar o nosso manual escolar (e já fizemos um esforço tremendo para nos mantermos acordados no resto da aula). Matthew McConaughey, na pele de Knight, poderia resgatar-nos deste tédio, mas a sua versatilidade enquanto ator (ou a falta dela) deixa muito a desejar. A realização anti-séptica de Gary Ross (Os Jogos da Fome, Pleasantville – A Viagem ao Passado) também aborrece, mesmo quando nos atira um ou outro plano mais estilizado, na tentativa de nos convencer de que não é completamente mecânica.

E, juntando-se tudo isto, fica-se com este moribundo Estado Livre de Jones, um filme que tem coisas importantes a dizer mas que nada faz para garantir que o escutamos. Não se recomenda a quem não for capaz de tolerar os seus artificiais e desavergonhados americanismos, essa banal espécie de lugares-comuns que está de tal modo omnipresente no atual cinema mainstream que até a tarefa de denunciá-la se tornou num cliché por si só.

3/10

Ficha técnica
Título: Free State of Jones
Realizador: Gary Ross
Argumento: Leonard Hartman, Gary Ross
Elenco: Matthew McConaughey, Keri Russel, Gugu Mbatha-Raw
Género: Drama histórico
Duração: 139 minutos

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