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Foto: divulgação

‘Esperança’: César Mourão no corpo da velha que é esperança

Foi na passada quinta-feira, dia 23, que o Espalha-Factos se deslocou até à magnífica sala do Teatro da Trindade para assistir ao monólogo que marca o regresso a solo de César Mourão aos palcos do teatro. Depois do Musical e Zapping, agora é tempo de Esperança, A Velha.

Se a morte perguntar, com certeza que Esperança não responderá. Porque, de facto, onde há vida, há sempre esperança e onde há comédia, mesmo que com um toque dramático, César Mourão está pronto a vestir a pele desta que é uma das suas já conhecidas ‘velhas senhoras’.

Mas para quem não sabia o que esperar, ou até para aqueles que pensavam que esta seria apenas uma comédia como as que o comediante português já nos habitou, a surpresa foi o grande elemento da noite. A sátira teve o seu lugar marcado na fila da frente e, ao seu lado, surgiu também a melancolia de uma vida solitária característica e de um amor que não teve pernas para andar.

A crítica social

Esperança é uma octogenária com uma história de amor, muito humor e cheia de memórias para partilhar. Não esquece os seus, nem nenhum dos episódios da sua vida que faz questão de contar, várias vezes, à sua colega de quarto. Ao longo da peça, entendemos que essa seria imaginada pela própria personagem; mais uma forma de se manter ocupada durante todos os instantes que restam da sua vida.

Pelo meio vai surgindo a sátira e crítica social, mascarada de humor, que, aos poucos, vai deslindando assuntos delicados que têm tanto de actual como de pertinente. Fala-se de Salazar e de um regime que impediu muita gente, e até a própria Esperança, de viajar, de concretizar os seus sonhos e lutar por uma vida diferente e melhor. Falam-se das urgências nos hospitais, sempre lotadas e demoradas, sempre cheias de pessoas com pequenos problemas de saúde que um McDrive para hospitais resolvia o problema. O mesmo para os locais onde multidões se deslocam para fazer preces e cumprir promessas.

Fala-se da juventude que é pouco educada, dos homens pouco cavalheiros, da antipatia da sociedade em geral e de um Mundo onde a internet reina e não permite a cada um ter os seus próprios valores e ideias.

A solidão e um amor perdido

Mas é logo no início que Esperança refere aqueles que, supostamente, já a abandonaram. Fala com saudade de um falecido filho, o fruto do seu grande amor de juventude (ambos de seu nome, António), com o qual o seu pai não a permitiu casar-se. Tinha tudo para ter uma vida feliz e uma carreira promissora como fadista. Acabou sozinha num hospital, depois de todos à sua volta se terem desvanecido.

No entanto, faz jus ao seu nome e promete encontrar o seu António, para se despedir e para lhe contar que do amor de ambos nasceu um rebento. Mas não será esta apenas uma espera eterna de viver um grande amor e mais uma das suas histórias imaginárias?

Ao longo do monólogo há pormenores que apenas no final fazem sentido para o público, e é aí que o discurso e toda a peça têm o seu quê de diferente. É aí também que Esperança revela que António esteve ali, a seu lado, numa cama de hospital. Descobre o pente com as iniciais de ambos gravadas e uma carta onde, entre outras coisas, ele lhe conta que sabia do filho de ambos e que foi ele que sempre impediu que ela saísse do país. Afinal de contas, apenas não queria ter de a partilhar com ninguém. Ela tinha sido o seu único e grande amor.

Uma mistura de sentimentos e um ator cheio de talento

Agora, com a sua única missão cumprida, Esperança entrega-se finalmente à morte, ali representada pelo som de um monitor cardíaco que a “chama” desde o início da peça e ao qual ela teima em não responder. A Velha deita-se na cama, o coração para, as luzes desligam-se e a peça termina.

César Mourão surpreende, mais uma vez, com uma performance que além de muitos risos, foi capaz de nos trazer as lágrimas aos olhos. Além de ser um dos maiores comediantes do país, César é um excelente ator e prova-o, mais uma vez, neste monólogo trágico-cómico.

Um texto da sua própria autoria, em conjunto com Frederico Pombares, que decompõe sozinho em cima de um palco. Marca, assim, não só o seu regresso a solo como o regresso às raízes da sua formação pela escola do Chapitô e pela Universidade de Lagoa, no Rio de Janeiro.

A destacar está também o excelente trabalho tanto da caracterização e encenação, como da iluminação, que consegue enfatizar as cenas mais cómicas da peça. Outra, é a brilhante escolha musical com alguns temas mais antigos e bem conhecidos do público. A música Cavalo à Solta, de Ary dos Santos, pela voz de Fernando Tordo, foi uma das escolhidas.

Uma esperança que não deves perder…

Esperança relembra o passado e refere as mudanças dos novos tempos. A solidão da personagem, mas ao mesmo a sua resiliência, mostram-nos que a esperança é de facto a última a morrer.

Uma peça a não perder, uma homenagem aos mais velhos e uma lição de vida que podes e deves assistir até 10 de julho, no Teatro da Trindade, em Lisboa, às quartas e sábados, às 21h30, e domingos, às 18h00.

Os preços dos bilhetes variam entre os 10 e os 20 euros e estão à venda nos locais habituais.

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